Caminhar em contramão – Praça do Recomeço (Ferencváros, IX)

por Vitor Vicente

Regresso à praça onde comecei a escrever esta sequência de artigos, ou seja, onde recebi a inspiração para abrir caminho em contramão. Quem diz inspiração, diz iluminação.

Não me recordo quem (Eugénio de Andrade? Paul Valery?) disse que o primeiro verso é uma bênção, o restante trabalho do poeta. Tem sido o caso desta caminhada; creio se aplicar igualmente às histórias (não confundir com episódios) de amor.

Inspiração, iluminação, bênção, tudo sinónimos da palavra dádiva. Que me chegou às mãos na praça Ferenc. Alguns, confusos, perguntarão: queres dizer Deak Ferenc? Antes de responder, outros, nativos e expats, acrescentarão em que parte de Deak?

Esclareça-se: é comum marcarem-se encontros na imensa praça Deak sem especificar exatamente onde, tendo-se tornado motivo de riso entre residentes.

A apanhar do ar, alguém recém-chegado a Budapeste ainda atira: queres dizer Listz Ferencz?

Nada disso. Trata-se da praça Ferenc, no bairro IX, pelos meus passos descoberta numa deambulação pós-expediente na era pandémica, antes de pernoitar na rua Mester.

A rua Mester, por seu turno , lembra-me a rua Talbot em Dublin. Ambas tinham tudo para serem recordadas como catitas, não fosse a indesejável abundância de alcoólicos e desordeiros afins.

Enfim, do bairro IX ficar-me-ão sobretudo as andanças na rua Mester e o centro comercial Lurdy transformado em cenário apocalíptico. Como é da praxe, as últimas memórias reescrevem grande parte da narrativa.

O começo, igualmente, mantém-se intacto; o meio, elo mais fraco, esvai-se. Desse capítulo retenho para sempre a rua Raday: os menus baratos, o delicioso frio azul em novembro, as incríveis estudantes de Corvinus, o turkish tea oferecido como complemento.

Sem esquecer o complexo de esplanadas Balna, junto ao Danúbio, observatório de espetaculares poentes e brasas andantes do estio. Onde me despedi da rapaziada da rua Raday, ou do que desse gang ainda resta na cidade.

O nove, por tudo isto, tornou-se-me número cíclico.

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