Carta da aldeia

por João Miguel Henriques

Um melro gordo, de carvão reluzente nas asas, rasa-me a cabeça num voo baixo e determinado, para depois ascender elegante ao topo de um carvalho antigo. Ouço-lhe no canto a obstinência das aves dominantes, e não há quem em redor se lhe compare em volume e iniciativa. Talvez me veja como um intruso indesejado, ali especado de camisola berrante no fundo do jardim, a assistir ao ocaso do dia. Uma pessoa sai da capital e passada meia hora na estrada já se encontra noutro mundo. A excessiva publicidade urbana dá lugar a tímidos anúncios de máquinas agrícolas para alugar e prospecção de poços de água. Dá para praticar um pouco a compreensão de enunciados escritos. Há também ovos à venda em casas desconhecidas, cujos residentes nos convidam para entrar e ficar à conversa. Inútil explicar a pressa idiota que trazemos da cidade. Que me diriam se eu alegasse uma aula online ou reunião via zoom? Falam-me de um qualquer Peti da aldeia, que eu de forma alguma poderia conhecer. São outras formas de convivência. Já com vinte ovos para levar, explicamos que alugámos ali perto uma pequena casa, para passar a semana em sossego. A senhora acena com a cabeça, como quem entende a forma sem lograr conceber o conteúdo.

Na propriedade vizinha assistimos comovidos ao parto de uma ovelha negra. Coberta de sangue e placenta, nos primeiros esforços para se pôr de pé, faz-me por segundos pensar como é difícil chegar ao mundo e compreendê-lo. Ao sair para o jardim com um livro, o vizinho põe-se a cortar as ervas de ensurdecedor aparato na mão, para nos recordar que a vida não é perfeita e que nisso o campo não foge à regra. Lembro com saudade (quem diria?) a musiquinha do dia anterior, entoada pela carrinha da family frost.

Pela parte da tarde, em mais uma gloriosa tirada do mítico caminho azul, avistamos um número recorde de animais do bosque. Enquanto busco mentalmente um som a que pudessem responder todas as criaturas da terra, topamos com uma aldeia em ruínas e descobrimos chocados que também as pessoas, tal como os animais de caça, podem ser abatidas às dezenas numa só tarde de particular crueldade. Visitamos pequeno cemitério de Kapólnapuszta, povoado extinto, depois do massacre soviético de Março de 1945.

A noite confirma-me experiente acendedor de fogo caseiro, contribuindo assim para a minha auto-estima de quarentão armado em betyár. E felizmente que a internet é suficientemente boa para me permitir enviar umas quantas imagens à família, ligar as notícias portuguesas e quase fingir que estou em casa. Escrevo da aldeia, de um reduto que não me conhece mas ao qual desejo pertencer, como uma criança pequena ansiando amor parental.

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