30 de setembro. Nasceu Elek Benedek. Dia dos Contos Populares Húngaros

por Arnaldo Rivotti

30 de setembro é o dia dos contos populares húngaros e também o aniversário de Elek Benedek, um dos escritores pioneiros da literatura juvenil e dos contos populares húngaros, que se tornou bastante popular principalmente pelas histórias dos székely (leia-se cêkei), húngaros da região sudeste da Transilvânia.

Elek Benedek nasceu em 1859 em Kisbacon, que hoje é Băţani Mic, na Roménia. Estudou em Székelyudvarhely e Budapeste e enquanto estudante, realizou vários levantamentos etnográficos. Foi também jornalista e, mais tarde, tornou-se representante parlamentar em Nagyajta.

A sinopse do seu livro “O Mundo Dos Contos E Lendas Da Hungria” , publicado pela Bertrand (Portugal), refere que cada conto seu é repleto de emoção, cor, ação, aventura. Reflete os aspectos peculiares da Hungria, sua riqueza e o modo especial húngaro de contar histórias, particularmente encantador nas fórmulas de abertura que aparecem em muitos contos: Onde foi, onde não foi, além dos sete reinos, e pra cá do mar Operenciano, num lugar distante, vivia certa vez um rei…. Esse modo de iniciar a história cria uma porta de entrada ao maravilhoso, e nada mais é preciso para saltar do mundo de cá, das limitações e dos conflitos, para o de lá, terra do encantamento onde nos transformamos também em seres encantados capazes de realizar o impossível.

Elek Benedek também traduziu muitos contos dos irmãos Grimm e “Mil e Uma Noites” para a língua húngara. Hoje é considerado como o fundador da literatura infantil na Hungria e é por isso que a Associação de Leitura Húngara consagrou o dia do seu aniversário, como o dia dos Contos Populares Húngaros.

Paulo Schiller, tradutor do húngaro de “O Legado de Eszter” e “Veredicto em Canudos”, ambos de Sándor Márai, publicou na Folha de São Paulo (Brasil), um ensaio sobre Elek Benedek, que aqui se transcreve:

“Era uma vez” o inconsciente

No território do “era uma vez”, num lugar para além de mares, rios e reinos imaginários, vivem, na fantasia da gente simples do campo, donzelas bondosas, madrastas malvadas, pobres de espírito, gigantes, fadas, bruxas, magos, duendes, dragões, árvores milagrosas, bichos e objetos falantes. Há os palácios de ouro com portões de prata e porões forrados de diamantes. Lindas princesas choram pérolas e riem rosas.

Nas vozes dos narradores dessa coleção, transparece clara a fala do contador que reitera palavra por palavra, ao gosto das crianças, os acontecimentos conhecidos e esperados, ou inventa e modula o roteiro segundo a percepção que tem dos ouvintes. A beleza do texto, preservada pela tradução, não é fruto de uma prosa requintada: deriva da transcrição fiel do estilo narrativo da tradição oral. Embora muitas das fábulas exaltem o triunfo do bem, da justiça e da verdade, nem todas contemplam um fim edificante ou moral: o que se faz sempre presente é o simples prazer de contar. A influência oriental se depreende da estrutura labiríntica e pelo cumprimento do destino anunciado.

“Rei Mirko e o Encantador”, composta de vários episódios, é a mais longa dessas histórias, tomando quase toda a segunda metade do livro. Destaca-se pelo ritmo, pela diversidade dos personagens e pela trama movimentada e cheia de surpresas. Trata-se de uma versão belíssima da história do sapo que vira príncipe por conta do amor de uma princesa.

Elek Benedek (1859-1929), jornalista, crítico literário, editor, político, autor prolífico de novelas para a juventude, tradutor de lendas estrangeiras, foi o cronista dos costumes, do cotidiano e do folclore dos povoados de língua húngara espalhados pelo sudeste da Transilvânia, berço fantástico do conde Drácula, hoje parte da Roménia. Dedicou-se a transformar a utilização sistemática da literatura na educação das crianças em prioridade política do Estado.

Escreveu livros de história de cunho didático, criou e adaptou contos, dirigiu periódicos para jovens. É tido como o fundador da literatura infantil de seu país. Em 1885 editou coleção de fábulas considerada o primeiro livro infantil de valor literário em húngaro. Entre 1894 e 1896 publicou cinco volumes de contos e lendas da Hungria preparados para a exposição do milénio em Budapeste. Como Bártok na música, reuniu as histórias passadas entre as gerações de contadores que perambulavam pelas aldeias da região.

Para os moradores desses lugarejos, muitos dos personagens dessas fantasias que povoavam as pausas para descanso do trabalho ou as noites invernais não pertenciam ao mundo da ficção: eles acreditavam na realidade dos feitiços e encantamentos.

As tramas dessas narrativas, superponíveis aos enredos do folclore de outras nações e inspiradoras das produções pasteurizadas destinadas às crianças dos nossos dias, evidenciam não a existência de um inconsciente coletivo, mas, sim, a estrutura universal do inconsciente.

 

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