Ferenc Pál – O Brasil e a Hungria ao transcorrer dos séculos: escambos materiais, espirituais e culturais (Segunda Parte)

por Pál Ferenc

Intensificando as permutas culturais

Posteriormente, no decorrer dos séculos XVII e XVIII, jesuítas húngaros, como János Zakariás e Dávid Fáy, chegaram ao Brasil como missionários e enviaram à Europa preciosas descrições acerca das terras e das populações com que travaram contato. Em 1720 foi publicado um Itinerarium peregrini philosophi, Sinis, Japone, Cocincina, Canada et Brasilia definitum, editado na Universidade Arquiepiscopal, em Tyrnaviae, por Franciscum Szedlar e pela Sociedade de Jesus. Apenas no ano de 1911 é que as comunicações dos missionários Fáy e Zakariás foram publicadas, em húngaro, em Földrajzi Közlemények, volume XXXVIII. Contudo, os textos, manuscritos ou editados, já traziam aos interessados uma informação geral sobre o país sul-americano.

Dos finais do século XVIII aos primeiros anos do século XIX, não dispomos de dados relativos à divulgação do conhecimento do Brasil entre os húngaros. Contudo, estudando as obras do escritor mais famoso do romantismo húngaro, Mór Jókai (1825-1904), encontramos mais de uma alusão que nos faz supor que não era de todo estranha a imagem do Brasil para o público nacional. Nas obras de Mór Jókai aparecem o nome brazíliafa (pau-brasil) e outras plantas e animais característicos da flora e fauna brasileiras como o aguti ou agouti (cutia), a anakonda (anaconda), a fernambuc fa (outro nome húngaro do “pau-brasil”), guaraná (medicamento feito da semente do guaraná) e guarana kenyér (pão feito de guaraná), mangifa (mangueira) e onka (onça). A transcrição húngara do nome deste felídeo supõe a leitura de algum texto em que esse nome apareça em português, pois só assim se explica a leitura (e, por conseguinte, a pronúncia) incorreta do cê-cedilha. Note-se, como curiosidade, que ainda aparecem as expressões “índios bravos” e “índios fiéis” num texto de Mór Jókai. Além disso, ele também escreveu obras de ficção em que o Brasil é o ambiente da ação, tal como o conto Tíz millió dollár (‘Dez milhões de dólares’), cujos personagens passam uma semana no Rio de Janeiro[1].

Teria sido estranho que o Brasil não aparecesse em alguma obra desse escritor romântico que estava sempre atento ao gosto e às preferências do grande público. E, a partir dos anos de 1850, o público húngaro mostrava-se muito interessado em tudo que dissesse respeito ao Brasil; ou talvez mesmo um pouco antes, pois entre o Brasil e o Império Austríaco (mais tarde Austro-Húngaro) estabeleceram-se relações diplomáticas permanentes já em 1817, quando se implantou um consulado brasileiro na Áustria. O fato não será alheio à influência da casa dos Habsburgos, pois a ela pertencia Dona Maria Leopoldina Josefa Carolina de Habsburgo (1797-1826), que se tornaria futuramente a primeira Imperatriz do Brasil.

Quanto à presença do Brasil e das coisas brasileiras no imaginário húngaro da época, as expectativas do público são perfeitamente ilustradas pelo semanário Vasárnapi Újság, cujos textos, publicados durante sete anos, temos estudado exaustivamente graças a um cd-rom. Nas folhas desse semanário encontram-se quase meia centena de referências ao Brasil: por exemplo, o vocábulo-chave “brasil” e sua variante “brazil” aparecem 31 vezes; “Rio de Janeiro” 12 vezes; e “rio”, acompanhado de alguma referência brasileira, 5 vezes. Também aparecem aí outras ocorrências esporádicas como “amazon”, “maranhao” (sic!), Dom Pedro, entre outros.

As folhas desse semanário trazem, em primeiro lugar, notícias curiosas, algumas vezes abordadas de forma científica, sobre a flora e a fauna brasileiras[2], vindo a seguir relatos sobre viagens ao país e, nomeadamente, ao Rio de Janeiro[3], informando que a região atrai os visitantes com a beleza da sua vegetação, mas que, no quesito urbanismo, provoca má impressão aos viajantes europeus. Além de seus aspectos exóticos, as notícias também mostram o Brasil como parceiro comercial e cultural da Hungria. Nas notícias podemos ler informações sobre o cultivo e o comércio do café, e sobre o fato de que um comerciante húngaro transportou vinhos de Arad, cidade do sul da Hungria de então, para a capital do Brasil, Rio de Janeiro[4]; também se informa que a cantora Lagrange cantou uma ária do compositor húngaro Ferenc Erkel no Teatro da Ópera do Rio de Janeiro, e que um aristocrata húngaro, László Alvinczy, morreu no Brasil[5]. Os leitores são ainda informados de que se publicou uma “antologia geral” no Rio de Janeiro, na qual apareciam onze poemas de poetas húngaros[6], e, por meio de uma biografia de Miklós Zrínyi de autoria de Gyula Pauler, aprende-se que o poeta “quis fugir para o Brasil”.[7] As notícias prosseguem informando sobre múltiplos aspectos relativos ao país sul-americano.

Nas décadas posteriores, sobejam informações sobre o Brasil, em primeiro lugar nas imprensas diária e semanal, que oferecem, por um lado, momentos exóticos com que pretendem satisfazer o gosto pelas coisas curiosas de um público burguês relativamente rico, cada vez mais ávido por informações; por outro lado, trazem informações verídicas com o fim de orientar e informar as pessoas que em número cada vez maior pretendem emigrar e encontrar uma nova pátria no Brasil; e, last but not least, porcuram corresponder às demandas científicas de então, pois as ciências se vão robustecendo na segunda metade do século XIX na Hungria.

O Brasil no último terço do século XIX se torna uma realidade palpável para muitos húngaros. Nessa época aumenta a atividade dos agentes de emigração que, com autorização oficial ou sem ela, começam a organizar os primeiros grupos de emigrantes para o Brasil. Os agentes, para atingir seu objetivo, ou seja, convencer mais gente a ir para o Brasil, apresentam-no o mais favoravelmente possível. Confirma essa hipótese o artigo intitulado “A emigração para América” da revista húngara Világ Krónika que, criticando a atividade prejudicial dos agentes ilegais, declara: “Estes bufarinheiros deambulando pelas comarcas, desenhando visões aprazíveis, aliciaram a gente das camadas mais abastadas…”.[8]

[1] Publicado nos números de dezembro de 1957 do Vasárnapi Újság.

[2] Um relato sobre a fauna do Rio Amazonas e do Rio Negro. Nro. 14, de 4 de junho de 1854.

[3] Andersen – Dr. Hegedűs: Utazás a föld körül (‘Viagem em torno da Terra’). Nro. 29, de 17 de setembro de 1854.

[4] Nro. 27 de 1857, 6 de setembro de 1857.

[5] Nro. 42 de 1858, 17 de outubro de 1858.

[6] Nro. 44 de 1859, 30 de outubro de 1859.

[7] Nro. 47 de 1858, 24 de outubro de 1958.

[8] Világ Krónika. Nro. 52 de 1882: 423.

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