Ferenc Pál – O Brasil e a Hungria ao transcorrer dos séculos: escambos materiais, espirituais e culturais (Primeira Parte)

por Pál Ferenc

O Brasil no imaginário húngaro

No imaginário do cidadão húngaro comum destes dias correntes da segunda década do milênio, o Brasil espelha certas imagens vincadas pelo tempo e bastante próximas do clichê: é o país do futebol e do carnaval, das praias do Rio de Janeiro com suas mulheres vistosas, do Pão de Açúcar como principal símbolo turístico. Acrescente-se a tudo isso aquela imagem que as telenovelas consolidaram em meio ao público receptor magiar a partir da célebre A Escrava Isaura, exibida nos anos de 1980 pela televisão estatal húngara, assim como a atual figura do povo brasileiro que se vê em telenovelas como Topmodel, recentemente exibida: um povo simpático, inocente, de sentimentos familiares, em que muitas vezes idosas matronas ou crianças imberbes dão sábios conselhos aos experientes e desorientados adultos[1].

Essa imagem simplista e simplificadora, contudo, reflete-se apenas na superfície do espelho, porque na realidade o conhecimento do Brasil na Hungria é muito mais vasto do que se pode supor num primeiro relance. Os húngaros têm conhecimentos sobre o Brasil – embora em muitos casos de forma indireta – já no primeiro terço do século XVI, e épocas houve em que a quantidade de informações sobre o Brasil alcançou um volume realmente surpreendente. Pensemos, em primeiro lugar, na segunda metade do século XIX e na primeira metade do século XX, quando o Brasil aparece como uma fonte de curiosidades e um ponto de referência constante[2].

Neste estudo, que servirá de introdução aos estudos que abordam uma ou outra forma do conhecimento mútuo dos dois povos e dos dois países, oferecemos apenas noções gerais sobre o processo de permutas de imagens e de conhecimento recíproco, deixando a abordagem de outros temas para estudos mais específicos. O ponto de partida da presente pesquisa compreende um trabalho recentemente publicado em que estudamos as transformações da imagem do Brasil na Hungria[3]. Como resultado de nossas pesquisas ulteriores, hoje dispomos de um material mais completo e abrangente, que nos deixa ver a outra face da moeda, ou seja, algumas informações primordiais sobre os húngaros no Brasil. Tais tópicos podem incentivar futuras pesquisas sobre esse importante aspecto das relações interculturais de ambos os países.

 Primeiras referências ao Brasil, primeiros intermediadores

Apesar do fato de que a primeira menção escrita ao nome “Brasil” apareça, em húngaro, apenas no século XVI, podemos supor a existência de húngaros que conheciam essas terras já muito anteriormente. Tal é o caso de um denominado Varga, capitão de artilharia do navio Concepción, da frota de Magalhães: esse navegante, segundo tudo indica, era húngaro, como sabemos de uma comunicação breve de László Szabó[4], que faz uma referência a um estudo de Wilhelm Schulz[5], o qual cita o nome daquela pessoa em transcrição alemã, ou seja, na forma de Hans Vargue. Sabemos que a frota de Magalhães partiu em 13 de agosto de 1519 de Sevilha e no dia 13 de dezembro do mesmo ano atingiu o litoral do atual Rio de Janeiro, onde permaneceu por 13 dias. Além do mais, o nome de Varga é mencionado outras duas vezes. José Toribio Medina, historiador chileno, afirma que Varga foi promovido a capitão de artilharia do Trinidad depois do afundamento do Concepción[6]. O historiador espanhol Pablo Pastells também menciona o nome desse militar, publicando um auto do Archivo de Simancas[7] onde se lê que os portugueses trasladaram cinco pessoas, capturadas com o Trinidad, de Cochim a Lisboa: entre eles se encontrava János Varga, que pereceu numa masmorra portuguesa.

