Cidades atravessadas por rios

por João Miguel Henriques

Em texto publicado nesta página há pouco mais de um mês, procurei dar conta da presença de Budapeste na poesia de alguns autores portugueses contemporâneos. Não tive nessa ocasião oportunidade para citar mais que uns versos avulsos, pelo que quis hoje trazer até aqui integralmente um dos poemas referidos nesse texto, o belíssimo „Budapeste” de manuel a. domingos.

um dia escrevo um poema sobre como
deixámos o tempo passar naquela esplanada
entre palavras em italiano da mesa ao lado
e o passar lento das pessoas na rua.
sobre alguns prédios, em quase ruína,
que ainda guardam marcas da última
guerra. sobre o teu olhar ser o silêncio
das pontes. um dia escrevo sobre tudo isso.
porque sei que gostas de poemas
e de cidades atravessadas por rios.

Incluído no livro Mapa (Livrododia, 2008), de um poeta que é também editor, dirigindo a pequena editora Medula, neste breve poema agrada-me a opção pela estrofe única e a sua medida justa, sem exageros de linguagem. Os poucos versos contêm alguns dos traços de Budapeste que encontramos igualmente salientados noutras composições de outros poetas portugueses contemporâneos, nomeadamente a presença de uma língua estrangeira (desta feita não o indecifrável idioma magiar, mas a passageira língua de algum turista), a imagem marcante de „alguns prédios, em quase ruína”, e naturalmente o Danúbio e as suas pontes. Mas o que sobretudo gostaria de destacar é que esta lírica alusão a „Budapeste”, sendo efectivamente um poema (escrito, publicado, lido aqui por mim na companhia de quem agora me lê), surge-nos textualmente como intenção de poema futuro, manifestação de um desejo, de um plano de um dia (quando?) escrever „sobre tudo isso”. E na expressão desse desejo está já o desejo concretizado, surge-nos já o poema escrito. Talvez seja isto também, ou até principalmente, a natureza da própria poesia, instância humana que, exprimindo de mil feitios outros mil impossíveis projectos, acaba por encontrar em si mesma, no próprio acto da escrita e da leitura, a sua única possível razão de ser.

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