Contos que acabam mal (Géza Csáth)

por Arnaldo Rivotti

Primeiro Conto

 

O pequeno aluno estudava zelosamente. Tinha revisto todos os verbos irregulares e a conjugação, percorrera a sintaxe. Dera particular atenção ao capítulo sobre sotaque sintático por ainda não o dominar com distinção, mas apenas ao nível do “bom”. Fechava então um livro e recomeçava outro.

Ao retomar o seu estudo diligente, ouviu uns passos muito suaves nas suas costas. Olhou para trás. Uma bela rapariga loira passava e o aluno – que não era assim tão pequeno que não pudesse julgar a beleza de uma rapariga – olhou para ela e disse para si próprio:

– Mas que bela rapariga!

Regressou ao estudo, porque no dia seguinte o professor iria fazer um grande questionário programado, daí se ter desinteressado pela rapariga loira.

Leu outro livro até ao fim e assim que começou a estudar o terceiro, viu novamente a rapariga loira. A estranha escapulira-se da sala e as suas mãos estavam cheias de objetos roubados. Surripiara o pequeno rifle do rapaz, o relógio – o seu tesouro mais precioso – os soldadinhos de chumbo e muitas outras coisas de valor. O rapaz sentia um apelo muito forte ao rifle, ao relógio e aos soldados de chumbo, daí não os entregar de ânimo leve fosse a quem fosse. Foi atrás da rapariga que descia as escadas a correr. Agarrando-a, gritou:

– Ladra, ladra!

A rapariga olhou para ele com os seus belos olhos azuis e nesse momento o sangue gelou nas veias do rapaz.

A rapariga sorriu:

– “Eu sou a morte”, disse ela, “temos de ir”. E nisto pegou no rapaz pela mão.

 

Segundo Conto

 

Chamavam-lhe József. Tornou-se adulto e não encontrara a esposa de Potifar. Deu em misógino. Constato, que József não vivia em Budapeste. É minha profunda convicção de que Budapeste teria salvo József da misoginia. Königsberg, no entanto, não conseguiu salvá-lo. Porque ele vivia em Königsberg.

Os homens com o nome József – eis a imperfeição humana! – não se podem suportar ou imaginar a si próprios como amigos da mulher de Potifar. Assim, József tornou-se misógino. Proclamou o desprezo pelas senhoras, das suas mesquinhezes criou teorias recolhidas em grandes lotes de manuscritos. No entanto, quando via uma bela donzela, quase se derretia. As raparigas não se apressavam por ele porque József, sem culpa sua, começou a ficar careca e de modo algum podia ser considerado um bom partido. Ele era um József!

No entanto, um dia atirou os manuscritos para a fogueira, mandou passar a cartola e o fraque vermelho, penteou o cabelo e saiu para o engate. Tinha cinquenta e dois anos de idade. Vivia noutro mundo. Já ninguém se vestia à Cléo de Mérode, nem mesmo as senhoras de idade, e até o espartilho francês tinha saído de moda. (Digo isto apenas para caracterizar a época.) Uma coisa, porém, permaneceu como estava porque a mãe da rapariga falou assim:

– Senhor, você é demasiado velho, a minha filha não pode casar consigo!

József regressou a casa, tirou o redingote, retirou os restos queimados dos manuscritos da lareira e pegou na caneta. Mergulhou o aparo no tinteiro e, com letras bem grandes, escreveu num papel:

“Os Pecados do Género Feminino”. Escrito e Editado: József.

Depois, à noite, escreveu até tarde.

 

Terceiro Conto

 

O pequeno médico, depois de passar com distinção no exame de medicina, começou a pensar seriamente em casar-se. Por que começara ele a pensar nisso? – perguntaria qualquer pessoa sensata. Oh, sim, porque ele amava uma jovem, sim, uma que tinha ombros regulares, redondos, costas musculadas (apenas com um pouco de gordura se afigurava anatomicamente muito jeitosa), cabelos pretos e até mesmo olhos pretos, e assim por diante.

Um dia finalmente trocaram alianças.

Foi então que a rapariga lhe picou mão. O pequeno médico usou um lenço para enxugar a gota de sangue que havia deslizado da ponta do seu lindo e rosado dedo mindinho, beijando depois o que sobrara. Mas isso nada tem a ver com a questão.

O importante é que no dia seguinte o pequeno médico notou que havia sangue no seu lenço. Teve uma ideia. Foi buscar o microscópio. Limpou as lentes de aumento, soprou no tubo amarelo brilhante, ajustou os parafusos. Depois cortou a mancha de sangue e colocou-a num minúsculo frasco de vidro. Em seguida, despejou nela pequenas garrafas misteriosas, com estranhas – eu diria arrepiantes – inscrições, C H O – NaOH – C H N S -. Era assim que o pequeno médico trabalhava. Transferia volumes das pipetas, mergulhava e enxugava incansavelmente, espreitava pelo tubo do microscópio. Depois começava novamente. Murmurava, transpirava. Finalmente olhou para a sua frente com olhos salientes. Já era de manhã, quando deu por si, a matutar ao lado do misterioso engenho de ampliar. Finalmente decidiu-se, que não fazia sentido todo aquele esforço.

Retirou a aliança do dedo, colocou-a num envelope, chamou um estafeta e mandou-a de volta.

