Conto de Madrugada – Csáth Géza (Traduzido do húngaro por Felkai Piroska)

por Pál Ferenc

Esta semana podem ler e ouvir no LusoMagyarnews uma entrevista gravada com a Dra. Felkai Piroska, que após terminar seus estudos doutorais na Universidade Eötvös Loránd de Budapeste, está a viver em Lisboa há vários anos. Atualmente é uma das tradutoras e divulgadoras da literatura húngara em Portugal. Entre vários autores húngaros, traduziu contos de Csáth Géza, que podem ler nesta entrega de literatura desta semana.

Csáth Géza, originalmente chamado  Brenner József (1887 — 1919 ), escritor húngaro, médico, psiquiatra, psicanalista, crítico musical, compositor.

Em suas narrativas curiosas, que evocam o ambiente artístico um pouco doentio e mórbido  da viragem do século, no início da sua carreira de escritor  sente-se  a influência dos escritores “diabólicos” franceses; mais tarde estes contos refletem  os resultados da psicologia moderna. Sua imaginação foi estimulada pelo mundo grotesco e conturbado de pessoas com doenças nervosas;  nas suas obras a abordagem científica moderna aparece combinada com a descrição de arrepios irracionais em seus escritos; sua extrema sensibilidade foi associada a uma visão psicológica. O seu primo, Dezső Kosztolányi, também escritor renomado da primeira metade do século XX,  escreveu sobre ele:

Dr.  Csáth Géza. Um psiquiatra que sabe que não há milagres e coincidências em nossa vida espiritual, os eventos de nossa alma são tão fatais quanto o funcionamento do nosso coração, rins, fígado e raiva, a resposta nervosa de nossa ambição pode ser projetada no lençol branco em curvas regulares.

Ele mapeou novas paisagens da alma humana e, com suas melhores narrativas e escritos contundentes e sugestivos, é um dos inovadores da prosa húngara da viragem do século.

 

CONTO DE MADRUGADA (Csáth Géza)

 

Eu ouvi a história que se segue do Lukács, que é o funcionário de uma empresa e também é um noctívago. Não gosto muito destes boémios. Eles estão sempre preocupados com os pormenores, não se cansam de complicar e depois de contam-nos a nós, pessoas do seu dia-a-dia, os seus problemas anímicos bastante simples. Lukács, quando estávamos juntos num café, só depois de olhar para o seu copo de cognac durante três quartos horas, se dispôs a começar a falar.

— Numa das minhas noites más, inquietas e amarguradas — Lukács começou a falar bastante devagar — fugi de casa. Entrei em vários cafés e a chuva obrigou-me a ir a uma casa de meninas. Elas estavam com sono e cheiravam a fumo. Lá dentro, deitei-me num sofá de veludo, fechei os olhos e senti que aquela virgem inconquistável e enganadora que nunca consegui apanhar – o Sonho – punha a minha cabeça no seu seio. As meninas pareciam saber que, nesse momento, eu não precisava de outra coisa, que não fosse o abraço apaixonado “dele”, e nem olharam para mim. Depois chegou o raio cinzento prateado da madrugada e entrou no quarto quente demasiado quente, embriagado por perfumes pesados. Os candeeiros cansados, apenas bruxuleavam. No canto oposto do quarto, um homem meio-bêbado confessava-se à Mici, a rapariga alta, com cabelos pretos e com cara inteligente.

— Minha menina, sabes como é? Tu dizes que gostas do teu pai e todas as manhãs, antes de deitares a cabeça atordoada de sonhos na tua almofada, rezas por ele. Vês, eu não tenho esse prazer. Odeio o meu pai, apesar de ele já ter morrido. Estás a abanar a cabeça pensando que não pode ser. Pois, pode ser. Quem saberá porquê? Então, ouve, minha espertinha! O que faço agora, comigo, é a mesma coisa que vocês fazem na noite de Natal, quando se lançam nos braços das outras e choram à vontade. Mas vocês logo a seguir ficam aliviadas, o que não acontece comigo. O meu destino é que, em algumas manhãs sonolentas, depois de uma noite bem carregada, queixo-me a uma menina cansada, mas boazinha que depois de ter ouvido tudo me dá um beijo na testa, ao meio, mesmo ao meio. A seguir ela acaricia, com lágrimas nos olhos, a minha cabeça careca dizendo: Coitado de ti, meu amigo!

