Camponeses com Wifi

por Garry Craig Powell

A história é complicada e comprida, mas como todos os contos de fadas, tem um desfecho feliz – ao menos que se saiba.

Era uma vez, um jovem inglês chegou ao Ribatejo, para ensinar a sua língua, em Santarém. Foi em 1979, quando as memórias da ditadura ainda eram recentes. O inglês namorou-se e casou-se com uma ribatejana, teve dois filhos e fundou uma escola de línguas chamado The English Centre, nas Caldas da Rainha. A família vivia em São Martinho do Porto, um lugar mágico. No entanto, por várias razões, saíram de Portugal, o casamento falhou, e o inglês passou décadas fora do país, sem pensar em voltar.

Passou muitos anos nos EUA, onde era professor de Escrita Criativa, uma disciplina tão absurda (porque não é possível ensiná-la) quanto tipicamente americana (porque os americanos sabem vender tudo, até os sonhos). E entretanto namorou-se com uma colombiana. Depois da primeira noite que passou em Bogotá, contou-lhe que tivera um sonho enquanto dormia – que vivesse em Portugal, que sentia-se em casa, e que estava feliz lá. Passaram vários anos, e o inglês casou-se com a colombiana, mas não sabiam onde viver: a colombiana insistia que não ia sair do seu pais, mas o inglês sofria com a poluição e a altitude (a cidade é aos 2600 metros), portanto era impossível. Pensavam em viver juntos nos EUA, mas a colombiana tinha uma filha, cujo pai, um ator, não queria que a sua filha fosse viver lá, porque pensava, com razão, que o país era perigoso e louco. Entretanto, o inglês levou a sua esposa a Portugal, e ela adorou a visita. E que grande sorpresa! Quando a colombiana perguntou ao pai da sua filha o que pensava de Portugal, ele, o ator, disse logo que não se importaria que ela fosse viver lá. E assim foi. Compraram uma casa construída em 1780 perto de Ponte de Lima, numa aldeia minhota. Ao chegar, a enteada do inglês, que na altura tinha 10 anos, disse (em espanhol) “Então, basicamente, somos camponeses com wifi, não e?”

Pois eram, e são. A mulher cuida do quintal, a menina estuda (e já fala como uma minhota, com as asneiras típicas e tudo) e o inglês traduz e escreve. Acaba de escrever um romance satírico sobre a política de identidade, o culto dos “woke” e dos politicamente corretos – que ele acha completamente chanfrados. Felizmente, no Minho, por enquanto as pessoas não são tão woke ou politicamente corretas. E enquanto não sejam, a família Anglo-colombiana-minhota há de continuar a viver lá, no vale do Lima, em um dos últimos paraísos.

E de fato, ao parecer, o sonho tinha razão: afinal, o inglês sentia-se em casa em Portugal, mais do que em Inglaterra, que já não é o país que era. Portugal é pacato, civilizado, e nestes cantos, ainda bucólico. E a família cosmopolitana vai viver aqui, felizes para sempre?

Veremos.

 

© Garry Craig Powell, 2021

Crédito das fotos: Dayana Galindo

 

 

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