 

Quarto Conto

 

Ali, onde uma névoa azul se senta nas margens do mar – azul porque o pó da terra nunca mancha esta neblina: junto à margem de falésias aguçadas – havia um belo rapaz louro. Tinha ombros poderosos, rosto branco leitoso sereno, e cabelo dourado. Apenas os olhos eram de negro ardente. Tudo isso, na terra da névoa azul, era muito inusual. No entanto, era estranho de toda a maneira.

Este belo rapaz, quando uma vez se encontrava na margem, olhando para o mar sem fim e para o sol poente, cujos raios vermelhos transformavam a névoa azul em violeta, avistou subitamente algo curioso. A cabeça de uma rapariga, lá longe, no mar. Era uma cabeça tentadora e bela. Brilhando e balançando, nadava de e para as ondas de reflexos irisados. Sorria e o brilho dos seus olhos atingiu o coração do rapaz. O rapaz loiro estremeceu, e impensadamente, começou a despir-se. Tirou as roupas. Esticou-se um par de vezes, e sentindo os feixes de músculos volúveis e ousados das suas espaldas e varilhas, atirou-se para a água com um belo mergulho de cabeça.

– “Vou chegar à rapariga em cinco minutos”, disse a si próprio quando emergiu da água fria e começou a nadar, com o coração a palpitar, e os tendões a guinar. Cortava as ondas carmesim com golpes tremendos. Durante todo o tempo continuava a olhar para a cabeça.

Não tardou muito teve de mudar o nado para o braço esquerdo. Por isso, começou a ficar um pouco irritado.

– “O que é isso”, disse a si próprio, “consigo nadar até uma hora na mesma posição”.

Realmente, tinha estado a nadar durante uma hora. Mas a cabeça da rapariga estava tão distante como antes. Nadou para longe, acarreando, sorrindo, balançando. O rapaz olhava para ela, continuando a nadar com os nervos tensos.

A noite tinha caído, e uma escuridão cega invadia o mar, porém ainda podia ver a cabeça da rapariga, e, reunindo as suas forças, nadava desesperadamente.

Passou a noite inteira num nado terrivelmente cansativo.

– “Tenho de chegar lá, mesmo que me custe a vida”, dizia repetidamente o rapaz, encorajando-se a si próprio.

Esperava apenas pelo amanhecer, por um rumo seguro. Sentia uma fadiga mortal ao cortar as ondas, quando amanheceu. Enquanto o primeiro raio deslizava sobre o espelho do mar, os seus olhos procuravam ansiosamente a cabeça da rapariga.

E a cabeça da rapariga não se encontrava em lado nenhum.

Procurava-a na costa, mas não conseguia sequer vê-la: não havia nada a não ser água a toda a volta. Água verde furiosa.

O rapaz balbuciou cinicamente:

– Essa escapou-me. Não conseguirei alcançá-la, e lamento pela minha vida!

E deitou-se de costas.

 

Quinto Conto

 

O bisavô era velho, muito velho, mas ainda ficava muito feliz quando chegava a Primavera. E várias vezes ao dia caminhava pelo jardim com alegria infantil, coxeando e apoiando-se na sua bengala curva. Acariciava os arbustos, cujos botões crepitavam, e olhava penosamente para as árvores velhas, cujos troncos irregulares eram as forças da vida, conduzindo, a humidade farta e fresca da terra para cima, em direção aos ramos. De debaixo do seu chapéu cinzento de abas largas sorria como se dissesse exatamente isso:

– Sim, vida, vida, está tudo muito bem, se dormirmos bem e tivermos muitos netos simpáticos.

Não pensava na morte, pois divertia-se muito. Vivia tanto na natureza revivificadora que nem sequer conseguia pensar na morte. De manhã, quando terminava o café, lia o jornal da província, colocava calma e lentamente o seu chapéu de jardineiro e ia maravilhar-se.

Era o primeiro de maio; a flor preferida do bisavô, a peónia vermelho-sangue, tinha produzido a sua primeira floração. No mesmo dia, o avô teve um bisneto. Admirou carinhosamente a flor durante muito tempo.

– ‘Vou arrancá-la’, murmurou ele, ‘e levá-la a Margitka; verei a pequena mãe, e verei o meu bisneto.

Tirou o seu canivete e cortou cuidadosamente o talo da rosa. Tinha cortado metade do caule quando sentiu que estava a fazer algo de muito perverso. Beijou a flor, tapou o caule, e amarrou-o com uma tira de um trapo limpo. Durante todo o dia sentiu remorsos pelo que tinha feito. Pois já tinha cortado uma flor antes, mas isto pareceu-lhe uma coisa impossível e perversa de fazer. De manhã, apressou-se a ver a pobre florzinha com o coração perturbado. Por vezes, quase suplicava em voz alta:

– Não te zangues com ele; foi apenas uma coincidência: como é que um velho hediondo poderia pensar em matar alguém.

No entanto, a rosa não se tinha curado. Todos os seus cuidados e fadiga tinham sido em vão.

Certa manhã, as pétalas desfizeram-se dos caules amarelos e enfermos. E o mesmo aconteceu com as folhas.

Não há nada de maravilhoso nisso. Também não há nada de maravilhoso no facto de na primavera seguinte o bisavô já estar a descansar debaixo da terra.

Trad. Arnaldo Rivotti

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