Caminhar em Contramão – (O berço de sempre, Zugló, XIV)

por Vitor Vicente

Consta que nasceu e cresceu em Zugló, a criaturinha de quatro patas, Hanucat, com quem comparto quatro-paredes há cerca de dois anos.

Quando me foi apresentado, com cinco meses de idade e uma irresistível mancha-bigode, chamava-se Charlie. Ao aceitá-lo de braços abertos, em pleno Hanukkah, não hesitei no rebatismo; por norma, desagrada-me a ideia de dar nomes de pessoas aos animais, parece-me antropomorfismo forçado, coisa que pouco ou nada favorece os bichos.

Hanucat, também conhecido pelo diminutivo Hanu, mudou-se comigo para o outro lado do Danúbio. No bairro XI, sobre o qual falarei no momento oportuno, inicia um novo capítulo da sua mui nobre existência e cumpre a versão felina do mikvah .

Traumatizado, porventura, pelas vicissitudes das ruas de Zugló, Hanu tomou o seu tempo para se adaptar aos aposentos e aos humanos. Não obstante a cadência, conquistar  a confiança de um gato revelou-se-me uma excelente lição de paciência, aceitando cada passo como cada passo e deixando-me de autoiludir com a ideia de me dizer e vender passional quando, na verdade, o meu comportamento não era senão trapalhão.

Terminada a adaptação de Hanu ao apartamento, o apartamento começou a adaptar-se a Hanu. Todo e qualquer objeto transformou-se num brinquedo, toda e qualquer plataforma servia de siesta; exceto a cama comprada na pet shop para o efeito.

Pet shop, diga-se, de Zugló. Talvez daí venha o desdém pela dita. Apesar de vindo ao mundo em Peste, Hanu sentir-se-ia um novo-rico por residir em Buda; havia que fazer jus ao título de Hanuking.

Os ares de Buda terão suavizado a seguinte mudança, desta feita do bairro XI para o II. O supracitado processo de adaptação tardou um par de semanas, se tanto. Da minha parte, suportei-o sem grandes ansiedades; a responsabilidade de cuidar de um gato, inviabilizara-me as oscilações de humor de outrora, pondo termo a condutas de adolescente fora do prazo, contribuindo para me manter consistente e coeso como nunca, capaz de responder às necessidades imperativas de Hanuking, ocasionalmente tratado como Hanucute, Hanucow (ver foto), Hanucica, Hanucão, etc.

Novos horizontes se avizinham para os – na senda das alcunhas –  Budaboys.  Ainda que um seja do Barreiro e o outro oriundo de Hungária körút.

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