Dorme, ainda é Inverno

por João Miguel Henriques
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Faz por exemplo como o urso, que tem por hábito biológico a feliz hibernação (“estado letárgico de certos animais durante o Inverno, que corresponde a um adormecimento com quase total inactividade e redução do metabolismo do organismo ao mínimo”). Na Hungria, diz a crença popular, de raízes incertas e transmitida por via erudita, que no dia dois de Fevereiro (precisamente nesse dia, nem antes nem depois) o urso sai da sua toca para ver como está o tempo. Se o dia é de sol, a ameaçar uma falsa Primavera de gelos derretidos, aves canoras e temperaturas já amenas, regressa o experimentado animal à toca para continuar a dormir, sabedor que todo esse brilho e bonança não passa de um camoniano “engano de alma, ledo e cego, que a fortuna não deixa durar muito”, e que o Inverno está longe de se render. Se pelo contrário o dia é efectivamente invernoso, com tudo aquilo de frio e escuridão a que qualquer criatura setentrional tem direito, então está na hora de saltar da cama e acordar para a vida. O Inverno está já a poucas semanas de terminar e a floresta é todo um mundo de futuras possibilidades, prenhe que estará de frutos do bosque, peixe nos riachos e incautos caminheiros para desfigurar. Lamento profundamente lembrar que no passado dia dois houve algum sol e aragens primaveris.

Ela andou aí uns tempos obcecada com o urso, com a natureza fascinante e paradoxal deste animal, ao mesmo tempo tão esquivo e tão presente no nosso imaginário cultural.  Acho que foi desde que viu aquele vídeo do ursinho a passear à noite junto ao mercado de Miskolc. Criou-se a ideia de que os ursos haviam regressado em massa ao território nacional, vindos de todos os florestados países vizinhos, em hordas famintas e incontroláveis, quais pardos imigrantes ilegais, sem smartphone é certo, mas também sem arame farpado para os conter. Pusemo-nos então a refletir também sobre a fofura ursina, a modos de acalmar algum desconfortável receio com que então passámos a sair de passeio para a floresta. Lembrei-lhe as histórias infantis e dei-lhe o exemplo do simpático Winnie. Ela falou-me com propriedade de todos os ursinhos de peluche e imaginámos o bom que seria poder adormecer no regaço quente de um desses gigantes, no esconso de uma caverna, iluminados apenas por um braseiro de chão. O bom e amigo urso. Não o assassino de runners de montanha nem a besta a fazer gato-sapato de Leonardo Di Caprio em O Renascido. Mas mais o paciente avôzinho que à porta da escola ao lado de casa lê uma história a crianças e ursinhos pequenos. Sigamos portanto o modelo do urso e fiquemos a dormir mais um pouco, que o inverno é duro e longo.

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