Fernando Assis Pacheco (Portugal)

por João Miguel Henriques

A bela do bairro

Ela era muito bonita e benza-a Deus
muito puta que era sempre à espera
dos pagantes à janela do rés-do-chão
mas eu teso e pior que isso néscio desses amores
tenho o quê? quinze anos
tenho o quê uns olhos com que a vejo
que se debruçava mostrando os peitos
que a amei como se ama unicamente
uma vez um colo branco e até as jóias
que ela punha eram luzentes semelhando estrelas
eu bato o passeio à hora certa e amo-a
de cabelo solto e tudo não parece
senão o céu afinal um pechisbeque

ainda agora as minhas narinas fremem
turva-se o coração desmantelado
amando-a amei-a tanto e sem vergonha
oh pecar assim de jaquetão sport e um cigarro
nos queixos a admiração que eu fazia
entre a malta não é para esquecer nem lá ao fundo
como então puxo as abas da farpela
lentamente caminho para ela
a chuva cai miúda
e benza-a Deus que bonita e que puta
e que desvelos a gente
gastava em frente do amor

 

Poeta, ficcionista, jornalista e crítico.

Licenciado em Filologia Germânica pela Universidade de Coimbra, nasceu nesta cidade em 1937 e aí viveu até ir para a tropa, em 1961. Filho de pai médico e de mãe doméstica, sendo o avô materno galego, casado com uma lavradeira da Bairrada, e o avô paterno roceiro em São Tomé foi na juventude actor de teatro (TEUC e CITAC) e redactor da revista Vértice, circunstância que lhe permitiu privar de perto com o poeta neo-realista Joaquim Namorado e com poetas da sua geração, como Manuel Alegre e José Carlos de Vasconcelos.

Cumpriu parte do serviço militar em Portugal entre 1961 e 1963, tendo seguido como expedicionário para Angola, onde se manteve até 1965. Integrado inicialmente num batalhão de cavalaria, viria a ser reciclado nos serviços auxiliares e colocado no Quartel-General da Região Militar de Angola.

Publicou o primeiro livro em Coimbra, a expensas paternas, não obstante se encontrar, na altura, em África. Cuidar dos Vivos se intitula o livro de estreia – poemas de protesto político e cívico com afloramento dos temas da morte e do amor. Em apêndice, dois poemas sobre a guerra em Angola, que terão sido dos primeiros publicados sobre o conflito.

A temática africana de guerra voltaria a impor-se em Câu Kiên: Um Resumo (1972), ainda que sob «camuflagem vietnamita», livro que conheceria em 1976 a sua versão definitiva: Catalabanza, quilolo e volta.

Memória do Contencioso (1980) reúne «folhetos» publicados entre 1972 e 1980, e Variações em Sousa (1987) marca como que um regresso aos temas da infância e da adolescência, com Coimbra em fundo, e refinando uma veia jocosa e satírica já visível nos poemas inaugurais. A novela Walt (1978) atesta-o exuberantemente.

Era notável em Assis Pacheco a sua larga cultura galega, aliás sobejamente explanada em alguns dos seus textos jornalísticos e no seu livro Trabalhos e Paixões de Benito Prada.

Em A Musa Irregular (1991) reuniu o poeta toda a sua produção.

Nunca conheceu outra profissão que não fosse o jornalismo: deixou a sua marca de grande repórter no Diário de Lisboa, na República e no JL: Jornal de Letras, Artes e Ideias. Foi chefe de redacção de O Jornal, semanário onde durante dez anos exerceu crítica literária.

Traduziu para português obras de Pablo Neruda e Gabriel Garcia Marquez.

 

Faleceu subitamente em Lisboa em 1995.

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