É o mesmo ilustre estudioso da presença dos húngaros na América Latina, László Szabó, que chama a atenção para um topônimo curioso do sul do Brasil, que nos faz supor o aparecimento de outros húngaros em território brasileiro[8]. Já István Geőcze nota, em seu livro sobre a história de sua malograda emigração para o Brasil, que o estado do Rio Grande do Sul, no século XIX, foi muitas vezes mencionado como “Pequena Hungria” ou “Hungria do Brasil”, o que faria supor que esse território tivesse alguma relação especial com os húngaros[9]. Esse misterioso nome húngaro mencionado por Szabó relaciona-se com a Lagoa dos Patos, o enorme lago ou mar interior que os conquistadores durante muito tempo acreditaram ser um rio, denominando-o “Rio Grande”. Esse lago aparece num mapa do livro do mercenário alemão Hans Staden[10], que visitou duas vezes o território do Brasil entre 1548 e 1555, e tem por nome “la húngara”, que nesta forma pode ser uma referência à “laguna”, ou seja, à “la laguna húngara”. Essa denominação aparece no mapa de navegação do Almirantado da Grã-Bretanha, publicado em 1920, que inclui a Lagoa dos Patos: um canal da lagoa recebe aí o nome de “Canal da Hungria”[11].

Essa denominação, que deve ter se originado na primeira metade do século XVI – caso contrário não poderia ter aparecido no livro de Hans Staden –, faz-nos supor que alguma expedição tenha sido chefiada por húngaros ou tenha uma qualquer relação privilegiada com os magiares. A primeira hipótese pode ser descartada, afirma Szabó, posto não ter encontrado nenhum nome húngaro no Archivo General de Indias[12]; mas a segunda parece ter fundamento, já que, nesse episódio do início do século XVI, havia duas pessoas relacionadas com a Hungria ou com personalidades húngaras. A primeira é Américo Vespúcio, cujo irmão menor, Bernardo, viveu vários anos na Hungria, na corte do rei Matias (1458-1490)[13] e, após a morte do monarca húngaro, abandonou o país e provavelmente acompanhou seu irmão em viagens realizadas entre 1498 e 1502, a fim de explorar e descrever o litoral atlântico do continente recentemente ocupado. É pouco verossímil a hipótese de que Vespúcio teria criado, no sul do Brasil, um topônimo de inspiração húngara; mencionamos o caso apenas para mostrar que a Hungria da época estava aberta aos estrangeiros e tinha intenso contato com os países da Europa. Segundo Szabó[14], parece mais provável que esse topônimo tenha sido criado por Magalhães que, antes de chegar ao rio La Plata, várias vezes desembarcara nas costas do território atual do Brasil, e teria provavelmente desejado retribuir, dessa forma, o apoio que recebera de um magnate húngaro, Maximilianus Transylvanus.

Maximilianus Transylvanus era filho natural do arcebispo húngaro Tamás Bakócz, e trocou seu nome magiar, Miksa Erdődy, por esse nome latino, tornando-se, posteriormente, um conselheiro e amigo muito próximo do monarca Carlos V. Ele casa-se com a filha de Haro, um rico dono de navios de Sevilha, oriundo de Portugal. Com toda a probabilidade conhece Magalhães na casa do Haro, e junto com os Haro ele também oferece apoio financeiro ao empreendimento do navegador português. Quando do regresso da expedição, apenas depois de serem interrogados pelo influente húngaro é que os poucos que regressaram poderiam então relatar suas experiências da viagem às autoridades espanholas, fato que demonstra o importante papel de Transylvanus na preparação da viagem de Magalhães[15]. Esses fatos tornam mais do que provável a possibilidade de que Magalhães, por se sentir grato ao magnate húngaro, tenha retribuído o apoio recebido com a criação de um topônimo que faz referência à nação magiar.

Na Hungria, o nome do Brasil aparece pela primeira vez num folheto político. Um poeta do século XVII, Miklós Zrínyi (1620-1664), autor da epopéia nacional húngara intitulada Szigeti Veszedelem (‘Desgraça de Szigetvár’), cita o Brasil em uma das suas obras. Esse poeta e militar, homem de Estado que passou toda sua vida lutando contra os turcos, escreveu, em 1661, um panfleto intitulado Ne bántsd a magyart. Az török áfium ellen való orvosság (‘Não maltrates o húngaro. Remédio contra o ópio turco’), em que lança um protesto contra a invasão da Hungria pelos turcos. Ao final de seu panfleto, referindo-se à ameaça de devastação das terras magiares pelos turcos, exclama: “Tenho notícias de que no Brasil há terras desertas em abundância, peçamos, pois, ao rei espanhol uma província, façamos uma colônia, tornando-nos cidadãos [daquele país]”.[16]

