Caminhar em Contramão – Opulento gueto – Angyalföld, Népsziget, Újlipótváros, Vizafogó, XIII

por Vitor Vicente

Terei ficado, na primeira das duas vezes que visitei Budapeste enquanto viajante, no bairro XIII. Pernoitei no barcotel Fortuna, ancorado no Danúbio. Na época parecia-me encontrar-me mais em Peste do que em Buda; o mesmo digo hoje em dia da Ilha Margarida.

Igualmente afirmo ter-me alojado em Újlipótváros e não exatamente no bairro XIII. Existe uma linha divisória entre o opulento gueto e os casebres da classe operária, claramente traçada pelo mercado Lehel, essa relíquia do comunismo; ou talvez essa linha exista somente na minha cabeça, a cidade de que vos conto apenas aconteça na minha cabeça, uma vez que não almejo outro ponto de vista senão o do flâneur, sem o menor interesse em vender a minha perceção.

Recuando ao tempo em que aqui estive dois dias. O bairro, as varandas e detalhes arquitetónicos, sopas e sobremesas, encheram-me as medidas. Como esquecer as schnitzel de chorar por mais e as primeiras colheradas na somlói galuska?

A que se juntam os toques literários. Ela era a rua Balzac, a rua Victor Hugo, a rua Gogol. E o memorial a Raoul Wallenberg, um verdadeiro ativista – no terreno – dos direitos humanos; distante do presente tempo, em que por ativismo se entende hastags e doações online para questionáveis ONG.

Na verdade, Újlipótváros é-me (vale o que vale, vivo e escrevo) o bairro judeu de Budapeste. Opinião, pelos vistos, partilhada pela wikipédia (por outras palavras, pelas manadas).

Todos os não-anormais anos, celebra-se o dia da independência de Israel no parque Szent Istvan. Uma algazarra com laivos de bazar do médio-oriente, uma imaculada alegria; não há cá protestos, megafones, cachecóis alvinegros.

Durante o ano inteiro (atualmente reduzido a take-away ou coisa que o valha) o Babka é paragem obrigatória para manjar shakshuka, hummus ou baba ganoush.

Volte a assentar arraiais em Budapeste e certamente não descartaria Újlipótváros. Ou a ruela ali ao lado, Falk Miksa e que (tenham a bondade de me corrigir, caso esteja enganado) já pertence ao bairro V. Como olvidar esse arejado boulevard, repleto de árvores e antiquários, onde a cidade ainda cheira a Europa central.

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