Ferenc Molnár – Os Meninos da Rua Paulo

por Pál Ferenc

Na Hungria várias gerações liam a reliam a história de uma várzea de Budapeste do início do século, pela posse da qual dois grupos de adolescentes lutavam com bolas de areia húmida, transformando em   fortalezas  as pilhas de lenha depositadas naquela várzea. Foi esta história que Paulo Rónai, Rónai Pál, tendo emigrado no ínício da década de 1940 para o Brasil traduziu para português e o obra obteve tanto éxito que desde os anos 1950 era e é leitura obrigatória nas escolas do Estado de São Paulo. Hoje oferecemos um trecho do início deste romance, citando algumas palavras do Prefácio de Paulo Rónai que acompanha a obra.

PREFÁCIO

Em toda a literatura mundial contam‑se nos dedos os clássicos da juventude. Na maioria dos casos, são obras escritas para adultos, que, com o tempo, geralmente graças a uma adaptação, se transformam em leituras para adolescentes. Dom Quixote, As viagens de Gulliver, Robinson Crusoé, David Copperfield, Os miseráveis são outros tantos exemplos de semelhante transmutação.

 

Ainda mais raro o caso contrário: livros destinados originariamente a um público de jovens e que passaram a interessar pessoas de todas as idades. Um deles é, sem dúvida, Os meninos da rua Paulo, do húngaro Ferenc Molnár.

 

No ponto de partida, em 1889, num dos arrabaldes de Budapeste, houve um grupo de garotos, alunos do mesmo colégio, que costumavam reunir‑se, depois das aulas, num terreno baldio, para jogar pela, brincar de clube, fingir de exército, arremedar eleições, sentirem‑se importantes, viver num mundo que fosse só deles. Noutro ponto próximo da cidade, uma ilhota do Jardim Botânico, outro magote de meninos formava outro império de faz de conta. Apenas, estes não tinham espaço para jogar pela. Daí ocorrer‑lhes a ideia óbvia de ocuparem o grund da rua Paulo, tomando‑o ao pri‑ meiro grupo; este, porém, estava resolvido a defender aquele pedacinho de terra. Já se vê que o conflito dos dois grupos daria o assunto do romance

Os Meninos da Rua Paulo

Faltavam quinze minutos para uma hora. Na sala de ciências naturais, por cima da comprida mesa do professor, apareceu finalmente, após longas e infrutíferas tentativas, como para recompensar a expectativa intensa, uma cintilante risca verde‑esmeralda no meio da chama incolor do bico de Bunsen, documentando‑se, assim, que a composição química destinada, segundo afirmava o professor, a colorir de verde a chama do bico, cumpria o seu dever. Pois foi à uma hora menos quinze, exatamente naquele momento de triunfo, que no quintal da casa vizinha ressoou uma pianola, e isso acabou de vez com toda a seriedade da aula. Era um dia quente de março, as janelas estavam escancaradas e, nas asas da fresca brisa primaveril, a música penetrou na aula. A pianola tocava uma alegre canção húngara, transformando‑a numa espécie de marchinha, emprestando‑lhe um caráter tão estrondoso, tão vienense, que deu a toda a turma uma vontade de sorrir que muitos não souberam conter. A chama verde que oscilava alegre no bico de Bunsen, agora só atraía os olhares de alguns meninos dos primeiros bancos. Os outros olhavam pelas janelas para o mundo lá de fora, onde se viam os telhados dos casebres vizinhos, e, ao longe, rebrilhando à luz dourada do meio‑dia, a torre da igreja, em cujo mostrador o ponteiro grande, reconfortador, se aproximava do xii. Voltada para a janela, a atenção dos meninos captava, além da música, outros sons que nada tinham que ver com a aula. Condutores do bondinho de burro trombeteavam, e num dos quintais uma criada cantarolava uma melodia totalmente diversa da tocada pela pianola.

