Falta quem desenvolva salinas que tratam da saúde em Cabo Verde

por LMn | Lusa
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Uma cooperativa nasceu há 20 anos para explorar as salinas do Porto Inglês, na ilha cabo-verdiana do Maio, um negócio de mulheres para responder à procura por sal iodado para tratar doenças.

Hoje, também há a ambição de colocar as salinas ao serviço do turismo, mas começa a faltar gente na ilha do Maio que cuide daquela arte antiga, queixa-se Célia Santos Rosa, presidente da cooperativa.

“Agora somos sete mulheres, mas antes eram muito mais”, refere.

Muitas já se reformaram, outras adoeceram, conta, enquanto percorre de memória a lista de quem já passou pelo pavilhão largo onde hoje se encosta a uma pilha de sacos de sal.

O espaço é dominado pelo eco da máquina de moagem que deixa no ar uma poeira salgada.

Aquela máquina é o único sinal de modernidade num processo que segue os mesmos passos artesanais de antigamente: as pedras de sal são arrancadas com picaretas ou marretas das salinas que cobrem os terrenos em redor, que estão divididos em lotes, cada qual com o seu proprietário, a quem a cooperativa compra a produção.

Essa produção está à vista, nos montes de sal em redor do pavilhão, onde mulheres fazem fila, num movimento igual ao de um carreiro de formigas.

Com pedras de sal enchem baldes que colocam à cabeça, percorrendo alguns metros até os despejarem na máquina de moer, que transforma as pedras no pó que o consumidor conhece.

“A cooperativa pode moer, por dia, até 250 sacos de sal de 25 quilos, mas nesta época a produção é baixa por causa da humidade provocada pelas chuvas”, descreve.

Depois de outubro, a tarefa fica mais fácil, quando a época das chuvas terminar e as salinas secarem – e é nessas alturas de maior trabalho que por ali se veem caras novas, mas só para ajudar temporariamente.

Para o sal ser ensacado e distribuído pelo arquipélago, só falta misturar o iodo – um micronutriente importante para o equilíbrio hormonal do organismo e cuja escassez em vários pontos do planeta é, há décadas, combatida através da mistura no sal.

Célia está preocupada com a falta de limpeza das salinas, que diz ser urgente para manter a qualidade do produto, tal como a preocupa o facto de, desde há dois anos, a água do mar não entrar na área como antes acontecia durante o mês de março.

“É a natureza, não sei como explicar”, refere.

A cooperativa continua a ser fonte de rendimento para as famílias do Maio e só não rende mais porque a concorrência, em especial da ilha do Sal, não dá margem para o sal ser vendido mais caro.

“Há dificuldades, mas sempre as ultrapassámos”, garante Célia Santos Rosa.

Miguel Rosa, presidente da Câmara do Maio, anseia por novas metas: “em termos económicos [a produção de sal] não tem o impacto que desejaríamos que tivesse”.

“Os jovens não estão a enveredar por esta área” e se “há algum tempo tínhamos 30 ou 40 extrativistas, hoje temos 10 ou menos”, refere.

Por outro lado, as salinas estão dentro de uma zona protegida, pelo que lhe parece que há um caminho mais favorável que deve ser seguido: aprofundar o potencial turístico.

Já há um centro interpretativo onde os turistas podem ser recebidos e conhecer as salinas e há que criar outros atrativos, por exemplo, explorando a área da talassoterapia – tratamentos com água e produtos marinhos -, numa dimensão de saúde, com procura por turistas estrangeiros, “nomeadamente com doenças relacionadas com a pele”.

LFO // ANP

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