Candidatura de “Canto a vozes” a Património da UNESCO será formalizada este mês

por LMn | Lusa

A Associação Canto a Vozes-Fala de Mulheres candidata, este mês, esta expressão artística à classificação, pela UNESCO, como Património Cultural Imaterial da Humanidade, foi hoje divulgado pela instituição que junta 30 grupos de Viseu até ao Alto Minho.

“Dentro de uma a duas semanas contamos ter o processo pronto para ser entregue a nível nacional e, posteriormente, apresentado junto da UNESCO”, a organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura, disse hoje, à agência Lusa, Josefina Bouças da direção daquela associação.

A responsável referia-se à inscrição da candidatura no Inventário Nacional do Património Cultural Imaterial, que dá início ao processo de classificação, formalmente iniciado em março de 2020, num encontro que juntou, no Teatro Sá de Miranda, em Viana do Castelo, mais de 300 pessoas que decidiram constituir a associação Canto a Vozes-Fala de Mulheres.

“A associação Canto a Vozes-Fala de Mulheres foi formalmente criada em Viana do Castelo, no dia 01 março de 2020, com o propósito de avançar com o processo”, explicou à Lusa Josefina Bouça, um dos elementos da direção da instituição.

A decisão saiu de um encontro que decorreu em janeiro de 2020, na cidade de São Pedro do Sul, no distrito de Viseu, onde teve lugar a mesa-redonda “O património somos nós”.

Nessa altura, em comunicado, foi anunciada a constituição de uma comissão organizadora da futura associação de defesa dos interesses dos grupos que formalmente ou informalmente cantam, a três e mais vozes, um repertório legado pela sociedade agrária tradicional, acrescenta o comunicado dos promotores.

Segundo a comunicação, existem diferentes designações locais para o canto da polifonia tradicional: cramol, terno, lote, cantada, cantedo, cantarola, moda ou cantiga.

A nota então enviada à imprensa destacava que, por iniciativa do município de São Pedro do Sul, foi feito um protocolo com a Universidade de Aveiro, tendo sido constituída uma equipa de investigação que, desde 2017, acompanha a atividade dos diferentes grupos, ao mesmo tempo que desenvolve uma pesquisa em fontes históricas.

“Uma vez que o Cante Alentejano e o Fado já estão classificados como Património da Humanidade, decidiu-se que a candidatura partiria de São Pedro do Sul e seria extensível a todo norte, até ao Alto Minho. São cerca de 300 a 400 pessoas que estão integradas nos cerca de 30 grupos inscritos nesta candidatura”, especificou hoje Josefina Bouças.

A professora reformada de 65 anos, que também faz parte do grupo As Cantadeiras do Vale do Neiva, de Viana do Castelo, acrescentou que a candidatura “também integra grupos informais, que não estão constituídos enquanto associações”, como é o caso, ainda no Alto Minho, das Cantadeiras de São Martinho de Crasto, da União das Freguesias de Crasto, Ruivos e Grovelas, no concelho de Ponte da Barca.

A responsável está confiante na classificação de um património que classificou de “muito representativo dos usos, costumes, e da identidade” das regiões abrangidas.

“Afinal de contas é a identidade de um povo, muito representada pelas mulheres, porque quem cantava eram as mulheres, mesmo que fosse para chorar. Cantavam do nascimento até à morte, para não chorar. São esses os testemunhos que recolhemos. Temos consciência de que fizemos um trabalho de excelência, porque estamos a ser muito exigentes e estamos rodeados de pessoas extremamente competentes”, referiu.

Para Josefina Bouças, “seria muito mau para a cultura se o ‘Canto a Vozes’, o chamado canto à capela, sem instrumentos, não fosse considerado muito relevante para ser classificado”.

“Seria qualquer coisa de bradar aos céus, sem menosprezar e desprestigiar o Cante Alentejano e o Fado. Mas seria muito mau que a candidatura desta polifonia tão rica, do centro e norte, não fosse aprovada. Seja por enaltecer as mulheres, seja por enaltecer este tipo de canto que está realmente votado ao abandono”, sustentou.

Cantado “por grupos de mulheres ou mistos, este canto é, no século XXI, uma expressão artística e um património imaterial que vincula as mulheres e homens [com maior destaque na mulher] no combate à vulnerabilidade das comunidades onde residem; reforça a identidade local e ‘desoculta’ o papel das mulheres nos processos e práticas culturais ancestrais”, definiu.

ABC (JFO) // MAG

Lusa

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