Os Dias da Semana e o Bispo de Bracara Augusta (Braga) – nascido na Panónia (atual Hungria)

por LMn

Muitos de nós não sabemos a razão porque a denominação dos dias da semana, são em Portugal e no mundo lusófono, tão diferentes das de outros países e idiomas. A causa tem um nome, São Martinho de Dume, Bisbo de Braga, que nasceu na província romana de Panónia, região que faz parte da atual Hungria (Panónia, c.510/5 – Braga, 579/80)

Na verdade, nas línguas latinas, os dias da semana advêm dos deuses romanos referentes aos astros conhecidos da época. Assim em espanhol (castelhano) temos: Lunes, Martes, Miércoles, Jueves, Viernes (Sábado, Domingo), em francês: Lundi, Mardi, Mecredi, Jeudi, Vendredi (Samedi, Dimanche), e em italiano: Lunedi, Martedi, Mercoledì, Giovedi, Venerdì (Sabato, Doménica) … em português temos, Segunda-feira, Terça-feira, Quarta-feira, Quinta-feira, Sexta-feira (Sábado e Domingo). A língua portuguesa é pois a única lingua românica em que foi substituído o nome dos planetas pelos numerais.

O facto de ser assim, teve o dedo, a vontade e a religiosidade de São Martinho de Dume – ou Martinho de Braga, Martinho Bracarense ou Martinho da Pannónia (Bragai Szent Márton) -, conhecido também por ser o Apóstolo dos Suevos, teólogo e filósofo, que além de mudar o nome dos dias da semana também quis mudar o nome dos planetas, neste caso, sem sucesso.

Recapitulando, originalmente tínhamos:

  1. Solis dies, o dia do sol. A semana deveria começar com um dia de descanso, de culto aos deuses, e ao maior astro, o sol, para serem abençoados pelos dias que se seguiriam.
  2. Lunae dies, o dia da lua. Segundo astro mais importante para o culto romano, o segundo dia da semana dedicado à lua, e a sua influência nas sementeiras e nas marés.
  3. Martis dies, dia de Marte. Para o deus da guerra, um dia dedicado à prática das artes da guerra e dos exercícios físicos e desportivos.
  4. Mercurii dies, dia de Mercúrio. Dia dedicado ao patrono dos comerciantes e viajantes.
  5. Jovis dies, o dia de Júpiter. O “Deus Pai”, Júpiter (Diu Pater) era o criador da natureza, das chuvas, das colheitas, portanto este dia era dedicado à natureza e ao seu criador.
  6. Veneris dies, o dia de Vénus. O astro mais brilhante do céu era também o símbolo do ouro, e por isso este dia foi dedicado a Vénus, pois era neste dia que os soldados romanos recebiam, em ouro, os seus pagamentos.
  7. Saturni dies, o dia de Saturno. Ao deus do tempo foi dedicado o último dia da semana e era um dia dedicado à reflexão, descanso e às ceias com a família.

Com a crescente influência da igreja católica no império romano, após o Concílio de Nicéia, no século IV, o sétimo dia da semana passou a ser dedicado ao Shabat (Sabat) judeu, o dia em que Deus descansou da sua criação do mundo e passou a ser o primeiro dia da semana, dedicado ao próprio Senhor Jesus, para se combater o culto ao Senhor Sol, tornando-se assim, o dia do Senhor, o Dies Dominica. De sublinhar que essa modificação só influenciou a Europa Latina. Na Europa germânica os nomes dos dias dedicados a Saturno e ao sol permaneceram, como podemos ver no inglês: Saturday e Sunday.

Foi São Martinho de Dume, Bispo de Braga que dirigindo o Primeiro Concílio de Braga – entre os anos de 561 a 563 – e seguindo a orientação de São Cesário, Bispo de Arles, modificou por completo os nomes dos dias da semana.

De referir que os concílios de Braga foram concílios regionais e só abrangiam as decisões da igreja dentro de seu território de influência, que era justamente a geografia do que veio a ser mais tarde Portugal. É por esta razão que somente na região do que veio depois a ser Portugal se seguiu a tradição bracarense dos nomes dos dias da semana modificados pela igreja. No resto da Europa católica essa orientação não foi seguida pelos outros episcopados.

São Martinho, combatendo o paganismo romano nas nomenclaturas conhecidas, substituiu os antigos nomes romanos por dias que deveriam ser dedicados às festas litúrgicas. Assim, foi decidido que a partir deste Concílio, naquela região, os dias deveriam ser denominados como: Dominica dies, Feria Secunda, Feria Tertia, Feria Quarta, Feria Quinta, Feria Sexta, Sabbatum. No latim, Feria tinha o sentido de Festa (no caso, festa litúrgica, de onde veio o nome Feriado).

Ao longo dos anos, com o desenvolvimento da língua portuguesa, a palavra Feria foi substituída pela palavra Feira, porque Feira era o dia do mercado. Assim, os nomes dos dias da semana em português tiveram sua atual modificação: Domingo, Segunda-feira, Terça-feira, Quarta-feira, Quinta-feira, Sexta-feira, Sábado (A Terça-feira não foi nomeada como Terceira-feira porque seguiu a pronúncia latina do seu original Tertia).

Quando Portugal se tornou um reino independente e unificado, a tradição dos dias da semana “numerais”  já tinha mais de meio século e tinha ganho raízes e assim se manteve em Portugal e mais tarde nos países de expressão oficial portuguesa espalhados pelo mundo – Brasil, Angola, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique, S. Tomé e Príncipe e Timor.

 

São Martinho de Braga: ver fonte

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