Debates em eleições? Na Hungria, não.

por Joel Lopes Egas

As eleições parlamentares húngaras estão marcadas para abril deste ano. Péter Márki-Zay, líder da oposição húngara, fez um pedido impensável: convidar Viktor Orbán para um debate televisivo. Orbán, que não tem um debate político desde 2006 (sim, desde 2006), recusou e disse que não falava com empregados de Gyurcsányi.

Em Portugal e – regra geral – nas democracias bem estabelecidas, o clima de pré-eleições é pautado pelos desfiles plurais, avultados cartazes e panfletos A5; debates políticos em horário nobre, com todos os principais candidatos de diferentes partidos, emitidos em vários canais, em vários jornais e escrutinados quer pela plateia que os ouve, quer pelos intermináveis comentadores políticos dos vários quadrantes.

E ainda bem que assim é. Na minha ótica, não há democracia saudável que não coabite com o confronto/debate direto de ideias, numa arena imparcial que permita ao demos (povo) fazer o seu devido discernimento. Poderão acusar-me de algum romantismo; e é certo que há debates que não têm substância alguma, onde os argumentos esgrimidos obedecem a inúmeras falácias (como sejam os argumentos ad hominem). Mas os debates são um pilar estruturante desde que podemos pronunciar a palavra democracia. E há debates memoráveis – desde os debates políticos ou filosóficos da Antiga Grécia, aos debates entre conservadores e radicais na Casa dos Comuns na Inglaterra do século XVII, passando pelo primeiro debate televisivo Kennedy vs Nixon nos anos 60; ou Mário Soares vs Álvaro cunhal em 75, que ajudaram a sedimentar os debates televisivos como condição sine qua non das democracias representativas.

Mas na Hungria isto não existe. Existe em contrapartida, uma espécie de guerra fria e de bullying intimidatório, em que o capataz esventra o adversário sem sair do seu território. Estas eleições opõem essencialmente dois candidatos. Orbán, líder do partido ultra-conservador Fidesz e Primeiro-Ministro há 12 anos vs Márki-Zay, cristão conservador e líder da oposição – uma gigantesca “geringonça” que une a direita conservadora, ecologistas, socialistas e liberais.

Cada um veicula a mensagem à sua maneira, sendo certo que o palco de transmissão de ideias, está imensuravelmente desequilibrado. Os media no país dos magiares, são uma espécie de “pasto” onde a carroça do governo anda a trote. A quatro meses das eleições o barulho da propaganda tornou-se ensurdecedor.

A televisão pública é assumidamente pró-governo. E não só não convida os membros da oposição, como também se debruça frequentemente num constrangedor culto ao líder do Fidesz. As rádios são do governo ou detidos por empresários amigos do governo, que constantemente troçam dos opositores políticos. Os jornais – o Index, o icónico jornal da oposição foi comprado por um amigo de Orbán e o Népszabadság fechou misteriosamente as portas em 2016.

A oposição defende se com o que pode. Usa o Facebook, Youtube e alguns jornais, como o telex, que estranhamente ainda não estão açaimados pelo governo. Talvez por se aperceber destes ângulos cegos, Márki- Zay convidou Orbán para um debate televisivo.

Orbán é um excelente orador, mas péssimo em debates. Em qualquer púlpito, o líder do Fidesz subleva as massas, com os seus discursos acutilantes. Mas nos debates, o pobre Viktor sempre se viu frágil, trapalhão e inseguro. Depois de 2006, onde foi derrotado pelo adversário político do MSZP, Gyurcsány, nunca mais teve um debate. Perante algumas acusações de cobardia, uma fonte oficial do fidesz, disse que Orbán não vai a debates porque “os debates são uma perda de tempo e apenas ajudam os que são da oposição – que são fracos e pequenos”.

Podemos afirmar, sem nos rirmos, que estamos perante uma democracia plena? Um Primeiro-Ministro que não tem um debate com a oposição desde 2006, e uma oposição que tem o direito a existir, desde que esteja estrangulada? Talvez estes sinais expliquem as sondagens mais renhidas de sempre. Na minha opinião não estou muito esperançoso com os dois lados da batalha. Se por um lado, temos o fidesz com tendências autocráticas, do outro lado temos uma oposição que aparenta ter mais pose que substância – uma oposição demasiado diversa ideologicamente para ter solidez de ideias. Certo é que os nossos amigos húngaros terão certamente aqui as mais importantes eleições desta década. Sem debates.

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