Diário de um médico português na Hungria (excertos 4.)

por LMn

Por Dr. José Tajola

Os primeiros passos como médico de familia.

Os líderes da aldeia de Fülöpháza pensaram e decidiram… aceitar a minha proposta, considerando-a uma alternativa viável e positiva para os habitantes da aldeia, que sendo o médico de família, poderia trabalhar em horário reduzido, sem prejuízo da saúde das pesssoas e esperando que eu terminasse a minha especialidade em Kecskemét.

Da minha parte tinha ainda um problema dificil para resolver, tentar convencer o meu médico-chefe do hospital e os meus colegas que tinha necessidade absoluta deste emprego, dar-lhes a garantia que efectuaria o mesmo número de horas de serviços de banco, uns dias fazia horas a mais e outros dias, menos horas de trabalho. O meu chefe ficou um pouco triste por sentir que mais cedo ou mais tarde iria perder, mais uma vez, um quadro especializado, mas acabou por se conformar e compreeender a minha decisāo.

Comecei o meu trabalho de médico de família em Fülöpháza a 31 de marco de 1988. Era assim, nas semanas-par, segunda, quarta e sexta-feira das 14:30h até haver doentes, semana-impar, segunda-quarta e quinta-feira de tarde e sábado de manhā das 8H até ás 12H, para o caso de alguém não poder vir à consulta de tarde devido ao seu trabalho.

A minha vida profissionàl começou a abranger a chamada medicina base, que só na teoria é mais simples, na práctica torna-se muito mais complexa, diversificada e enriquecedora.

E havia a questão do salário. Muito melhor que no hospital, com metade de horas de trabalho, um incentivo muito forte para um pai de uma jovem família…

Os meus três trabalhos nāo me deixavam muito tempo livre, mas tinha a esperança que num futuro próximo, depois de tirar a especialidade, teria muito mais tempo livre e poderia descansar e divertir-me um pouco mais, e o mais importante, ter tempo para me ocupar com a minha familia.

O colega médico que trabalhava antes de mim em Fülöpháza, era um muito bom profissional de medicina, os habitantes da aldeia gostavam muito dele e tinham grande confiança nele e estavam habituados a serem tratados adequadamente, de forma sempre assertiva. Como antigamente acontecia, desde diagnose sofisticada de doenças com ajuda instrumental até ao arrancar de doentes, se tal fosse necessário. Infelizmente faleceu muito novo, com 51 anos, durante uma consulta que estava a dar. Tinha ajuda de uma enfermeira e de uma assistente.

Desde então, na aldeia tinham passado 3 anos com médicos interinos substitutos mas sem grande sucesso. Foi com muita expectativa que esperaram a minha primeira consulta… Nāo era húngaro, como poderiam comunicar comigo, estavam todos muito curiosos, como seria o meu aspecto, seria simpático, etc…etc…

A aldeia, habitantes e chefia, esperava de mim um nível profissional semelhante ao do meu antecessor. O primeiro contrato de trabalho foi por três meses – tinha que provar que era competente para ocupar o lugar. Sem falsa modéstia, penso que me saí bastante bem…

Para mim foi uma grande satisfação e sucesso profissional, quando a presidente da junta de freguesia, quando estavamos a conversar sobre prolongamento do meu contrato me pôs a pergunta: se estava interessado em ir viver com a minha família para a aldeia!?

Como anexo ao consultório havia uma vivenda com três assoalhadas, garagem e jardim..que maravilha!

Permitem-me explicar um pouco mais, para melhor perceberem do que estou a falar. Quando viemos para kecskemét fomos viver para um pequeno apartamento de uma só habitacão – quarto-cozinha, sem casa-de-banho integrada e com aquecimento a óleo. Depois alugámos um apartamento no quarto andar, num edificio pré-fabricado, melhor que o anterior mas mesmo assim bastante humilde e pequeno.

Depois da minha filha Stella nascer, o hospital dispensou um pequeno apartamento próprio, tanto eu como uma minha esposa trabalhávamos no hospital e assim tivemos direito a esse privilégio. Na primavera de 1988, casei-me e assim, pela lei então em vigor, tivemos direito a um apartamento com duas assoalhadas….

E agora uma vivenda renovada completamento ao nosso gosto com jardim, garagem… que grande alegria…, foi com esta notícia que cheguei a casa e nāo houve dúvida que iríamos viver para Fülöpháza. A juntar à vivenda, um aumento significativo de salário, melhores condições de vida.

Nas aldeias foi sempre costume agradecer, gratificar o trabalho que o médico efectuava… recebi muitos produtos alimentares criados e produzidos pelos próprios, ovos, galinhas, mel, batatas e vários tipos de legumes também, quando da matnça do porco, um pouco de carne fresca para assar no forno, mas muitas vezes aconteceu trazer para casa ramos de flores….. em Fülöpháza os cidadãos assim agradeciam o meu trabalho…

Passado uns meses eram a minha pequena-grande família… conhecia todos os habitantes… sabia onde moravam…que doenças tinham…os seus problemas pessoais… e a minha ajuda nāo era só como médico… por vezes psicólogo, ajudava no que podia e vice-versa, a mim também me ajudavam…

Não demorou muito tempo o primeiro convite para um casamento na aldeia… muito boas e novas experiências que só lá vivendo se pode sentir…

Nas primeiras consultas foi a escriturária que me deu assistência…que era a viúva do meu  colega antecessor que tinha falecido… a enfermeira, Nelli, tinha tido a sua segunda filha que era bebé e naturalmente estava em casa…

Tenho muito a agradecer à escriturária que me acompanhou e me apresentou aos doentes que viviam nos montes distantes do centro da aldeia.. nessa altura metade da populacāo vivia nos montes. Tinham dificuldade em se deslocar ao consultório, por na maioria serem idosos ou nāo terem meios de tranporte próprios.

Em três meses aprendi onde viviam todos, e como o meu colega antecessor fazia, eu também realizava a visita médica ao domicílio… uns de duas em duas semanas, outros de mês a mês, dependentemente da gravidade das suas doenças.

Em principio fazia as visitas aos sábados em que nāo dava consulta, mais tarde quando só já trabalhava na aldeia era todas as quintas-feiras de manhā e sextas de tarde… porque com o passar do tempo chegei a ter 43 doentes idosos que visitava sistemáticamente… nāo era suficiente meio dia…

Nāo só os visitáva, como também lhes levava os medicamentos.. tinha farmácia móvel no meu jipe e em caso de necessidade deixava lá directamente o medicamento. Tal era possivel porque como nāo havia farmácia na aldeia era e continua ser no consultório que damos os medicamentos aos doentes…

Tenho muito a agradecer também à enfermeira Nelli porque passados três meses, a escriturária reformou-se e a enfermeira em vez de ficar em casa com a filha durante três anos, como a lei o permitia, passado 6 meses retomou as funçöes de enfermeira junto de mim…

Penso que para esta semana será o suficiente… na próxima semana continuarei…

 

Créditos das fotos: Ujvár Sándor

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