“Diário de Bordos” – Estreia amanhã no LMn a nova coluna do escritor e skipper Luís Serpa

por LMn

O Luso Magyar News passa a trazer aos seus leitores, a partir de amanhã (domingo), uma nova coluna literária “Diário de Bordos”, assinada pelo escritor Luís Serpa, com uma visão muito particular e exclusiva.

Aos 8 anos de idade, Luís Serpa rumou a Moçambique e foi lá que adquiriu as suas grandes paixões: a paixão pela prática de vela e pela literatura. Depois, partiu para percorrer mundo, mas o destino levou-o várias vezes a África. Muitas das histórias que por lá viveu estão agora reunidas no livro “Avenida da Liberdade, nº1”.

Mantém, desde 2003, um blogue – Donvivo.blogspot.com – cuja leitura tem as vantagens antagónicas de ser perfeitamente dispensável e às vezes agradável, ao que lhe dizem os leitores e não-dizem os não-leitores.

Prepara atualmente uma volta ao mundo no veleiro PANDA, um Two Tonner IOR de 43′ cujo refit está a supervisionar em Palma de Maiorca. Espera começá-la este Outono e terminá-la dentro de quatro ou cinco anos.

Gosta de três coisas: navegar, cozinhar e escrever, o que é uma sorte pois é exatamente isso que faz e fez, salvo breves interregnos, toda a sua vida adulta.

Seja bem-vindo Luís Serpa!

Cegonhas

Passei uma grande parte da minha vida a treinar cegonhas. Ensiná-las a voar mais alto, mais depressa e com maior capacidade de carga. Queria alugá-las a senhoras cujo desejo fosse ter gémeos. Para os treinos usava garrafas de champanhe trazidas não de Paris mas diretamente de Champagne, de Reims. A cada voo mais uma, em menos tempo. A coisa deu um resultadão: as últimas viagens já vinham com uma caixa de Magnum cada uma delas (já só tinha três. As outras quinze morreram, umas atropeladas por aviões outras abatidas por caçadores. Duas morreram de cirrose no fígado. Infelizmente não consegui vendê-los para foie gras. Os produtores sabem distinguir os fígados das cegonhas dos de patos e gansos).

O problema é que não encontrei futuras mamãs que acreditassem que os bebés vêm de Paris no bico de uma cegonha. Eu tinha previsto, forçoso é dizê-lo, a enorme vaga de gémeos que estava para vir. Não contei foi com o ceticismo das pessoas em relação a estas verdades do passado. A esmagadora maioria das futuras mamãs não acredita que os bebés vêm de Paris em bicos de cegonhas.

Peguei nas que sobreviveram e dei uma chaminé a cada uma. Assim podiam fazer os ninhos à vontade. Ficavam à frente do gabinete do ministro do Turismo, que as contratou para fazer fotografias dos ninhos e das crias quando as tivessem. Tornaram-se funcionárias públicas, com aqueles salários de assessor que todos nós conhecemos e ainda davam umas aulas de degustação de champanhes por fora. Ficaram ricas.

Eu fui trabalhar para um jardim zoológico. Comecei nas aves, claro, mas pedi para mudar mal eles (os manda-chuva) tiveram confiança em mim. Fui para os macacos. Fodido por fodido mais vale sê-lo pelos primos. Assim ao menos fica tudo em casa.

Ficava: agora estou reformado. As cegonhas que treinei chatearam-se da função pública e abriram uma empresa de entregas ao domicílio. Às vezes contratam-me para limpar os armazéns. Pagam-me diretamente, sem papéis nem IVA nem mais nada. Vai do bico para o bolso.

Agradecem-me muito, são muito gentis comigo, pagam-me na ponta da unha e ainda deixam uma boa gorjeta. Gosto muito delas. Qualquer dia morro.

 

Print Friendly, PDF & Email

Também poderá gostar de

O nosso website utiliza cookies para melhorar a sua experiência de navegação. Aceitar Ler Mais

Privacidade