De Abu Dhabi a Goa, de Lisboa a Budapeste

por LMn

De Abu Dhabi a Goa, de Lisboa a Budapeste tive a sorte de poder ser uma pequena viajante por este mundo imenso, dado as oportunidades que me foram surgindo seja pela família seja pelo próprio destino.

Por Andrea Fernandes, pianista, Magyar Állami Operaház (Ópera de Budapeste)

Abu Dhabi – o lugar onde comecei a minha viagem com 1 ano de idade também foi onde comecei a minha vida de músico aos 5 anos. Sempre foi o desejo dos meus pais fazer com que eu tivesse alguma ligação, por mais pequena que fosse, com a música. Por essa razão fui apresentada a este belo instrumento antirracista cujas teclas pretas e brancas juntas falam a linguagem que todos percebem, soam melodias que derretem até a alma mais impenetrável, conseguem explicar emoções indescritíveis e preenchem-nos quando nos faltam palavras. Não podia ter tido mais sorte do que embarcar nesta viagem no mundo de música e escolhê-la como algo que identificará a minha vida uns anos mais tarde.

Comecei como qualquer outra criança com a curiosidade de conhecer um mundo diferente, um mundo mágico. Mas como tudo na vida por vezes a magia desaparece e cabe-nos a nós fazê-la renascer. Tive momentos complicados em que questionei a razão de seguir algo que, às vezes, parecia difícil e impensável de atingir – quando me deparava com uma passagem numa peça que era ‘demasiado complicada’, e aos meus olhos, impossível de tocar. Daí ressonavam as palavras do meu pai, palavras essas que até hoje ecoam na minha cabeça quando cruzo olhares com algo da mesma natureza: Se alguém conseguiu, tu conseguirás! Simples, mas definitivamente eficaz.

Após sete anos a aprender, estudar, realizar recitais e exames em Abu Dhabi, onde terminei o Performers Certificate diploma da Trinity College of London, decidimos regressar à nossa terra de origem no oriente, à Índia, mais concretamente à exótica terra de sol, praias e coqueiros – Goa! Continuei aqui o meu rumo musical com muitos mais desafios conquistados na bagagem.

Ingressei na Kala Academy e estudei o meu instrumento preferido com uma pessoa que tenho orgulho de chamar professora – Margarida Miranda, pois foi alguém que me fez entender o sentido da palavra ‘professora’ – ensinou-me com amor e carinho e acima de tudo com muita paciência. Não só me explicou como fazer ou tocar uma passagem difícil, como demonstrou como o fazer e o seu talento musical deixou-me sempre admirada. Além de ser professora, foi uma pessoa que acreditou em mim, e sempre soube que podia ir mais além do que eu imaginava possível.

Após 5 anos na Kala Academy e duas vitórias em Concursos de Piano em Goa, decidimos – a minha família, a minha professora e eu – esboçar o capítulo três do livro da minha vida artística: seguir por caminhos desconhecidos para mim, conhecer sítios novos, pessoas novas e acima de tudo aperfeiçoar aquilo que para mim tornou se num sonho.

Segui para a cidade calorosa e apaixonante de Lisboa com a ajuda da minha professora que me ajudou a integrar no novo ambiente, que nessa altura era para mim uma cultura totalmente diferente e com 17 anos de idade tanto era uma aventura entusiasmante como assustadora. Estar num país, cuja língua não conhecia e sem amigos, os meus tios foram as pessoas que tornaram este percurso inicial mais suave e acolhedor. Primos do meu pai, eles foram a razão pela qual os meus pais conseguiram dar tamanho passo em largar mãos de mim nessa fase de adolescência. Tinham plena confiança neles e hoje vejo porquê – o meu tio e o meu pai eram muito semelhantes no que diz respeito à disciplina, à organização, ao trabalho – daí não haver a mínima dúvida de me deixar nas suas mãos . Ambos, agora falecidos, ainda hoje guiam os meus passos. Que descansem em paz.

Nesse contexto não posso deixar de mencionar a importância da minha tia no papel da minha formação – sempre foi uma pessoa com muita garra para trabalhar e isso foi a minha motivação quando os caminhos se tornavam mais atribulados.

O Conservatório Nacional de Lisboa foi aquela instituição que se tornou na minha segunda casa, pois era onde passava maior parte do meu tempo e onde criei amizades fundamentais para ganhar a minha estabilidade emocional nessa capital europeia. Foi aqui que terminei o curso de piano solo com a Ana Souza Lima, e a Ana Valente. Da escola francesa à escola russa, consegui abranger estilos musicais e rigorosidade técnica que conseguiram preencher ainda mais o meu conhecimento musical. Do Conservatório segui para a Escola Superior de Música em 2011 para continuar o aperfeiçoamento em piano a solo onde terminei a Licenciatura com o Prof. Jorge Moyano.

2011 foi um ano decisivo para mim. O piano sempre foi o meu instrumento predileto, mas restava saber o ramo que queria seguir – piano a solo ou o ramo de acompanhamento. Não demorei muito a perceber, pois já acompanhava colegas meus em exames, aulas, concertos e foi uma sensação um tanto de poder desfrutar da música em si e de tirar prazer em cada nota que tocasse enquanto fazia música com outros músicos maravilhosos. Entretanto ganhei o estatuto de professora acompanhadora na mesma escola onde fui aluna. Também acompanhei ao piano no Conservatório de Sintra e no Instituto Piaget.

