Entre Lisboa e Budapeste – Fotografia de Ildikó Kardos e Poesia de Pedro Assis Coimbra

por Pedro Assis Coimbra

Meio Dia

Se fosse avenida o teu corpo nem beatas
de cigarro permitiria nem escarros asneiras
os excrementos secos das andorinhas.
A aguardente da Primavera e as pernas perfeitas
de Agnés no céu matinal do erotismo das ideias.
Seria o objecto mais valioso da minha casa
o abrigo mais povoado das aranhas. Se fosse
água o meu coração seria gasolina ou perfume
camisa por passar a ferro. Seria a magia
morena do peito na sombra brava da castanheira.
O adultério do amor a hora certa do jantar
mineiro exemplar no interior da mina.

Escrever o meu coração agora é tão perigoso
como as altas velocidades do motociclismo
o militarismo da impotência mapa-mundi
e o prelúdio multidão dos descontos fim-de-época.
A verdade é que marinheiros somos e no mar
andamos. Tanta sede! Gostamos de cerveja
de tremoços de caracóis e de berbigão
do ciclo molhado piscina sauna bons cus cerveja
de desfrutar o bem social colectivo.
O estrangeiro é em mim sempre mais poeta
mais discreto e audaz. Sinto-me todavia verde
para a felicidade mas se a planície cantar.

Quando escrevo a despedida do meu último
pensamento entro voluntário no ritual festivo
da poesia. São o sonho as teclas dos seus lábios
o piano afinado do seu corpo. A tempestade.
Gosto do reencontro do tempo escasso o trânsito
urbano o voltaremos a amar as deambulações
desperdício os guindastes da renovação civil.
Amigo! Estou a preparar paciente um tapete
do povo para a cidade poeta-amigo!
Com informática mini-computadores
pão com banha e metáforas desconhecidas.
Perdi-me nas vielas infinitas da noite.

Para mim mais importante é a riqueza do cobre
o gás natural as marcas as fotocópias do amor.
O baton vermelho intenso chuva de trovoada
a lã pura da neve das relações económicas
internacionais as teorias jovens do movimento.
O barco liso e belo da pele. Nem um pêlo
nem uma borbulha na descida da língua.
Falei contigo era ponto meio-dia.
Imaginei-te nua quis vestir-te de revolução.

Quando comecei este poema pensei juntar
num só quadro ideias insubmissas e matrizes
simples com salmão fumado e estrelas do mar.
Era tarde de mais para o beijo. Ela não quis
e a noite vizinha e confidente não me ajudou.
Rebusquei na luz reflexo do rio na artéria
tábuas e ponte do meu coração os seus cabelos.
A última carta a filha da terra o aroma da manhã.
A tangerina mais doce da cidade cantou comigo.

In “Últimas Águas” (Budapeste, 1981) do livro “As Palavras que Ficaram”
https://pedroassiscoimbra.blogspot.com/

“Zivatar utáni reggeli tükörkép a Hotel Gellért épületével”.
© Kardos Ildikó / 2021. Május

https://www.facebook.com/kardos.ildiko.photography

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