Elogio do desenraizamento

por Luís Serpa

Pusemos as velas no PANDA. É um passo importante e simbólico, passe o pleonasmo. O homem é um animal de símbolos. Se calhar são eles que nos separam dos orangotangos, vá saber-se. Depois fui tratar dos caixotes que estão no armazém. Resultado: pareço um museu das dores musculares. Não paro de elogiar os benefícios da idade, mas os malefícios não são menores. Andam de mãos dadas, por assim dizer. Como tudo na vida, de resto: orangotangos e orangotangas, homens e mulheres, dores e prazeres. A verdade é que me sinto bem por ter os trapos a bordo (salvo seja. Trapos é calão. O termo correcto é: panos). Foram feitos pelo meu amigo Pedro Pires de Lima, que é um dos grandes veleiros que conheço – por isso lhe faço publicidade, já que ele não a faz a si mesmo: se algum leitor precisar de panos para uma embarcação de vela entre os quatro e os quatrocentos pés fale com o Pedro. Eu dou o número de telefone e não cobro o serviço (quem faz o sacrifício de me ler merece um gesto destes).

Aluguei um automóvel ao Egidio – outro de quem dou o número de telefone sem cobrar -; é confortável e moderno (apita quando abro a porta e deixo as luzes acesas, por exemplo, um grande favor que me faz) e o Egídio fez-me um desconto aceitável dadas as circunstâncias. Um dia disse-me que me admirava porque sou um dos raros clientes que faz exactamente o que lhe digo que vou fazer. Ele também faz o que diz e também eu lhe aprecio essa qualidade. Os carros nem sempre são tão modernos ou em tão bom estado como este, mas a verdade é que dispenso grandes confortos, apesar de os apreciar quando me caem do céu (ou da Driiveme, um sinónimo).

Isto está a transformar-se numa lista de fornecedores e não é de todo a intenção inicial. Era só falar-vos do meu dia, do prazer que é ter os panos a postos, das cervejas bebidas na Cantina – cada vez que bebo cerveja penso na anedota do russo que deu duzentos rublos ao médico para poder comer e beber o que quisesse – do polvo à galega que lá comi. O polvo à galega é como o inglês: fácil de falar mal e difícil de falar bem. Substituam falar por fazer e chegam exactamente aonde vos queria levar. A grande vantagem do polvo à galega sobre o inglês é que este pode ser feio quando mal falado – por um russo ou um chinês, por exemplo – e aquele nunca é mau. É só menos bom.

O segredo de um polvo à galega não é o polvo, contrariamente ao que muita gente pensa. Cozer um polvo é fácil e há montes de truques para lhe quebrar as moléculas de colagénio de que é feito: congelá-lo, por exemplo; bater-lhe, método bárbaro e rudimentar; deixá-lo cozer muito lentamente começando por água bem fria, com uma cebola de tamanho proporcional ao do bicho para se saber quando está cozido. E por aí fora. Nada disso. O segredo de um polvo à galega reside: a) na qualidade do pimentão. Sugiro pimentão fumado de la Vera, que é uma simples maravilha; b) na do sal. Sal de Cocó (sic), da ilha de Cabrera; c) nas batatas. Não tenho sugestões a dar; d) na quantidade: tem de ser muito. Hoje foi aqui que o da Cantina falhou: era pouco.  E o sal não era de Cocó, mas ninguém vai a um restaurante esperando encontrar sal de Cocó, o melhor sal que me foi dado provar até hoje e tem um preço correspondente. Tal como o pimentão não era de la Vera, mas passemos. Pouco importa: o polvo à galega, as cervejas, o vinho branco, o trabalho físico, as velas coligaram-se, conspiraram e ofereceram-me um dia em cheio.

Mas tão pouco era esta a intenção original deste texto.

Palma-a-sedutora tem sempre uma surpresa na manga, como aquelas mulheres por quem nos interessamos por causa dos olhos e acabamos a apaixonarmo-nos porque tem um cérebro por trás. É uma das semelhanças que lhe vejo com Lisboa: são cidades que não se dão a ver. Escondem-se e reservam-se para alguns escolhidos. Os americanos não são assim: publicitam-se facilmente, aprenderam a fazê-lo há duzentos anos ou coisa que o valha. Nós, europeus e nós, ibéricos – ainda mais – somos diferentes: escondemo-nos, esperamos que o produto fale por nós. Não fala: há demasiado ruído. Ninguém fala por nós; e o que fazemos só fala a posteriori, não antes. Isto diz um tipo que é o pior vendedor de si próprio que a humanidade jamais produziu, dando assim razão àquele ditado segundo o qual quem sabe faz, quem não sabe ensina.

