Caminhar em Contramão – Rota do Oriente (XV)

por Vitor Vicente

Segue-se o bairro XV, outro ilustre desconhecido. O contra-relógio na cidade convence-me a pagar uma visita ao território, em detrimento de simplesmente divagar.

A expedição inicia-se com a viagem a bordo do cinco; a par do nove, uma das melhores carreiras rodoviárias para assinalar os contrastes entre snob Buda, a outrora febril downtown e Peste profunda.

Ao descer do autocarro, onde os passageiros preferiam um lugar de pé a sentar-se ao lado de um potencial Covid-19 positivo, a primeira impressão que me passa o bairro XV é a seguinte: não existem diferenças de maior entre os arredores das metrópoles húngaras, polacas ou checas, tanto na mãe-natureza como na fauna de duas patas.

Ao fim de dois minutos de caminho, encontro-me numa rua composta de vivendas. A área em redor apresentou-se longe de razoável, ainda assim há quem possa vender a ideia de morar numa vivenda. Assim como a outros é permitido exibir o galhardete de viver no centro, ocultando o pormenor de habitar um estúdio de vinte e poucos metros quadrados. São opções; valem tanto quanto opiniões.

Vivendas deixadas para trás, voltam os chamados commieblocks, em todo o esplendor de espelunca que carateriza o socialismo. Teve o seu tempo; um tempo que, em abono da verdade, também foi o meu.

Chego, por fim, ao Aszia Center, um bazar indoor de produtos asiáticos, dividido em três edifícios.  Ou um mercado Wuhan devidamente hungarizado.

Entre as bugigangas, saltam-me à vista máscaras personalizadas que provavelmente não protegem porra nenhuma e posters que não passariam a censura do culto woke por expressarem piadas inspiradas em frases feitas ou retratarem modelos de homem e mulher impróprios para progressistas; a propósito, cá fora deparei com um nostálgico número de raparigas com calças de cabedal.

Tendo em conta o supracitado contra-relógio, decidi morder algo de que brevemente esteja privado. Escolhi, sem grandes hesitações, um kürtőskalács. Apesar de me parecer doce de inverno, o meu tempo sobrepõe-se aos primeiros raios de luz da primavera (e, de alguma maneira, ao negrume que inesperadamente tomara-me conta do fim de semana).

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