Cinco Micro-Contos

por Luís Serpa

Desejo

No dia em que me roubaram a bicicleta estava a chover e eu cheio de dores num joelho. Além disso estava de ressaca, porque na noite anterior tinha bebido uma quantidade razoável de Bailey’s. Espero que saibam como se bebe Bailey’s: com um bocadinho de whisky, muito pouco, duas gotas para cortar o excesso de doce e uma pedra de gelo, não mais.

Foi nesse dia que a Isabel me levou a casa pela última vez. Ainda me vejo a sair do carro dela: miserável, devastado, curvado, a coxear e a pensar que nunca, mas nunca mais andaria com uma miúda sem estar apaixonado por ela. Já que é para sofrer, ao menos que se sofra por uma razão que valha a pena. E o desejo não é uma razão suficiente.

Lua

Não sei se já viram a lua a nascer nos trópicos, quando está cheia: parece muito grande e é de um encarnado vivo, brilhante. Dá a impressão de se lhe poder tocar com as mãos – bastaria estendê-las. Escolhia sempre essas noites para engatar uma miúda. A partir do momento em que ela acedesse a ir para a praia comigo era fácil: a lua dá-lhes volta à cabeça, toda a gente sabe. Claro que me podem dizer que se elas foram para a praia … – tretas. O que lhes dá a volta é estarem ali deitadas e ver um enorme círculo encarnado sair da água como – suponho, nunca vi nenhum – um submarino incandescente a emergir.

Foi isso que fiz com a Ângela: levei-a para a praia e fui-lhe contando histórias de coisas que não me tinham acontecido, mas podiam ter. Elas gostam de ouvir histórias, eu de as contar; não me parece que o facto de serem  inventadas de uma ponta à outra tenha muita importância. Enfim, se analisarmos o caso de um ponto de vista da eficácia não tem com certeza: elas iam e vinham como baldes numa nora (faço esta analogia porque por vezes me sentia um bocadinho burro: sair da discoteca, levar uma mulher – que na maior parte dos casos nunca tinha visto – para a praia, contar-lhe meia dúzia de histórias, comê-la e vir-me embora – se isto não é como um burro às voltas numa nora não sei o que é. Verdade seja dita que, por questões de ética pessoal, nunca repetia uma história).

Onde é que ia? Ah, na Ângela. Era uma miúda pequena, nervosa, seca, com umas mamas muito grandes (tudo era pequeno nela. Só as mamas eram grandes). Quando estava a iniciar a minha segunda ou terceira história (parece-me. Se calhar foram mais) ela disse-me “ainda vais contar muitas, antes de foder? Estou a marimbar-me nos crocodilos e nos hipopótamos que mataste não sei onde. Não podias calar-te e foder-me, por favor?”

Política

Não sou muito de manifestações, greves, movimentos colectivos, “futuros radiosos” ou “novos homens”. Não gosto de engenharia social, de activistas – sejam eles monárquicos, de esquerda, de direita, a favor ou contra os animais, contra as marés ou por uma lua cheia aos fins-de-semana. Por isso, quando conheci a Anabela e me apaixonei por ela – foi quase simultâneo – sabia que estava a fazer uma asneira.

Anabela era sindicalista, dirigente de um partido de extrema-esquerda e professora de sociologia numa faculdade pública, boa. Conhecia-a porque veio ter aulas de ténis comigo. Ao fim da terceira lição eu estava completamente colhido por ela. Já o contrário demorou um bocadinho mais – e exigiu, sobretudo, que me calasse com as minhas piadas anti-esquerda, anti-maricas, racistas e machistas. É verdade; espero que não me confrontem muitas vezes com esta admissão: calei-me – ou melhor, mudei – por causa dela.

Era muito grande, mais alta que eu; loira, com um corpo ginasticado, tenso, elástico. Foi muito difícil convencê-la a ficar comigo mais do que a primeira ou segunda vez de cama. Todas as nossas conversas iam invariavelmente parar à política – até que eu tomei a decisão de não tocar no assunto, nunca mais. Anabela tinha um certo ascendente sobre mim, reconheço-o sem dificuldade de maior. Era eu que a amava; ela deixava-se amar.

