Dos mercados

por João Miguel Henriques

Não é dos mercados de Natal que sinto falta, com o seu típico exagero de luzes e decorações, o vinho quente aguado, os mesmos produtos inflacionados de sempre e as hordas de turistas na histeria festiva de quem acredita que o Salvador nasceu ali mesmo, num qualquer recanto esconso da Basílica de Santo Estevão. Não, dos mercados de Natal não sinto este ano grande falta, talvez apenas do de Óbuda, mais pitoresco e familiar. O que me falta é a feira da ladra. Escrita mesmo assim, com letra minúscula, que não falo só da de Lisboa, mas de todas as feiras e vendas de usados e antiguidades de que Nosso Senhor teve a bondade de dotar a Hungria e em geral toda a região da Europa Central e de Leste. Feira da ladra vai-me servindo assim como designação geral de todas estas vendas, para evitar uma hipotética e muito estranha tradução portuguesa („mercado de pulgas”) do termo usado em tantas línguas, húngaro incluído. Depois há variações locais, naturalmente, como por exemplo o „mercado polaco” da minha querida Szeged, onde vivi das mais belas experiências de regateio da minha vida.

Na capital, os guias turísticos mencionam quase sempre o mercado de Ecseri, mas eu cá prefiro o da estrada que vai para Budaörs. Em tempos frequentava o do Város Liget, mas deixou de fazer-se. Os que acontecem ao fim de semana no centro da cidade, como o do infame Gozsdu Udvar, são na maioria dos casos um insulto para a classe, pela sua ofensiva mistura de antiguidades com artigos novos a imitar o antigo. Só menciono aqui essas vendas a título de registo e com um leve estremecimento de repulsa. Tive porém a sorte de conhecer outros, fora de Budapeste. Szeged, como já disse, com áreas de venda interior e exterior, e onde descobri que também é possível vender restos de medicamentos, nas suas embalagens já abertas.  Kiskundorozsma, muito perto de Szeged, onde me iniciei no coleccionismo mais ou menos dedicado de selos (deixo o termo filatelia para os mestres, para os que levam isto mesmo a sério). Pécs, grandioso, onde no filme de Emir Kusturica, Gato Preto, Gato Branco, se sugere a uma das personagens que vá arranjar mulher para casar. E também Baja, só para dar mais um exemplo, onde comprei para meus pais, a óptimo preço, um maravilhoso vidro pintado representando a Virgem Maria com o Menino Jesus ao colo. Chegou partido a Portugal, pessimamente acomodado na mala de viagem, e meus pais gastaram depois dez vezes o preço da obra na sua restauração.

Ao longo dos anos fui aprendendo umas coisas no que a estas feiras e mercados diz respeito. E como o que se aprende de bom ou útil logo se torna regra preceito, permitam-me partilhar meia-dúzia, estilo manual de boas práticas. Pode ser que também valham para outras áreas, para a própria existência, se devidamente transpostas e adaptadas:

  1. Ao mercado não se chega demasiado cedo, ao contrário do que possam dizer ou pensar. Os vendedores chegam cedo, os clientes por volta das dez da manhã.
  2. No mercado, salvo raras excepções de indiscutível oportunidade, nunca se compra antes das onze da manhã, pois é só a partir dessa hora que os vendedores começam a pensar seriamente no almoço (esta gente acorda cedo e a essa hora já está cheia de fome). Desejoso de começar a arrumar as coisas e dar a jornada por terminada, o vendedor estará particularmente vulnerável ao regateio, pois qualquer venda tardia significará para ele compôr financeiramente o dia e ter de arrumar menos coisas.
  3. Perante artigo desejado, deve manifestar-se interesse junto do vendedor por outro artigo mais ou menos da mesma categoria (não muito diferente mas também não muito parecido). Desistindo-se depois desse pseudo artigo de interesse, deve então perguntar-se, quase com indiferença, pelo preço daquilo que verdadeiramente se deseja. O feirante estará psicologicamente afectado pelo fracasso da anterior possibilidade de negócio e mais aberto a fazer acontecer a segunda, mesmo a um preço inferior.
  4. Também ao contrário do que se possa dizer ou pensar, o regateio não é imprescindível. Trata-se de um ritual quase sagrado, que na Hungria deve ser levado a cabo apenas em certas circunstâncias. Isto aqui não é o Marrocos, os vendedores húngaros não se ofendem se não regatearmos o preço, ora essa. Mas há certas ocasiões que pedem um bom regateio, e só a intuição de cada um, melhorada com a experiência acumulada em manhãs passadas em mercados, poderá identificar esses momentos. Comece-se por oferecer por dado artigo um preço na ordem da metade ou dois terços do anunciado, mostrando-se o dinheiro na mão, para dar força à oferta. Não é vergonha nenhuma mentir e dizer que só se pode pagar aquilo, que não tem mais. Aproveite-se para praticar a língua.
  5. Depois da primeira hora de visita ao mercado, deve consumir-se alguma coisa, por mais andrajosos que nos pareçam os cafés e bares às disposição. O café será horrível, a típica sopa preta, como dizem os húngaros. Beba-se um café. Ou então coma-se um lángos, sem pensar nas consequências.
  6. Não se deixa um mercado sem comprar qualquer coisa, em honra e tributo aos deuses das feiras e vendas. Pode ser qualquer coisa. Houve um dia que levei para casa uma colecção de galhardetes de obscuros clubes de futebol romenos. Não me arrependi. Não me arrependo de nada do que trouxe de um mercado.
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