Debate, Guiné, Miscelânea

por Luís Serpa

A primeira indicação que me deram foi um italiano, uma pizzaria aparentemente muito boa. É verdade que a minha repulsa pelas pizze se atenuou bastante e até me acontece comer uma, quando o rei faz anos. Mas daí a ir jantar uma pizza logo na primeira noite em Bissau vai um passo de gigante. De maneira fui jantar ao restaurante D. Fernanda, encontrado via a habitual estratégia de perguntar a um local de uma classe social não muito elevada «aonde é que V. Leva a sua mulher a jantar, quando lhe quer oferecer um bom momento?» Normalmente funciona. Desta também, apesar de não acreditar que o senhor a quem fiz a pergunta – um empregado do bar do hotel onde finalmente consegui levantar dinheiro – já lá tivesse ido muitas vezes. Pelo menos, a julgar pelas outras mesas.

O restaurante é grande, circular, tem talvez umas dez mesas redondas elas também. Quando cheguei estava vazio, mas pouco depois entrou o inevitável casal «inter-racial» e, mais tarde, uma família claramente com massa, francófona (isto soube quando saíram. As mesas estão demasiado afastadas para se ouvir seja o que for). O menu é relativamente pobre, o serviço lento mas atencioso. O empregado encheu-se de cuidados para servir o vinho – um Gazela que a cinco ou seis euros me pareceu a melhor escolha da parca escolha que o D. Fernanda propõe. Gosto destes restaurantes africanos e ponho-me a comparar – como seria, no Burundi, no Zaire, em Moçambique? Pouco diferente. Haveria talvez mudanças na dimensão – no Burundi seria mais pequeno –, na pavimentação – este é em ladrilho – , e pouco mais.

África não é um país, mas há mais semelhanças de país para país do que há diferenças. Será? Não sei, não os conheço todos, longe disso. Vejo uma grande diferença, por exemplo: a segurança. Aqui, dizem-me e eu sinto, posso andar em segurança na rua tanto de dia como de noite. Em Bujumbura nem atravessar uma rua se podia. Em Kinshasa idem. De resto, tudo é igual: o pó vermelho-ocre que cobre a cidade de uma cor uniforme, os magotes de gente em todo o lado, o desperdício. Há ruínas e restos de automóveis, casas, barcos em todo o lado. É uma das consequências da «ajuda» ao desenvolvimento: tanto quem dá como quem recebe extrai mais benefícios da doação de um autocarro do que da sua manutenção. O resultado é isto: carcaças de autocarros, restos de embarcações, casas em ruínas por todo o lado. O senhor que está à frente do projecto que aqui me trouxe, político, familiar do governo diz-me que este está a preparar uma lei para obrigar as pessoas a acabar as casas, não as deixar a meio. Não respondo, mas penso que não é assim que se vai lá. Ninguém deixa uma casa a meio se tiver meio de a acabar. Não é com leis – muito menos absurdas – que se impõe a estética da classe dominante. É dando às outras a possibilidade de lhe aceder.

Mas da Guiné falarei no próximo capítulo, quando isto estiver mais visto. Hoje preferiria falar do debate – ainda só tive oportunidade de ouvir dois painéis, o que representa cinquenta por cento. É pouco, mas suficiente para poder dizer que os meus objectivos foram atingidos: pôr pessoas literatas, capazes de reflexão e de elaboração do pensamento a discutir assuntos complexos. Acabamos de passar pouco mais de um ano em que as emoções tomaram o controlo do debate público e social. É tempo de voltar a deixar entrar a racionalidade. O processo foi alucinante, os dias que antecederam o debate não foram dias, foram alucinações, mas agora tudo parece acalmar. A entropia faz o seu trabalho, a calma reinstala-se.

O que mais me surpreendeu neste debate foi um zé-ninguém como eu ter conseguido reunir um leque de gente como a que se juntou nesta sexta-feira. (O debate pode ser visto na página do Facebook da Oficina da Liberdade – 1ª parte: Facebook; 2ª parte: Facebook. Quando tiver tempo – e internet – tentarei pô-lo num canal do Youtube e no meu Don Vivo.) Bem sei que tive o respaldo da UAL e, mais tarde, da Oficina da Liberdade – a quem aqui deixo, uma vez mais, o meu agradecimento – mas o osso do trabalho estava feito. Não digo isto para «armalhar» (como se dizia em Moçambique), mas porque penso que o tema era necessário e se impôs de per si.

A minha vida sendo o hino à ironia que é, só consegui assistir a um painel, o último. Agora estamos sem rede (não sei se só no hotel, se em todo o bairro, ou toda a cidade) e terei de esperar para ouvir os outros dois.

II

Enquanto espero pela net, penso numa das coisas que mais me irrita em África: qualquer borra-botas europeu, por jovem e ignaro que seja, chega aqui e imagina-se um misto de Rockfeller com Einstein. Vi muitos assim: lembro-me perfeitamente do puto suíço acabadinho de sair da universidade a dar «lições» a um engenheiro zairense com idade para ser pai dele. Hoje, no meu passeio pela cidade, passei pelos inevitáveis sinais das organizações «não governamentais»: jeeps, sedes, miúdos de pouco mais de vinte anos a pavonear-se ao lado dos chauffeurs. Se os governos europeus quisessem realmente ajudar os países africanos, parariam com esta palhaçada toda. Não querem. A ajuda humanitária tornou-se uma ferramenta da política externa dos países «doadores» (termo do jargão politiquês). Basta verificar as contas das auto-proclamadas Organizações não-governamentais e ver qual a percentagem do seu orçamento que vem dos governos. O «Não-governamentais» é a expressão de um desejo, não da realidade. (Quando é um desejo. Nem sempre nem desejo é.)

 

Luís Serpa, Bissau, 30-05-2021

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