O narrador riu-se alto, mas com uma amargura na sua voz e continuou:

— Faz isso, tu também, Mici, por favor, mas só no fim. Então, olha, minha filha, eu odeava o meu pai porque era um dos seus filhos gémeos. O meu irmão e eu éramos tão parecidos que isso já era quase insuportável. Entendes, era simplesmente era nojento! O meu pai, um homem sanguíneo e egoísta, só gostava do Pista! Adorava-o com aquele tipo de amor de macaco, com que estas pessoas de feitio colérico começam a amar quem lhes agrada instintivamente. Não me ligava. Eu, Béla, não era ninguém para ele. Ainda era criança cortava-se-me o coração por entender que havia muitas injustiças neste mundo. Ó Mici, tantas coisas estúpidas, não achas? Mas eu sofria imenso quando via que o meu pai, depois dos almoços, punha Pista no seu colo e dava-lhe beijinhos. A nossa mãe tinha morrido durante o parto e assim não havia mais ninguém que me pusesse ao colo. Era a irmã solteirona do meu pai que tomava conta da casa, mas ela não gostava absolutamente de ninguém, a não ser do seu umbigo. Passava todo o tempo a beber café. Em resumo, não havia ninguém que me pusesse ao colo. Assim ficava furioso com Pista, apesar de ele ser um bom irmão. Uma vez, ele disse-me o seguinte:

— Ó Béla, não fiques zangado comigo, por o pai gostar mais de mim do que de ti. A culpa não é minha!

Estávamos ali, duas criancinhas pequenas olhando uma para a outra. Éramos iguais. Assuntos sérios passaram um atrás do outro nas nossas cabecitas. Eu disse a Pista: Desaparece, Pista! E fugi dele. O nosso pai nessa altura viajava muito. A produção da nossa quinta dava muito dinheiro. Iam decorrer seis meses até tornarmos a ver o nosso pai. Acho que gostava bastante de raparigas bonitas. Ele era um homem com cara corada e pescoço curto: era bonito. Ó Mici, espero que não aches estranho tudo isto! Mas o que já é estranho é que, quando uma vez o nosso pai voltou para casa, já Pista estava enterrado no cemitério. Picou-se com qualquer coisa no jardim e quando a nossa tia chamou o médico, já era tarde. Ele não chegou a tempo por uma razão simples, porque nós vivíamos numa quinta que ficava a meia légua da cidade.

Antes de ir esperar o nosso pai – que foi avisado por um telegrama mandado pela tia e que só conseguiu chegar ao terçeiro dia depois do funeral, porque se encontrava na Espanha – então, antes de ir à estação de comboios, a tia levou-me ao seu quarto, deu-me muitos rebuçados, acariciou-me e, com muita dificuldade, acabou por me dizer o que queria.

Ela queria que a partir daí, eu fosse Pista, dado que ninguém nos conseguia distinguir. Entendes Mici, o que estou a dizer? A tia escreveu no telegrama que Béla tinha morrido, ou seja, era eu que estava morto. Sobre o caixão também escreveram o meu nome. A minha tia estava muito preocupada com o meu pai, pensava que ele podia ter um ataque se soubesse que era o seu preferido Pista que tinha morrido.

O pai chegou, deu-me imensos abraços e beijinhos. Eu sabia que o seu amor não era a mim que se dirigia, mas mesmo assim gostei e fiquei contente. Depois comecei a observar o meu pai. Não sentia nenhuma dor por eu ter morrido. Via-se bem que estava contente com a sorte por não ter sido o preferido Pista que tinha morrido.

— Ó Mici, minha filha, tu és uma rapariga esperta. Diz-me sinceramente. Não achas que alquém pode perder a vontade de viver, se a sua vida começar assim, como a minha começou? E eu sabia muito bem que Béla tinha sido enterrado, mas isso não era uma grande tristeza para mim; se calhar, ainda bem que era assim, porque Pista estava vivo. E, apesar de tudo, eu desempenhava muito bem o meu papel até ao fim. Quando o pai estava em casa, eu tentava agradar-lhe. Numa vez, em que ele já estava um bocadinho bêbado, como eu estou agora, chegou a casa de manhã. Eu estava a brincar com a terra no jardim. Agarrou-me, deu-me beijinhos e falou assim:

–  Coitado, Pista, não tens companhia, porque Béla morreu, deixou-te aqui sozinho. Coitado, meu filho, mas não entristeças por causa disso; assim a toda quinta da família Tolcsvay vai ficar para ti, malandrinho. A quinta inteira vai ser a tua, só tua! …

Ele disse isto.

— Não vais então ficar surpreendida, querida, por a quinta não me contentar nada. Também não te surpreendas, Mici, por eu não ter deixado cair nenhuma lágrima no funeral do meu pai. E, agora, dá-me um beijo aqui na minha testa e diz: meu caro irmão, tenho muita pena de ti!

Mici fez o que ele pediu. O narrador, embriagado e sonolento, soluçou, rezingando entre lágrimas. Apagaram as luzes.

Mici estava a consolar o protagonista deste conto triste.

— Eia! Não te ponhas em desespero! Dorme bem, até porque estás bêbado. Deita-te assim…

Passando alguns minutos o trabalho dela foi coroado de êxito. O seu homem adormeceu.

— E eu também adormeci — disse Lukács presunçosamente.

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