A turma começava a mexer‑se. Uns punham‑se a procurar os livros na gaveta da carteira; outros, os mais ordeiros, limpavam as penas. Boka fechava o pequeno tinteiro de bolso, recoberto de couro vermelho, cujo mecanismo engenhoso não deixava vazar a tinta a não ser no bolso do estudante; Csele juntava as folhas soltas que para ele substituíam os manuais, pois era um janota que, em vez de sobraçar uma biblioteca inteira como os demais, trazia apenas as folhas indispensáveis, e essas mesmo cuidadosamente distribuídas por todos os bolsos de fora e de dentro; Csónakos, na última carteira, soltava bocejos dignos de um hipopótamo entedia‑ do; Weiss revirava um dos bolsos, limpando‑o das migalhas do pãozinho que dali retirara às escondidas, para mastigá‑las aos poucos no decorrer das três últimas aulas; Geréb punha‑se a arrastar os pés, ruidosamente, debaixo do banco, como quem faz menção de levantar‑se; Barabás, enfim, sem o menor constrangimento, desdobrava sobre os joelhos o encerado para nele arrumar os livros conforme o tamanho, e apertou‑os vigorosamente com uma correia, produzindo assim um estalo forte da carteira, que o fez corar de espanto. Numa palavra, todos se preparavam para sair, salvo o professor, o qual não parecia tomar conhecimento de que, ao cabo de cinco minutos, tudo estaria acabado. Percorreu com o olhar sereno todas aquelas cabeçorras e perguntou:

— Que é que há?

Estas palavras produziram um silêncio geral, um silêncio de morte. Barabás teve de largar a correia, Geréb recolheu os pés, Weiss tornou a virar o bolso, Csónakos dissimulou o bocejo tapando a boca com a mão, Csele repôs as folhas na carteira e Boka escondeu o tinteirinho vermelho, de onde, ao contato do bolso, a linda tinta azul se pôs a vazar instantaneamente.

— Que é que há? — repetia o professor.

Todos se mantiveram imóveis, sentados nas carteiras. Então ele fitou a janela, pela qual os acentos da pianola penetravam num saltitar alegre como para mostrar a todos que não estavam submetidos à disciplina escolar, verberou a pianola com um olhar severo e disse:

— Csengey, feche a janela.

O pequeno Csengey, que era o monitor, levantou‑se da primeira carteira e, com aquele seu arzinho sério e rígido, foi executar a ordem.

Nesse momento Csónakos debruçou‑se pela carteira afora e segredou ao ouvido do lourinho sentado à sua frente:

— Nemecsek, atenção!

Nemecsek olhou furtivamente para trás e, depois, para o chão, onde uma bolinha de papel vinha rolando em dire‑ ção a ele. Apanhou‑a, dobrou‑a e leu num lado do papel es‑ tes dizeres:

Passe para Boka.

Nemecsek sabia que isto era apenas o sobrescrito e que o recado estava no verso. Mas como era um rapaz de caráter, não quis absolutamente ler uma carta destinada a outrem. Refez a bolinha e aguardou o momento oportuno para, então, cochichar por sua vez, inclinando‑se da carteira para a passa‑ gem entre as duas fileiras de bancos:

— Boka, atenção!

Agora foi Boka que olhou para o chão, meio de comuni‑ cação normal dessa espécie de recados, e apanhou a bolinha. No verso, isto é, no lado que o lourinho Nemecsek não lera por motivos de honra, liam‑se estas palavras:

Às três da tarde, assembleia geral. Eleição do presidente, no grund. Divulgar.

Ferenc Molnár (1878 – 1952)  escritor, autor, roteirista húngaro. Logo se tornou o escritor húngaro mais popular, um dramaturgo procurado cujas obras foram traduzidas para muitas línguas, estreadas em todo o mundo. O seu rápido sucesso como escritor culminou no seu romance juvenil, Os Meninos da Rua Paulo (1907), traduzido para quatorze línguas e filmado em vários países, que ainda é extremamente popular. Ele era um excelente estilista, seu estilo era vivo, retorcido, leve.

Entre 1920 e 1940, viveu principalmente na Europa Ocidental, visitando raras vezes a Hungria. Em 1940, fugindo do fascismo, mudou-se para a cidade de Nova York e morou no Plaza Hotel até a sua morte.

Paulo Rónai (nascido Rónai Pál,  1907 — 1992) tradutor brasileiro nascido na Hungria, filólogo  e crítico. Rónai Pál nasceu na capital húngara, Budapeste, ele completou os seus estudos primários em seu país natal, mas também estudou na França e na Itália antes de se transferir para o Brasil devido à Segunda Guerra Mundial.  Suas obras incluem a tradução para o português de centenas de contos reunidos na antologia Mar de Histórias (Ed. Nova Fronteira), bem como a organização e edição de uma versão comentada da Comédia Humana de Balzac pela Editora Globo.

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