Diário de um médico português na Hungria (excertos 2.)

por LMn

Por José Tajola

Hoje, preparei a nossa comida preferida: esparguete com frutos do mar à portuguesa. Passados mais de 40 anos, ainda nāo me esqueci de cozinhar…

Voltando ao importante, em 1980 comecei os meus estudos universitários em Pécs.  Que grande mudança! Até aos 19 anos, tinha vivido, primeiro em Lisboa, e um ano em Budapeste. De repente encontrei-me num colégio (residência estudantil) de uma cidade de província muito adormecida para o meu gosto.

Os amigos e conhecidos estavam todos em Budapeste, sentia-me um pouco triste e abandonado. Os meus colegas ou viviam na província, no fim-de-semana iam a casa, ou eram de Pécs e nāo tinha muito contacto com eles, apenas durante o tempo de aulas. Estrangeiros éramos 18, de várias nacionalidades.

À situação de pouco dinheiro para uma vida mais normal, juntou-se o sentimento que ainda nāo sabia nada de húngaro. As aulas teóricas e práticas eram em húngaro, já nāo havia ajudas, havia em contrapartida a sensação de teres sido lançado para o oceano profundo sem saberes muito nadar…

Em Pécs encontrei-me com um húngaro de nacionalidade jugoslava que também ganhou uma bolsa de estudo. Tornamo-nos muito amigos, a nossa amizade ainda dura, passados todos estes anos. Com ele comecei a visitar os “vários países vizinhos”, que nessa altura se chamava Jugoslávia. Conheci outras maneiras de pensar, outros povos o que me ajudou bastante a compreender a história e os acontecimentos que se passaram na europa central e oriental no decorrer do século XX.

Paralelamente aos estudos, comecei a trabalhar para garantir a minha independência material! Estava há 3 meses em Pécs a beber um café e a ver um jogo de futebol na portaria do colégio, quando entrou um homem de meia idade a perguntar se alguém estava interessado em o ajudar nos tempos livres, trabalho fácil dizia ele. Perguntei que tipo de trabalho era… de carro, tinha de o acompanhar até Budapeste, onde ele vendia rosas junto ao mercado central, na Praça Dimitrov. Durante o dia trabalhava no jardim, apanhava as rosas e fazia bouquets de vários tamanhos, e de madrugada saía a vendê-las. Na semana anterior tinha sofrido um acidente, felizmente sem grandes consequências para ele. Devido à fadiga acumulada, tinha adormecido ao volante… Na noite seguinte acompanhei-o. Praticava o idioma húngaro e ainda tinha um salário.

Não vos quero aborrecer, mas mesmo resumidamente, tenho que explicar que trabalho era. Depois de chegarmos ao mercado, montámos a bancada. Enquanto ele dormia no carro, eu que nāo tinha sono, ficava junto a bancada. Quando ele acordou para começar a venda já eu lhe tinha vendido toda a mercadoria, já não havia mais rosas para vender! Muito alegria da parte dele, e minha também…. uma semana depois já era eu que lhe tratava do “jardim”, da horta, a seguir veio a colheita das batatas, melancias, morangos, framboesas etc,  passado poucos meses eu era o seu braço-direito e tinha muitos colegas da universidade que trabalhavam para mim… se fosse agora diria que eu alugava mão-de-obra estudantil… Foi a base de minha independência financeira!

Por causa de dificuldade da língua, os estudos eram muito difíceis… a universidade de medicina de Pécs era famosa pelo seu rigor e dificuldade. Dou um exemplo. O meu professor de anatomia nas aulas de anfiteatro utilizava as duas māos, com a direita escrevia no quadro, com a mão esquerda desenhava simultaneamente, era impossível de tirar apontamentos.

Todos os fins de semana que tinha tempo livre deslocava-me a Budapeste, visitar amigos e distrair-me… E assim se passaram dois anos. Com o passar do tempo, a vida no colégio tornou-se mais interessante, arranjei mais conhecidos, conheci os arredores de Pécs que eram muito perto da fronteira jugoslava, e por isso me desloquei muitas vezes lá, sobretudo a Szabadka (Subotica). Fazíamos um pouco de importaçāo e de exportaçāo. Levávamos produtos que eles necessitavam e trazíamos o que aqui se vendia bem… ajudava a pagar a viagem e a estadia…

Não me levem a mal, mas ainda hoje tenho orgulho que apesar das dificuldades nunca chumbei em nenhuma disciplina… Estes dois anos em Pécs deixaram fortes marcas no meu espírito. Apesar das dificuldades inicialmente sentidas em Pécs fiquei com muito boas recordações da cidade e das pessoas com quem convivi, passados mais de 38 anos, continuo a deslocar-me lá, pelos amigos e pela cidade.

A partir do terceiro ano continuei os meus estudos em Budapeste, fiz concurso a uma vaga na universidade de Budapeste, e aceitaram o meu pedido. Estou a falar de setembro de 1982, parece que foi ontem… Nova universidade, nova vida. Novamente a vibração da capital. Foi tudo muito mais fácil. As minhas notas em Pécs nunca passaram de suficiente. Na Universidade SOTE de Budapeste, fui aluno de bons aos muito-bons, média que se manteve até terminar o meu curso e me formei como médico.

Quanto ao trabalho, tinha mais possibilidades e alternativas de trabalho, até como guia de delegações de grupos de língua portuguesa ou traduções de artigos ou de textos de húngaro para português. Trabalhos muito bem pagos, porque há trinta e poucos anos atrás poucas pessos falavam a língua portuguesa.

Aumentou em extensão o perímetro das viagens, Áustria, Alemanha, umas vezes em viagens de “negócios” ou simplesmente com um bilhete inter/rail um mês pela Europa com uma mochilha às costas, dormindo nos comboios ou nas estações, ou ou ar livre nas praias ou jardins. Era jovem e aventureiro e cheio de energia.

Quando chegei ao quinto ano de estudos, houve possibilidade de fazer um exame para poder trabalhar como aluno de medicina numa ambulância. Penso que fui o primeiro aluno estrangeiro a ter sucesso nesse exame ou pelo menos no ano de 1984, fui o único. Em 1985 trabalhei como oficial paramédico.

Ganhei muita experiência profissional nesses 12 meses, em princípio só tratava dos casos mais simples, mas com o passar das semanas cada vez mais dificuldades, casos mais complicados e comecei a trabalhar em 24 horas contínuas, muito duro, mas aprendi muito.Tenho muito a agradecer aos profissionais que me acompanhavam na ambulância, aprendi muito com eles, ouvi e aceitei os seus conselhos, tanto pessoais como profissionais. Ajudou-me este ano de práctica a ganhar confiança e segurança nas minhas decisôes para o meu futuro profissional, como médico.

Depois de terminar os meus estudos, trabalhei 4 anos como médico de ambulância e 4 anos como médico anestesista e serviços intensivos. Dois campos dos serviços de medicina onde sāo necessárias decisões rápidas e seguras.

Em 1985 pedi bolsa de estudo para poder tirar uma especialidade, mas nessa altura sem sucesso, as causas do porquê nāo sāo públicas, mas por iniciativa própria decidi tentar. E chegámos ao ano de 1986. Terminei os meus estudos com louvor, e mais uma vez deixei Budapeste…

Próxima estaçāo: Kecskemét!

 

Kecskemét, 4 de outubro de 2020

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