Diário de um médico português na Hungria (excertos 5.)

por LMn

Por Dr. José Tajola

Caros leitores, tal como prometi continuo esta semana a minha história.

Em dezembro de 1990, como estava mais ou menos planeado tirei a minha especialidade de anestesista e despedi-me dos meus colegas. Dado que desde o início de janeiro de 1991 já praticava em Fülöpháza, nāo mudou muito o meu ritmo de vida.

Entretanto em dezembro de 1989 nasceu a minha segunda filha, Patrícia.

Acabei assim o trabalho no hospital, mas no total fiquei com as mesmas horas de trabalho, tal como anteriormente. Depois de terminar as consultas ficava de serviço de banco contínuo ao longo da semana. Nos fins de semana o serviço era alargado a duas povoações contíguas, que abrangiam no total cerca de 8000 habitantes.

Como Fülöpháza dista a 21 km da cidade mais próxima, e o fator tempo era muito importante, em variadas situações de urgência tínhamos que dar um tratamento específico ou estabilizar o estado do doente, para quando chegasse a ambulância o levar de imediato para o hospital, para equilibrar o estado do paciente.

Com o passar do tempo fiz inúmeras amizades com muitos habitantes da aldeia, especialmente com pessoas com quem mantinha um contacto mais assíduo, como sejam o presidente da junta e familiares, vizinhos de cercania, médico veterinário, jovens mais ou menos da minha idade, na generalidade. Todos os anos havia 2 ou três grandes acontecimentos importantes na casa da cultura aonde eu estava sempre presente como convidado ou colaborador.

Como médico da aldeia comecei a fazer parte da parte da junta que se ocupavva com o bem-estar e saúde da população. Passado um ano já era eu o responsável pela mesma.

Em 1996 tirei a especialidade de médico de família, que já era obrigatória para se poder praticar.

Com o passar dos anos integrei-me completamente na vida da aldeia. Nas eleições para a junta também concorri e fui eleito vereador independente, tendo exercido a função de vice-presidente da junta durante 11 anos.

Com a mudança de regime na Hungria, houve muitas alterações, nāo só políticas. A abertura foi total.

Constituímos uma associação de caça que funcionava apenas em Fülöpháza, e com a maioria de membros que viviam na aldeia.

Fui membro da Associação durante 20 anos, fiz parte da direção da mesma como responsável financeiro.

Nāo só a caça era importante, mas também os passeios ao ar Iivre e as longas caminhadas que fazíamos durante a manhã.

Como se não bastasse, a equipa de futebol da aldeia pediu-me para eu ser o presidente do clube, função que ocupei durante uns anos, mas o trabalho obviamente era feito pelo treinador e pelo técnico profissional.

Entretanto, um dos meus amigos, que era profissional de mergulho aquático, convenceu-me a experimentar este desporto extremo.

Uma decisāo muito positiva, pois tive possibilidade de viajar para outros países que nunca pensei visitar, em especial Egipto, onde me desloquei várias vezes. Tive oportunidade de mergulhar no Sudão e nas illhas açoreanas, para nāo falar da Croácia ou dos lagos naturais da Hungria.

Com o passar do tempo, adquiri bastante prática e com a ajuda profissionál do meu amigo, tirei a especialidade de monitor de práticas de mergulho. Que maravilha da natureza debaixo de água, fauna e flora muito diversificada, mais rica do que por cima da água. Experiências que ficam gravadas para uma vida inteira na minha memória. Conheci pessoas de muitas raças e nacionalidades e aprendi muito com eles. Passados uns anos formámos uma escola de mergulho em Kecskemét que funcionou durante vários anos com sucesso…

Em 1991 separei-me e da nova ligação nasceu a minha terceira filha em 1997, Dominica.

Toda esta atividade em poucos meses terminou, infelizmente. Mudou o meu estado de saúde, em poucos meses comecei a ter dificuldade em mover-me, primeiro nāo podia correr, depois alguma dificuldade em andar e especialmente em falar e coordenar os meus movimentos. Pensei que tinha chegado o fim de tanta aventura. Muitos exames e estadias hospitalares sem diagnóstico concreto, que até ao dia de hoje nāao aconteceu.

O agravamento da doença parou, e com a ajuda de profissionais de saúde de vários territórios, atingi um equilibrio que me permite trabalhar na minha profissāao, conduzir, viajar e viver uma vida completa.

Claro que terminei com a caça porque nas minhas condições era muito perigoso para mim e para todos os que me acompanhavam.

Mergulhar, mergulhei à 4 anos atrás com a ajuda de amigos na Croácia, e se tudo correr da melhor maneira ainda mergulharei num futuro próximo.

Fazendo um pequeno resumo, tenho três filhas na Hungria, e tenho um filho também em Portugal com quem tenho contacto permanente. Sou avô de quatro magníficos netos, todos rapazes.

E passaram 32 anos, parece que cheguei ontem a fülöph@za, 32 anos ricos de experiências e de aventuras…

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