Uma noite estávamos na cama e fui-me abaixo. Fiz-lhe uma observação – é verdade que totalmente gratuita, inútil, não provocada. Mas inócua; qualquer coisa do género “este palerma do [segue-se o nome de um sindicalista qualquer] só diz asneiras”. “Imbecil”, retorquiu.

Eu tinha um ano de pressão para sair. Comecei a bater-lhe – murros e pontapés, só. Mas foram muitos, é verdade. Só parei quando ela estava morta – os polícias que me invadiram a casa é que me fizeram parar, porque eu continuava a bater-lhe. Não sabia que se pode matar alguém com murros e pontapés, mas parece que sim.

Elevador da Glória

Não cabe na cabeça de ninguém cair de bicicleta num dia de chuva. Foi porém o que me aconteceu hoje de manhã. Estava atrasado e resolvi descer a Calçada da Glória. Por azar, apanhei o elevador a subir e quis desviar-me dele. Não consegui e caí. Magoei-me bastante, mas o pior foi o vexame: o elevador estava cheio, e aquela gente toda a olhar – saíram todos e precipitaram-se para mim; feriu-me mais do que a queda, claro.

Madalena começou por afastar toda a gente: “eu sou médica. É melhor afastarem-se. Eu trato dele. Senhor condutor, é melhor continuar a sua viagem”. O wattman aceitou, visivelmente aliviado. Quando estávamos sozinhos disse-me “continuas o mesmo idiota, não é? Como é que te lembras de descer isto de bicicleta? Deixa-me adivinhar – estavas atrasado”.

Madalena viveu comigo dez anos. Sei que não vale a pena contrariá-la, sobretudo quando tem razão. E não, não é médica: é dona de uma agência de publicidade. “Consegues levantar-te?”

Levantei-me a coxear, cheio de sangue e de óleo dos carris. Não estava atrasado: sabia que ela apanhara aquele elevador – paguei a um miúdo, filho de um amigo meu, para me dar um toque no portátil quando a visse entrar no elevador. A queda foi propositada. Não funcionou: quando lhe pedi o número de telefone ela respondeu-me “nem penses nisso”. O pior, como disse, foi o vexame.

Lombo de porco

Vamos voltar atrás e recomeçar onde ficámos, queres? Eu chego a casa, ponho o chapéu no sítio do costume, tiro o sobretudo; tiro os sapatos. Vou à cozinha dar-te um beijo; pergunto-te se queres ajuda e tu dizes “não, obrigada, está tudo pronto. É só pôr no forno”. Volto para a sala e vou ao bar preparar um whisky. Pouco depois tu vens para a sala, ainda a limpar as mãos ao avental. Dizes-me:

– O lombo de porco está no forno. Está pronto daqui a três quartos de hora. Fi-lo com mostarda e salsa, como tu gostas. E agora vou-me embora.

Começo por não perceber.

– Vais-te embora?

– Vou.

– Não percebo. Vais-te embora como, porquê, para onde, como? Quando é que voltas?

– Não volto. Vou-me embora. Vou deixar-te. Como sabes não gosto de lutar contra o que é, quando me parece que é e não pode ser de outra forma.

– Está bem. Adeus – e continuei a beber o meu whisky.

Foste-te embora e nunca mais te vi. É aqui, se não te importas, que gostaria de rebobinar e começar de novo. Assim, por exemplo:

Tu vens para a sala, ainda a limpar as mãos ao avental. Dizes-me:

– O lombo de porco está no forno. Está pronto daqui a três quartos de hora. Fi-lo com mostarda e salsa, como tu gostas. Fazes-me um gin tónico? – Levanto-me e faço-o, como tu gostas (é – ou melhor, era – um ping pong permanente, este “como tu gostas”), com bitter Angostura. Tu sentas-te no braço do sofá e dás-me um beijo.

Ou:
Tu vens para a sala, ainda a limpar as mãos ao avental. Dizes-me:

-O lombo de porco está no forno. Está pronto daqui a três quartos de hora. Vamos para a cama? – Respondo “sim” e vamos para a cama.

Tudo, menos:

– Está bem. Adeus.

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