Apesar dessa rápida confusão sobre o pertencimento do Brasil ao reino espanhol – Zrínyi estava provavelmente a par dos acontecimentos políticos e das incursões espanholas naqueles territórios que hoje formam a parte sul do Brasil, ou sobre os sessenta anos do domínio espanhol em Portugal –, pode-se dizer que, num pequeno país em luta acirrada contra os turcos, é exemplar um tal conhecimento sobre o longínquo continente conquistado pelos ibéricos. Além disso, podemos afirmar que o Brasil, a partir daquele momento, iniciaria a construção daquela positiva imagem de terra prometida que o caracteriza até hoje no imaginário húngaro.

[1] No ano acadêmico 2001-2002, uma estudante de psicologia da Universidade Eötvös Loránd, ao concluir a disciplina sobre a telenovela brasileira oferecida pelo Departamento de Português, realizou um estudo sobre aquela imagem do Brasil que as telenovelas formam entre os telespectadores húngaros: o resultado, cujos elementos citamos na introdução deste capítulo, foi bastante desolador. Para um filólogo, essas telenovelas não têm servido para enriquecer os conhecimentos sobre o Brasil. Por outro lado, ao menos não seria possível ocorrer, nos dias de hoje, aquele mal-entendido anacrônico dos meados dos anos de 1980, quando a televisão húngara transmitiu A Escrava Isaura e organizou-se uma campanha para reunir dinheiro e remir Isaura do cativeiro. Passadas duas décadas, hoje se sabe muito mais sobre o Brasil, pelo menos de maneira geral.

[2] Tendo estudado, como uma amostra representativa, os números dos anos 1854-1860 do semanário Vasárnapi Újság, de Budapeste, e os de 1908-1941 da revista literária bimensal, também de Budapeste, Nyugat, chegamos à conclusão de que o Brasil está super-representado na imprensa húngara: encontram-se muito mais informações sobre ele do que se poderia pressupor. Portugal, por exemplo, aparece menos, tanto nas notícias como nas referências.

[3] “As modificações da imagem do Brasil na Hungria”. Letras de Hoje, Revista da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul. Setembro, 1996: 19-33.

[4] “Varga János: Az emberiség legmerészebb kalandja” (“Varga János: A mais corajosa aventura da humanidade”). Szabó, 1982: 17-20.

[5] Estudo publicado in Boletín del Museo Social Argentino. Año XLIII. Nro. 328, 1966: 123.

[6] Fernando de Magallanes y sus compañeros. Santiago de Chile, 1920.

[7] El descubrimiento del Estrecho de Magallanes. Madrid, 1920.

[8] A “la húngara” rejtélye (‘O mistério de «la húngara»’). Szabó 1982: 25-40.

[9] Geőcze István: Utazás Brazíliába és vissza I-II (‘Viagem para o Brasil: ida e volta’). Pest, Laufler, 1869-1870.

[10] Wahrhaftige Historie und Beschreibung eyner Landtschafft der Wilden Nacketen Grimmigen Menschfresser Leuthen in der Newenwelt America. Marburg, 1557. Szabó 1982: 268.

[11] Plans on the east coast of Brazil [Southern entrance to / Lagoa dos Patos ]. Londres, 1920. Nova edição de 1951. Szabó 1982: 27-28.

[12] Szabó 1982: 34-35.

[13] Esta referência às relações húngaras de Vespucio encontra-se no livro de Germán Arciniegas, Amerigo y el Nuevo Mundo. México-Buenos Aires, 1955: 30-34.

[14] Szabó 1982: 36-39.

[15] Edward E. Hole: “Magellan’s Discovery. Critical essay on the sources of information”. Narrative and Critical History of America. Boston-New York, Justin Windsor, 1886, II: 165.

[16] ”Ugy hallom Braziliában elég puszta ország vagyon; kérjünk spanyor királytul egy tartományt, csináljunk egy coloniát, legyünk polgárrá.” Http://vmek.niif.hu/06100/06115/html/gmzrinyi0002.html. 15 de abril de 2002.

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