Como nascem os debates

por Luís Serpa

Em Março de 2020 estava em Lisboa. Sabia que os confinamentos, as «medidas», as restrições estavam para muito breve e vim para Palma a correr. Tinha de mudar de casa e queria fazê-lo antes de essas normas aparecerem e – sobretudo – de ser impedido de viajar. Tive tanta pontaria que mudei na véspera do dia em que começaram. As duas casas eram perto uma da outra, tinha relativamente poucos objectos a mudar (isto é uma piada privada – passei quase nove anos da minha vida a viajar permanentemente com dezassete quilos e para mim tudo o que seja acima disso é excesso de peso) e em quatro ou cinco viagens a pé tinha a mudança feita. Ao contrário do que pensara, não podia ir trabalhar para bordo. Mas havia uma alternativa, bastante interessante, que podia fazer em casa.

Deixava um quarto num apartamento partilhado com um indivíduo que já conhecia e e com quem as coisas não estavam a correr muito bem para ir para outro, pequeno, lindo, só para mim, a trinta metros de uma das praças mais bonitas de Palma. A casa era bonita, bem equipada, eu estava optimista como estou em todos os começos, tinha um trabalho apaixonante a fazer – preparar uma volta ao mundo -, estava convencido de que aquilo ia durar dois ou três meses no mínimo (e no máximo) e dizia-me que ia ser como estar num barco a fazer uma travessia um bocadinho maior do que as outras.

Não foi. Ao fim de duas semanas estava desesperado. Só podia sair de casa para ir ao supermercado – duas vezes por dia, a um de manhã ao outro à tarde para ver caras e pessoas diferentes. O interesse pelo trabalho foi decaindo (consegui chegar à Patagónia, mas as últimas milhas foram arrancadas a ferros), o meu estado psicológico foi-se deteriorando. À minha volta – física e virtual – só via pessoas que concordavam com as «medidas» (aspas porque cito); tudo me parecia uma histeria colectiva – os números de «casos» (ditto), de mortes, disto e daquilo. O mundo, de repente, deixou de girar à volta do eixo que liga o Pólo Norte ao Pólo Sul e começou a girar em torno de um eixo que ia da Covid à Covid. Comecei a comprar jornais – três por dia – mas as notícias eram todas iguais, os números todos os mesmos, as opiniões só variavam no nome do autor. Em finais de Março – mudara de casa no dia 14 – comecei a duvidar de que aquilo fosse durar realmente só dois ou três meses. Para não endoidecer, resolvi pesquisar dados sobre a Covid-19, ler opiniões dissidentes, confirmar as opiniões a favor. Durante umas semanas compilei uma tabela com o número de mortes numa dúzia de países, pondo-o em confronto com a população. As percentagens eram baixíssimas, claro (ainda são, por muito que tenham aumentado.) Até que um dia descobri um jovem português chamado André Dias. Descobri-o através de Henrique Pereira dos Santos, a pessoa que há muitos anos me ajudara finalmente a compreender o fenómeno dos fogos. Não sou nem um intelectual nem um cientista, mas não acredito em explicações emocionais, ou ideológicas, ou «oficiais», ou popularuchas para os diferentes acontecimentos. Na altura em que comecei a ler Henrique Pereira dos Santos a tese em voga era a dos incendiários. Nunca acreditei muito nela e as explicações que o arquitecto paisagista dava eram claras, límpidas, lógicas, falsificáveis (?) e – sobretudo – davam azo a que se fizessem previsões. As quais, alguns anos depois, se confirmaram. Com a Covid aconteceu o mesmo: André Dias e Henrique Pereira dos Santos davam explicações racionais, sustentavam as suas teses com números e gráficos. Lembro-me de que André Dias previu para a semana dezanove o começo do fim das «infecções» e isso ocorreu na semana vinte ou vinte e um. Ele enganara-se por duas ou três semanas, mas os histéricos (para mim, agora, já sem dúvidas: eram histéricos) tinham-se enganado por infinitamente mais.

Convencido de que estávamos a viver uma histeria colectiva – a primeira histeria colectiva global da História – comecei a investigar esse tema. A primeira coisa que me surpreendeu foi a quantidade de estudos que há sobre elas. São fenómenos bem estudados, relativamente conhecidos – pelo menos nos universos anglófonos e francófonos. Em português não recordo se encontrei algo. A segunda coisa surpreendente que saiu dessa investigação foi a semelhança dos episódios anteriores de histerias colectivas com a que estávamos a viver. Tirando a escala, as similitudes eram bastantes. Mesmo o papel da comunicação social na crise actual – para mim, o princípio do princípio – tinha tido o seu equivalente nos diferentes episódios repertoriados, que iam da Idade Média aos primeiros anos do século XX.

A histeria, o pânico, o medo são contagiosos. Há mecanismos darwinianos que explicam a vantagem selectiva da colectivização do medo. Já para o pânico e para a histeria esses mecanismos são mais difíceis de encontrar, mas a verdade é que muitas espécies têm comportamentos de pânico e provavelmente de histeria ou daquilo que num animal irracional a substitui. Alguma razão evolutiva deve haver. A disseminação da histeria covidiana na espécie humana foi fácil como um incêndio numa pradaria num dia de vento – esse vento sendo, agora, a comunicação social.

