Entre Lisboa e Budapeste – A Arte da Imagem e as Palavras da Poesia. Fotografia de Ricardo Hipólito e Poemas de Pedro Assis Coimbra (I)

por Pedro Assis Coimbra

ABRIL
(Palavras em construção)

Palavras em construção
os sonhos de Abril tão próximo
para escrever na areia
os novos pensamentos do mar antigo.

Na fogueira das palavras
a chama ainda arde a ilusão
nas cinzas quentes raiz da liberdade.
Restam as ideias para a combustão.

ROSA
(Deixem-me abrir uma rosa)

Deixem-me abrir uma rosa
com a força dos meus olhos
como se fossem o sol.

O fascínio está em tudo
no relevo doce dos lábios
nos bicos pontiagudos dos seios
na sede suspensa das coxas.

Doce e fraterna como um enigma
a nossa poesia virá depois.

PEDRA
(À margem do coração do tempo)

À margem do coração do tempo
sentinelas de barro vermelho
moldam as setas com o vento.

Desenham no céu nuvens negras
os corpos do poema incompleto
a arder na pedra livre do canto.

Resta-me uma folha em branco
o cigarro de um sonho insubmisso
um não esquecido na algibeira.

NOVELO
(Querem fazer deste povo)

Querem fazer deste povo
um novelo de lã barata.

Querem fazer com este país
gente que também eu sou
uniformes batas para criadas
sapatos ao quilo sopa dos pobres.

Quem sonhará outras manhãs
no estuário pechisbeque deste rio?

CIDADE
(Fecha-se um abraço de aço)

Fecha-se um abraço de aço
ao redor da cidade.

Quem te fechou à força
as asas da liberdade?

Corre-me navegável um rio
até à tua nascente.

Quem nos abrirá a poente
as portas às rápidas da corrente?

In “No Começo das Palavras” (1975-1979)

Do livro “As Palavras que Ficaram”

https://pedroassiscoimbra.blogspot.com/

Imagem: Alfredo Cunha, Carmo, 25 de Abril por Ricardo Hipólito

https://www.facebook.com/ricardo.hipolito.716

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