Diário de um Médico Português na Hungria (Excertos)

por LMn

Por Dr. José Tajola

Na Hungria, a minha história começou há mais de 40 anos.

Eu era filho único nascido no seio de uma família pobre, mas com legítimas ambicōes de poder tirar um curso superior, de medicina. Vivia muito perto de Lisboa, onde terminei o ensino secundário no liceu Gil Vicente, que me deu uma preparacāo muito forte para os meus estudos futuros.

Depois da revoluçāo em Portugal, o ensino e a situação política tornou-se muito instável, muitas reuniōes gerais de estudantes, poucas aulas, pode-se dizer mesmo, um pouco de anarquia generalizada. Foi nesse ambiente que fiz exame para entrada no ensino superior. As minhas notas nāo foram muito más, mas para entrar na faculdade de medicina de Lisboa nāo eram suficientes. Podia ir estudar para o Porto ou Coimbra mas nāo tinha possibilidades monetárias para pagar estadia privada, transportes e alimentaçāo à parte da casa dos meu pais. Como tinha marcado em segundo lugar a universidade de agronomia de Lisboa, foi lá que comecei os meus estudos superiore, mas sem perder a esperança de no futuro poder continuar os meus estudos em medicina.

Já tinha começado o segundo trimestre do segundo ano de agronomia quando surgiu a possibilidade de continuar os meus estudos no estrangeiro, num país socialista do leste europeu. Fiz inscricāo para a bolsa de estudo e no verāo de 1979 recebi uma resposta positiva que tinha ganho uma bolsa de estudo para estudar medicina na Hungria. Inacreditável. Hurrá! Uma alegia enorme!

Num dia de sol de outono português, a 18 de setembro, despedi-me de familiares e amigos e com a minha alma cheia de esperança e pensamento cheio de aventura entrei no avião da TAP em  Lisboa  Nessa altura nāo pensava, nem sequer imaginava que iria escrever estas frases e pensamentos numa cidade de província da Hungria, Kecskemét, passados mais de 40 anos, não é erro, 40 anos, uma vida! Nāo imaginava o que me esperava…

No aeroporto conheci os outros 2 jovens que como eu tinham ganho bolsa de estudo para a Hungria, Teresa Santos e Joaquim Pimpāo. Ambos estudaram economia. Grande alegria, tenho em Budapeste com quem falar, pensei. O nosso aviāo fez escala em Frankfurt, onde entrámos no aviāo da então Malév, foi um pouco como passar do dia para a noite. Um pouco mais pequeno, pouco mais desconfortável, um pouco mais barulhento dos motores… o Pimpāo avisou-me que nāo será nem a primeira nem a última surpresa que me espera e tinha muita razão. Quando chegámos sobre budapeste era grande a expectativa.

Foi muito grande o contraste. Um fim-de-tarde escura e nebulosa, todos os veículos muito simples, Lada, Trabant, etc…todos mais ou menos na mesma cor, os camiôes  e camionetas todas iguais, Zil e Ikarus…, muitos edifícios com marcas de balas  dos combates em Budapeste, a II Grande Guerra, a Revoluçāo de 1956….As primeiras impressões foram que chegamos a uma cidade muito triste, pouco cinzenta e sem vibraçāo, como hoje se diz…Não se esquecam que chegámos de Lisboa, de uma cidade alegre, colorida, e com um espírito mediterrânico.

Estavam à nossa espera no aeroporto de Ferihegy I, e levaram-nos para um colégio estudantil para estrangeiros, situado em Buda na longa avenida de Budaörs uma das saídas principais de Budapeste em direção de Áustria.  Ali esperava por nós um jovem português que já estava cá há dois ou três anos e nos ajudou bastante nos primeiros dias e na nossa integracāo na sociedade húngara.

Era no rés-do-chāo do colégio que eram dadas as aulas, primeiro de língua húngara, conversaçāo e gramática e a partir de novembro disciplinas ligadas aos futuros estudos. Podem imaginar as nossas dificuldades na questão de estudo da língua. A língua húngara é justamente considerada uma das mais difíceis de aprender no mundo. Chegámos à conclusāo que por livro não conseguimos aprender e decidimos mais pelas aulas práticas. Assim, todos os dias depois de terminarmos os estudos no colégio íamos ao centro da cidade e tentarmo-nos integrar no dia a dia de Budapeste. Conhecemos jovens húngaros, visitámos os clubes de juventude da KISZ, íamos a festas noutros colégios das diversas faculdades e todos os dias utilizámos na prática os poucos conhecimentos da língua que íamos adquirindo.

Apareceram também outras dificuldades. Penso na questão de dinheiro. Recebemos senhas para tomar as refeições no refeitório do colégio mais 200 forints de mesada para os nossos gastos. Está bem que escrevíamos 1979, mas era muito pouco, não chegava…Primeira decisāo: devolvemos as senhas de pequeno-almoço e jantar, com mais um pouco de dinheiro entrámos numa alimentacāo muito diversicada: torradas com manteiga, deliciosas, cacau em sacos de meio litro, muito delicioso e para acabar a sobremesa, um iogurte de fruta – havia morango, amora, pêssego e cereja, também eram uma delícia. Aré nos divertíamos com a nossa gastronomia diversificada. Foi assim durante 6 meses.

Entretanto começãmos a conhecer uma cidade linda e amigável, um país muito hospitaleiro e com muitas maravilhas de que não te apercebes á primeira vista.
Monumentos, museus e coisas muito interessantes. Passeio de barco no rio Danúbio, deliciando-nos com a vista da cidade, com as maravilhosas margens. E a neve. Aqui vi pela primeira vez neve na minha vida. Muitas vezes escorreguei e caí. Andei de trenó, vi o Danúbio completamente congelado, nessa altura o inverno era muito rigoroso, mais do que é agora. Claro, houve quem me, nos guiou e mostrou as belezas escondidas de Budapeste e da Hungria, a hospitalidade do povo húngaro.

Apesar das dificuldades iniciais, já então sentia que me iria adaptar e sentir aqui muito bem, e de facto foi o que aconteceu. No primeiro ano de estadia aqui, viajei muito e fiquei a conhecer quase todo o país. Passaram-se os meses e em julho de 1980 fizemos exame de acesso ao ensino superior, todos nós os trés com sucesso. A Teresa e o Pimpāo ficaram em Budapeste e eu fui para Pécs, a cidade universitária que fica a 200 km da capital. Pécs, cidade que teve influência na minha vida profissional.

 

Continua…

José Tajola, Kecskemét, 28 de setembro de 2020

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