Diálogos do Confinamento

por Luís Serpa

—  Combinamos uma coisa? Doravante, aos domingos, não vamos mais passear à beira-rio como os nossos amigos burgueses e ficamos em casa a foder tudo o que não fodemos durante a semana, tu porque estás farta dos teus pacientes, e eu porque sou um homem cansado, inquieto e ansioso. Queres? É altura de mudar de vida, anda para aí toda a gente a dizer.
— Nunca te vi sensível ao que «toda a gente» diz. Nem a mim me ouves, quanto mais a «toda a gente».
— Estás enganada. Sempre te ouvi. E mais: obedeci-te. Sempre te considerei a cabeça do casal.
— Nesse caso, sempre tiveste uma forma estranha de manifestar essa obediência. Não me faças rir, por favor.
— Depende do que se entende por «ouvir» e por «obedecer».
— …
— Ouvir-te faz-me ser mais eu. Sou o que sou, e muito do que sou devo-o a ti.
— Ou seja, sou a tua síndroma de Peer Gynt? Be thyself.
— Estás a brincar, mas a resposta é sim. Sou o que sou — posso ser o que sou — porque tu és tu.
— …
— …
— Cala-te e vamos para a cama.
— Hoje não é domingo.
— A tua capacidade de fingires que és parvo sempre me fascinou.
— A tua de pretenderes que não o sou também.
— Estamos casados há quinze anos. Reconheço que a nossa vida sexual nos últimos cinco anos não moveu montanhas. Mas nos primeiros dez fizemos amor para três vidas, não achas? Importas-te de me explicar o que te aconteceu?
— Não, não me importo.
— …
— …
— O teu laconismo é apreciável e há quinze anos que tenho o privilégio de usufruir dele. Ainda assim: importas-te de elaborar?
— Não, não me importo.
— …
— Estes dois meses fechado…
— Desculpa interromper. Não estiveste fechado. Saías duas vezes por dia.
— Sim, saía. Mas não para ir aonde queria e sim aonde podia…
— Continua.
— Pensei que me seria fácil. Estou habituado a estar fechado.
— Não estás, e além disso nunca gostaste de relações simbióticas, não é? Dois meses fechado comigo deram-te cabo da libido.
— Se tivessem «dado cabo», não te teria falado de sexo todos os domingos, como fiz há meia hora.
— Touchée.
— Quando estou fechado, é porque quero. Agora, não. Esta clausura foi-me imposta. Sair duas vezes por dia para ir aos supermercados não é sair. É simplesmente um prolongamento da prisão, como o pátio é para os presos. Tu trabalhavas, davas as tuas consultas por computador, nunca gostaste muito de bares e cafés. Muitos dos meus amigos da noite não sabiam sequer que sou casado.
— Nunca falaste muito, é verdade.
— A ti, que te faltou nestes dois meses? O cabeleireiro, a universidade, as tuas «amigas».
— As aspas nesse «amigas» são audíveis e desagradáveis.
— Desculpa. Como sabes, não me importo nada.
— Nunca te importaste com nada que me dissesse respeito.
— Só me importo com o que em ti me diz respeito.
— É um tema que prefiro evitar, se não te importas.
— Não me importo nada.
— Sabes porque te amo tanto passados estes anos todos?
— Não.
— Porque tu dizes coisas como «Só me importo com o que em ti me diz respeito», e eu sei que não é por te julgares o centro do mundo. É exactamente ao contrário: tu dás a toda a gente o espaço que reclamas para ti.
— Sabes porque te amo tanto?
— Porque sou «a única pessoa que te conhece como se te tivesse feito».
— …
— Não digas disparates. Continua com o confinamento, por favor. É um tema que me interessa mais.
— O que mais me põe fora de mim é ter-me enganado. Pensei que seria fácil, que isto passaria levemente como uns dias sem cervejas no bar. Não foi assim. Quem se revoltou nem fui eu sequer, foi o meu corpo. Somatizei como um adolescente: dores aqui, dores ali…
— Eu vi.
— A minha raiva deixou de ter um objectivo único. Bifurcou-se: eu de um lado, quem me impôs isto do outro. Odiava-me por não ter «aguentado» e odiava as «autoridades» por me terem confrontado com a minha incapacidade. Raivas múltiplas não são saudáveis.
— Eu que o diga.
— Tu estavas de fora, sempre estiveste.
— Como se estivesse fora da tua vida, não é?
— O único que pode dizer disparates aqui sou eu, lembras-te? Comprei o monopólio quando nos casámos.
— Quando nos casámos, disseste-me que estava a fazer o maior disparate da minha vida.
— Enganei-te?
— Não. Enganaste-te.
— Suporto mal a estupidez e ela suporta-me menos ainda. Não consigo disfarçar. Mal dei conta de que tudo isto não passava de um gigantesco embuste…
— … Mal deste conta de que tudo isto podia não passar de um gigantesco embuste…
— … Sim. Isso. Podia não passar de uma gigantesca mistificação. Aí, tudo mudou. Deixou de ser fácil.
— E as dores começaram.
— Sim. As dores começaram. Só viste a parte exterior delas. A parte visível, por assim dizer. As dores são como um barco na água. Têm um lado visível e outro que não se vê.
— A menos que alguém mergulhe.
— A menos que alguém mergulhe.
—…
— Não sei como teria sido sem ti.
— Teria sido como foi, mas sem mim.
— És modesta e injusta. Teria sido ainda pior.
— Duvido. Estamos casados há quinze anos e nunca te vi sofrer tanto.
— Curioso. Penso muitas vezes que nunca te vi tão próxima de mim como nestes dias.
— O distanciamento era social, não era afectivo. Há bocadinho, disse que te amo. Não sei há quanto tempo não to dizia. Não foi o pior erro da minha vida. Foi o melhor. O mais inesperado. Há muito tempo que não tenho «amigas». Sem ti, o sexo não vale a pena. Prefiro ter-te e não ter sexo. Prefiro ouvir-te e ver-te e falar-te a foder seja com quem for.

Mas se pudesse foder-te seria ainda melhor. Tem de ser só aos domingos?

Palma, 23-05-2020, Lisboa 31-10-2021

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