Contudo sempre senti que ainda precisava de aperfeiçoar aquilo que queria seguir – o acompanhamento. Decidi então procurar a minha próxima paragem uma vez que na altura ainda não existia o curso de acompanhamento em Portugal. A primeira página que apareceu no meu motor de busca foi LFZE, que à primeira vista não consegui decifrar, mas ao entrar e descodificar o acrónimo apercebi-me da reputação da escola que estava à minha frente. Com a ajuda de uma pessoa muito simpática na administração da ‘Liszt Ferenc Zeneművészeti Egyetem’ que traduziu tudo daquela língua que todos nós achamos surreal – o húngaro – para o inglês, consegui então dar o primeiro passo para o que viria a ser o próximo capítulo da minha vida.

Decidi arriscar, deixando tudo para trás – 8 anos da minha vida que para mim, até hoje, continuam a ser os anos mais importantes, educativos, desafiantes e atribuladores da minha vida. Importantes porque foram os anos que me deram a minha independência em muitos aspetos da vida. Anos educativos porque vim estudar para uma escola onde as pessoas estavam loucamente apaixonadas por aquilo que faziam, e tudo o resto girava à volta disso – a música – o que me tornou ainda mais fascinada pela beleza que é a música. Anos desafiantes porque lutei várias vezes contra a vontade de querer voltar para Goa, não por não gostava de estar em Lisboa mas pela falta de poder estar com a minha mãe, o meu pai e o meu irmão que ainda era um menino pequeno de apenas 6 anos quando segui o meu caminho. Anos atribuladores porque foi o período durante o qual perdi a pessoa que me era mais próxima, que era o meu pilar e quem me seguia religiosamente na música a cada passo que dava e entre tantas outras coisas entendia bem os dilemas que passava sempre que iniciava uma peça nova ou tinha que ultrapassar uma passagem musical mais difícil – o meu querido pai. Com o apoio incondicional da minha mãe decidi então seguir em frente numa nova aventura em outro país com novas oportunidades, porque sabia que esses 8 anos tinham sido valiosos e ofereceram-me ensinamentos dourados de vida, e sabia que poderia aplicar esses ensinamentos na próxima etapa que levasse, sabendo também que a vida ainda teria muito a ensinar.

Cheguei então a esta cidade maravilhosa de Budapeste e desde esse dia 20 de Agosto de 2011, nunca me arrependi da decisão que tomei. Como já tinha passado por uma situação de adaptação parecida em Lisboa, foi muito mais fácil integrar me socialmente nesta cidade metropolitana cheia de estudantes de todas as partes do mundo. Rapidamente fiz amizades e após uma prova de entrada muito rigorosa, mas bem-sucedida, comecei as aulas de Mestrado em Acompanhamento com uma bolsa do estado Húngaro com o Harazdy Miklós e Medveczky Ádám. Foi uma experiência totalmente diferente da que imaginava. Foi difícil sim, mas adorei cada passo e cada novo descobrimento. Tive de acompanhar outros instrumentistas e ensinar cantores, tocar óperas e tocar em música de câmara. Tive de aprender composição e técnicas básicas de direção. Não acham isso tudo cativante? Para mim era isso e muito mais. Fez me perceber que em cada um de nós temos bem mais potencial do que imaginamos. Quando mergulhamos de pés e cabeça já não há volta a dar a não ser sair vitorioso.

Após a finalização do curso, como o destino terá esboçado, concorri para o único lugar em 2013 como repetiteur/vocal coach na Magyar Állami Operaház (Ópera de Budapeste) e fui aceite começando então a linda viagem no mundo do teatro em Outubro de 2013. Tarefas desafiantes eram agora o pão nosso de cada dia, entre estudar o papel vocal inteiro de uma personagem e estudar a redução para piano de óperas inteiras ao longo de um fim-de-semana.

 

Momentos de stress e desafios por vezes me levavam a pensar que não era possível, mas a frase do meu pai que sempre me acompanhou fez me passar por esses obstáculos com mais clareza. Ao longo do meu primeiro ano na Opera já tinha aprendido mais de 10 operas, algo que talvez um ano atrás era inconcebível.

Durante o meu percurso na ópera tive a sorte de conhecer outros músicos tanto na opera como nas outras orquestras onde fui convidada a tocar. Uma dessas pessoas foi a violoncelista Kamila Słodkowska-Mohai que iniciou uma simples conversa comigo e perguntou se não estaria interessada em formar um grupo de música de câmara. Deliciei-me com a ideia, pois era algo que já não fazia seriamente há algum tempo e disse-lhe que só faltava encontrar um violinista, mas que já tinha alguém em mente. Contactei Erzsébet Hutás que era minha colega na opera e acabamos por formar, em 2016, o nosso trio “Vena piano Trio”. Desde então realizamos inúmeros concertos na Hungria, e também tivemos a oportunidade de atuar em Portugal no festival Terra sem Sombras e em Espanha.

De momento estou numa pequena (grande) licença sabática de 2 anos, desde que nasceu o nosso pequeno príncipe em 2018, mas a música nunca deixou de ser um bom companheiro ao longo deste tempo. O Tiago adora bater as teclas no piano da mãe como as teclas do teclado do pai. Ele escolherá a seu tempo qual o teclado que mais prefere – o de músico ou o de engenheiro.

Para resumir o meu grande texto, a minha viagem musical tem sido uma montanha russa de experiências nem sempre fáceis, mas sempre valiosas. Afinal das contas, o que será a nossa vida sem esses momentos de desafiar nos nossos limites, ir aos nossos extremos e sair vitorioso?

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