Há porém coisas que sei fazer: encontrar bons fornecedores, por exemplo. Claro que tenho a minha quota de má sorte, tive-a grande nestes três anos de refit do PANDA, mas ao fim e ao cabo não me posso queixar. A de boas escolhas é muito maior. Como os táxis de que falei na semana passada. Suponho que seja consequência do desenraizamento, desta necessidade que temos de perceber rapidamente com quem estamos a falar. O único problema é que quando nos enganamos enganamo-nos a sério, como aquelas pessoas muito pontuais que quando estão atrasadas o estão muito. Sou assim: nunca me atraso cinco ou dez minutos. Quando me atraso é às meias horas para cima.

Daqui até ao desenraizamento – tema originalmente intencionado desta crónica – vai um passo gigantesco. É possível, claro, relacioná-lo com os fornecedores, com este hábito de se ficar amigo de quem nos serve bem porque para se chegar até ele houve, “quantas vezes, de se bater às potas erradas.”? Um desenraizado vive nas bordas do tempo, passe o termo. Galopamos o cavalo do aqui e agora na terra do nunca. Ou do amanhã, pelo menos. «Let’s forget about tomorrow / because tomorrow never comes», diz a canção e é mais ou menos assim. Só que nunca esquecemos o amanhã: é a véspera do dia em que temos de nos ir embora. Um desenraizado está, por definição, de passagem. Em movimento. Mas se pára não cai: fica a apontar para o próximo destino. Um desenraizado nunca está onde está hoje, mas sim onde estará amanhã. Ao contrário do que parece, a nossa vida não se resolve com tempo, mas sim com geografia. Nómadas das estrelas, pensava no outro dia e afastei o pensamento: pareceu-me demasiado bimbo. Depois recuperei-o: durante anos a minha geografia foi literalmente definida pelas estrelas (e – raramente – alguns planetas: a Lua, Vénus e Marte). Com um sextante de permeio, claro.

Um dia escreverei um hino ao desenraizamento, a esta capacidade de arrastarmos as raízes connosco como as senhoras de antanho arrastavam saias intermináveis, a esta qualidade que consiste em fazer crescer raízes onde quer que estejamos, qualquer que seja o terreno. Há sempre um fornecedor merecedor da nossa estima, um taxista honesto, um par de olhos com um cérebro por trás.

Ou um Jaume, da Bodega Can Rigo, que me dá a provar vermutes, runs e vinhos com o genuíno desejo de partilhar as suas descobertas (e o legítimo de as vender); para além de um conhecimento enciclopédico de bebidas o Jaume vende algumas das melhores tapas de Palma: o polvo à galega, para retomar o tema; as almôndegas, que o meu amigo Carlos Miguel considera enfadonhas, crítica que compreendo mas não partilho. Acho-as misteriosas, quando são boas; a tortilla, (esta tendo um pouco menos de mistério, porque lhe aprendi o truque).

Nós desenraizados somos o sal da terra – não é de resto por acaso que a expressão vem desse grande desenraizado que Jesus foi: realçamos o que é bom, adaptamo-nos a tudo, vimos em formas diversas e vê-se melhor a nossa falta do que se sente a nossa presença. Um lugar sem desenraizados é insonso, não é? É. Não tem gosto nem cor nem nada. Um lugar sem desenraizados não é um lugar, é uma prisão. Um deserto habitado. Um mar sem marinheiros, esses desenraizados por excelência. (Se calhar fomos nós que lhe demos o sal…)

Um desenraizado é um desassossegado da geografia, um irrequieto do tempo: tanto está em casa aqui hoje como estará ali amanhã. O mundo de hoje é em grande parte o resultado desse desassossego. Esperemos que a modernidade e as suas ilusões não dêem cabo dele, para que os nossos filhos possam olhar para os Jaumes, os Joans, as Chinchillas, as Núrias e os Robertos com olhos diferentes dos dos turistas, perceber que um par de velas bem feitas veste uma embarcação de vela tão bem como uma míni-saia veste as senhoras, que alugar um automóvel ou levantar um braço na rua para mandar parar um táxi são – ou pelo menos podem ser – actos incomparavelmente nobres. E que o tempo não passa de uma sinuosa, íngreme e bela estrada de montanha que ora sobe ora desce, ora aponta para Leste ora para Norte, Sul ou Oeste, ora está bem pavimentada ora sofreu os efeitos de uma avalanche. Sabemos de onde partiu mas não aonde nos leva. «A pátria é uma tenda no deserto», diz um provérbio árabe. A minha casa é uma gota de água no oceano, acrescento eu. Ou de chuva. Ou da torneira. Ou do rio, do lago, da barragem, da nascente, da poça na rua, do charco, do pântano, da nascente subterrânea.

 

Luís Serpa, Palma, 19/06/2021

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