Eu cresci a ver navios

por Luís Serpa

«Volta para casa Stop Vamos para Moçambique Stop Maria da Piedade Stop». Nunca se sabe bem quando começa uma viagem (e menos ainda quando acaba), mas gosto de pensar que a nossa para Moçambique começou com estas palavras, reprodução de um telegrama que a minha Mãe enviou ao meu Pai em 1966. Não é inteiramente verdade – a viagem começou com o que deu origem ao telegrama – mas pouco importa. Comecemo-la aqui.

O meu Pai era capitão de um rebocador de alto mar e estava a fazer o primeiro de dois reboques para Halifax, no Canadá, quando recebeu esta lacónica mensagem. Para se saborear inteiramente a história há que conhecer a marinha mercante de então, o papel dos radiotelegrafistas a bordo, a união que havia entre os tripulantes – as tripulações não mudavam como hoje, eram fixas, todos se conheciam, eram uma família tanto quanto a família. O rebocador estava fora aos oito e nove meses de cada vez (foi de resto isso que levou ao telegrama) e aqueles homens passavam mais tempo entre eles do que com as mulheres ou os filhos. Se a isso juntarmos o reduzido número de tripulantes do CINTRA – para os padrões de hoje o navio era minúsculo – a solidariedade que nasce dos trabalhos «diferentes», tantas vezes perigosos – podemos começar a fazer uma vaga ideia do que deve ter sido a notícia a espalhar-se pelo navio. «O capitão vai-se embora», «o capitão recebe ordens da mulher», «o capitão vai para Moçambique»… Não havia, tenho a certeza, só troça nestes comentários. Haveria também pena: o meu Pai era querido pelos seus tripulantes (na verdade era querido por toda a gente com quem lidava, salvo raríssimas excepções, mas isso é outra história), era um excelente marinheiro e foi provavelmente com muito pouca troça na tristeza que os homens comentaram a novidade uns aos outros.

A decisão da minha Mãe foi aceite pelo meu Pai – isto é um carinhoso eufemismo – e fomos para Moçambique. Viajámos no PRÍNCIPE PERFEITO, uma das duas concessões que o meu Pai conseguiu arrancar à Senhora – irmos por via marítima e não de avião e fazer o segundo reboque para Halifax.

Tinha oito anos quando embarcámos. Família toda (Pai, Mãe, Avó, quatro crianças entre os oito anos e os poucos meses), cão Salpico – viria a morrer na Beira, de uma morte estúpida, à fome – destino Quelimane, na Zambézia, Moçambique. Lembro-me mal da viagem, naturalmente: os jantares à mesa do comandante, a varanda onde eu corria contra o vento, por vezes bastante dificilmente, o aviso que nos fizeram de que vinha mau tempo e era proibido ir para o exterior, algumas explorações solitárias pelos recônditos do paquete. Pouco, muito pouco para uma viagem que tanto me marcou. Lembro-me de a minha avó esperar ansiosamente a escala na Madeira: queria comer anonas. As tentações têm um poder especial sobre as pessoas austeras. Como se a austeridade as reforçasse, lhe desse alento, as justificasse – ou desculpasse. (Hoje sei que nonna é avó em italiano e encontro ainda mais ternura nesta memória – e nunca esquecerei quanto gostei desses frutos, tão feios por fora quanto bons por dentro, quão grato fiquei à minha Avó por mos ter dado a conhecer.) Para mim, aquela viagem foi uma espécie de estadia no paraíso. Sempre quisera ser marinheiro e agora passava de ver os navios para estar dentro deles. Em Quelimane voltei à condição de ver navios: o meu pai era gerente da sociedade de estiva local e íamos frequentemente os dois a bordo para verificar cargas, falar com capitães, imediatos ou supervisores da estiva. Um deles chamava-se Magano e fazia modelos de navios – vi muitos paralelepípedos de madeira transformar-se em modelos lindos, um dos quais leva o nome da minha irmã porque foi um presente para ela. Outro era o Chico, o humorista do grupo.

II

Escrevo estas linhas em Genebra. É a primeira de uma série de crónicas às quais demos – o Arnaldo Rivotti, a quem deixo aqui um gigantesco obrigado e eu – o nome de Diário de Bordos. O termo é náutico e muitas delas serão sobre viagens marítimas, sobre o meu amor pelo mar, sobre o meu trabalho. Mas nem todas: Bordos tem igualmente um sentido metafórico, um âmbito mais largo do que o seu sentido estrito – a sua denotação – levariam a supor. Vão ser crónicas diacrónicas, assíncronas, telescópicas entre o passado e o presente. Diário de vidas… Uma amiga dizia-me há muitos tempos que é preciso mudar de vida de dez em dez anos (ou quinze em quinze, pouco importa). Nem sempre respeitei o prazo; mas sim, mudei muitas vezes. Aquela viagem foi a primeira grande mudança: comecei a ter o meu Pai em casa, por exemplo. A vê-lo todos os dias. Acabavam-se as esperas de madrugadas na Doca do Espanhol (o rebocador pertencia à Sociedade Geral e aquela era a sua doca), o encantamento de o ver dirigir uma manobra de atracação, o cheiro a «navio», que nunca esquecerei; acabavam-se as longas ausências em que a única autoridade em casa era a da minha Mãe (não que lhe faltasse muita, como se viu) e as ameaças de «eu vou dizer ao teu Pai», nunca cumpridas, claro, por inutilidade. Acabava-se uma vida e começava outra, embora – naturalmente – eu não o soubesse. Limitava-me a viver, a absorver o azul do mar, a sonhar com aventuras, a conhecer o meu Pai. Vivi em Moçambique dos oito aos dezassete anos e suponho que esses nove anos contam como a primeira vida. Quantos bordos me trouxeram a Genebra?

Como é que um marinheiro acaba na Suíça? Quando me fazem esta pergunta – acontece muitas vezes – encolho os ombros e limito-me a apontar para o facto singelo (mas não menos doloroso) de que a Suíça ganhou duas America’s Cup e nós nem numa participámos. Ou então menciono outro: a Suíça tem a sede de grandes empresas marítimas. A MSC (na qual fiz um breve período de trabalho barra comédia) é o segundo maior armador de porta-contentores do mundo e tem sede em Genebra, por exemplo. Não é, nem de longe, a única. Na verdade, a Suíça permitiu-me navegar mais, aprender mais do que alguma vez Portugal o faria. A vela – como tudo o mais – é levada a sério, tive a sorte de conhecer e navegar com grandes velejadores, de começar uma empresa de charter nos Açores – decénios antes de tempo, mas isso é uma constante, não vale sequer a pena mencioná-lo – de ter uma embarcação nos Bijagós (ditto). Tudo coisas que me fizeram. Ou fui eu que as fiz? Montaigne fala dos autores que são produto da sua obra (deles, autores) e eu pergunto-me se fiz o mar – o que representa para mim – ou se sou o resultado dele em mim. Não sei e pouco me interessa saber.

Porque se nasce marinheiro, jardineiro, engenheiro, médico, escritor, músico? Depende da «arrumação» das sinapses, claro; a qual depende também daquilo que se viveu – e aquilo que se viveu depende de nós, mas não só: depende dos nossos pais, das revoluções, da ausência do pai ou da autoridade da mãe. Somos bolas de bilhar com vontade própria – ou imprevisível – jogadas por um deus bêbedo e drogado. Às vezes é ele quem determina a direcção, outras nós. Às vezes o bordo é de um, outras do outro.

 

Luís Serpa, Genebra, 15 – 16/04/2021

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