Estado da educação em Moçambique é problema “mais grave que o terrorismo” – analista

por LMn | Lusa

Maputo, 14 mar 2022 (Lusa) – O investigador João Feijó, do Observatório do Mundo Rural (OMR), classifica o estado da educação em Moçambique como um problema “mais grave que o terrorismo” para o futuro do país, em particular no ensino primário e no meio rural.

Feijó falava em entrevista à Lusa, ao comentar a necessidade de investimento no setor em Cabo Delgado, província do norte, rica em gás, mas afetada por uma insurgência armada há quatro anos.

“Colocou-se a carroça à frente dos bois”, refere o sociólogo e doutorado em estudos africanos, numa alusão ao avanço dos investimentos industriais na península de Afungi, no distrito de Palma, sem uma aposta prévia na educação.

Uma situação que se encaixa num problema nacional, adjetivando o estado da educação como “uma fraude” e “um cancro”, dentro do qual particularizou a situação do ensino primário.

“Toda a gente está a ver que as crianças da escola primária acabam a quinta classe sem saber ler e escrever o nome”, referiu, ao retratar o que considera ser a situação da maioria dos alunos.

Ao mesmo tempo, “toda a gente sabe” que a maioria dos professores “não tem competências para ensinar”.

“Eu ando pelo mato, contrato professores para aplicar questionários, e os professores rurais que estão nessas escolas não sabem calcular áreas”, exemplificou.

São docentes “que leem a soletrar”, acrescentou, para reforçar o retrato das dificuldades, no meio das quais os bons docentes são a exceção: “a maioria tem graves carências e, os alunos, a mesma coisa”.

Diz que entra a falar em português nas escolas rurais, “mas ninguém percebe” o que diz, referindo-se a estudantes da quinta à sétima classe de escolaridade, mas que só dominam as línguas locais.

João Feijó conclui que “o estado do ensino primário é o maior engano coletivo”.

“Estamos a criar duas cidadanias como havia no tempo colonial: o branco e o assimilado na cidade com acesso a ensino de qualidade e depois os indígenas que estavam no mato” – e mesmo no mundo urbano de hoje há uma diferença entre quem vai às escolas privadas e às públicas.

Ir estudar para escolas públicas, onde há uma falta de condições generalizada, é o castigo com que alguns país ameaçam os filhos que frequentam o ensino privado, quando têm más notas, descreve.

Neste contexto, a situação da educação em Cabo Delgado é ainda mais delicada, tendo em conta as necessidades de formação, se se quiser que a população tenha emprego nos megaprojetos de gás.

“Houve pouco investimento na educação. Em Palma”, conhecida como vila do gás, dada a proximidade dos projetos, “atá ao ano passado não havia nenhum centro de formação”.

“O primeiro foi criado poucas semanas antes do ataque” que há um ano levou à suspensão do projeto de exploração e liquefação de gás da Totalenergies – o maior investimento privado em África no valor de 20 mil milhões de euros.

“Colocou-se a carroça à frente dos bois”, refere João Feijó.

“As pessoas que se quisessem formar tinham de ir a Pemba”, capital provincial de Cabo Delgado.

Por outro lado, Feijó questiona os planos de formação e a rapidez de aplicação.

“A formação não se faz de forma intensiva, em três, quatro meses ou num ano. A formação é uma coisa que exige paciência”, referiu.

“Os jovens locais apercebem-se que o nível de qualidade da educação não é competitiva para os tornar concorrentes” em relação “às pessoas do sul [do país, numa alusão à capital, Maputo] ou do exterior”, pelo que “sentem-se desprotegidos”.

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