Sou um apaixonado pelo jornalismo. É uma profissão que sempre vi com uma certa admiração. A ideia de que a comunicação social era o «quarto poder» e se destinava a escrutinar o que se passava nos outros três entusiasma o anarquista que desde sempre trago em mim. Fui-me paulatinamente afastando dela – ou melhor, esse gosto foi-se pouco a pouco desfazendo – quando começou uma deriva na comunicação social. Tal como a via, essa deriva tinha duas componentes: uma, de modelo de negócio. Passou de ser vender informação para vender emoções; a segunda, de agenda: a comunicação social, de repente – ou não tão de repente – começou a deixar de ter o dever de informar para se impor o de formar. O anarquista racional que sou reagiu como reage à maioria das coisas que o desgostam: afastando-se. Deixei de ver televisão há trinta anos – quanto a mim, a causa da deriva do modelo de negócios foi a televisão – e de ler jornais quotidianamente (quando estou em terra. No mar nunca os li, claro) há mais de quinze. O meu contacto com a imprensa começou a ser indirecto, intermitente, irregular – até chegar a crise da Covid-19. Na minha viagem quotidiana ao Mercat de l’Olivar comprava três jornais – e resolvi que alguma coisa tinha de ser feita.

Não foi com a Covid-19, é certo. Já vinha de antes. Mas agora era demasiado evidente, saltava aos olhos, doía: o quarto poder mudou-se para o quarto do poder, jornais e telejornais tornaram-se correias de transmissão dos governos. Vender emoções já não chega: agora é preciso vender as opiniões dos governos também. Um Diário da República com adjectivos. Nas notícias ninguém mencionava o nome dos cientistas que se opunham à narrativa oficial. Nomes como Ioannidis, Wittkowski, Gupta eram – ainda são – sistematicamente ignorados. Por paradoxal que pareça, as redes sociais (sobretudo o Facebook) tornaram-se a melhor fonte de informação, a que tem um leque mais vasto de pontos de vista, a que aborda os temas mais livre e aprofundadamente. A necessidade de ter perspectivas diferentes sobre qualquer coisa desapareceu da comunicação social. Pior, o circuito fechou-se: os media alimentam o medo, os governos reagem, os media transmitem as reacções, o medo aumenta, os governos carregam ainda mais nas medidas, os media sobrecarregam no medo – e no meio deste vórtice temos uma população em pânico e uma indústria farmacêutica que esfrega as mãos de contente, laboratórios de análises que facturam num mês aquilo que dantes facturavam num ano.

Estas certezas começaram a crescer em mim. Tornei-me aquilo a que media, políticos e populaça chama «negacionista». É difícil dizer quanto odeio este termo, quanto penso que tratar de negacionista quem não alinha na corrente é uma forma de roubar dignidade àquilo para que o termo foi criado. Tomei várias decisões: uma delas – para mim a mais importante – foi não me envolver nos debates epidemiológicos e estatísticos. Posso, isso sim – e fi-lo – debater os aspectos políticos, sociais, humanos da crise. Posso comparar o Texas, a Florida, o Dakota do Sul, a Suécia com a Bélgica, a Itália ou a Espanha (mesmo sabendo que as comparações entre países são absurdas, ou pelo menos fazem pouco sentido. Mas para o que é – perguntar a um jornalista porque é que ele não menciona o Texas e só compara a Suécia com os vizinhos nórdicos, sem sequer se dar ao trabalho de investigar a mortalidade em anos anteriores, isto é, de contextualizar – chega).

Até que um dia a inevitável pergunta chegou: «E se eu estiver enganado?» Um dos maiores navegadores de todos os tempos – Joshua Slocum, o primeiro homem a dar a volta ao mundo sozinho num veleiro – dizia que são os capitães demasiado seguros de si próprios que perdem os seus navios. Não há em mim certeza que não venha de mão dada com uma dúvida. A solução era óbvia: pôr os dois «lados» em confronto, à luz de dois ou três conceitos que são, para mim, o cerne desta questão toda: a liberdade de expressão, a responsabilidade social, a ética – tantas vezes esquecida mas fundamental para a vida em sociedade.

Assim nasceu o debate (que começou por ser colóquio) «Comunicação social: liberdade de expressão e responsabilidade social». Há um ano, mais coisa menos dias. De uma certeza, uma dúvida e da vontade de as confrontar.

 

 

Luís Serpa, Palma, 15-05-2021

 

PS – O debate terá lugar dia 28 de Maio, dividido em quatro painéis de uma hora e meia cada, a partir das dez horas da manhã. Os painéis são: Liberdade de expressão, Responsabilidade social, Liberdade de expressão & Responsabilidade social, Ética.

Inscrições : debate_com.social@autonoma.pt.

Informações: Lserpa@lerporai.com

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