Caminhar em contramão – Internacional Suburbionista (Csepel, XXI)

por Vitor Vicente

Perante a pergunta “de que parte de Portugal és?” costumo responder de Lisboa ou dos subúrbios da dita.

Caso tenha vontade de desenvolver a resposta, ilustrá-la, aos Húngaros acrescento que sou de uma cidade que está para a capital Portuguesa como Szentendre para Budapeste; comparação assente nas distâncias em minutos/quilómetros e na mania das respetivas faunas para se autointitularem de artistas, intelectuais e arrogâncias morais afins.

A resposta, entretanto, atualizou-se. Em detrimento de Szentendre, cito Csepel; salvaguardando a diferença de que quem cresce no bairro XXI de Budapeste não se crê pertença do comité da revolução cultural.

Nem o Barreiro, nem Csepel são cidades com um enorme complexo fabril; antes cidades criadas a partir de um enorme complexo fabril.

Algumas Madalenas Marxistas, de punho operário ofendido e erguido, argumentarão que, ao contrario de Csepel, o Barreiro é uma cidade separada de Lisboa, com a sua própria autarquia e alguma autonomia politica. No papel existem duas câmaras municipais, na prática comungam as cores ideológicas; os descontentes podem sempre tentar repor o antigo aka escarlate regime e voltar costas para a grande capital (e para o grande capital).

Falando em camaradas. Csepel é igualmente comparável a Nowa Huta, o bairro mais a leste (leste não é só uma direção, mas um adjetivo) de Cracóvia, concebido inicialmente como utopia do modelo soviético, contendo nas suas fronteiras o suficiente para o dia-a-dia dos cidadãos; suficiente em linguagem socialista traduz-se por estritamente suficiente, espécie de austeridade ateia e destituída de ascetismo.

A siderurgia de (e que deu origem a) Nowa Huta foi obra do comunismo. Já  o gigantesco parque industrial de Csepel, destacado líder do sector metalúrgico na primeira metade do seculo XX, teve sorte distinta: o regime praticamente paralisou a produção. Os bolcheviques barreirenses, por seu turno, reajustaram a estátua de Alfredo da Silva, impondo a ideia de que se trata doutro transeunte aos olhos de quem desconheça a história (enquanto a dita se reescreve nas academias).

Tenho, no entanto, um indesmentível carinho por Csepel e por Nowa Huta; e um idêntico sentimento, porventura mais complexo, pelo Barreiro. Existe uma certa irmandade entre urbes que crescem na sombra das grandes metrópoles, incutindo aos respetivos cidadãos uma evidente vincada identidade.

Não tenho tempo (antes diria paciência; não ter tempo é  somente uma versão snob de não ter paciência) para pessoas que se dizem postas na penumbra, para os chamados discursos de coitado aka corno; trocados os papéis, os oprimidos tendem a revelar-se tão déspotas quanto aqueles a quem acusam de os pisar.

Podia concluir reafirmando que as hierarquias não são as mães de todos os males do mundo. Prefiro fechar com uma oração pelo fim do confinamento. Para que possa voltar a apanhar o comboio para Csepel e me seja permitido sentar-me na Panquecaria “Arany palacsintázó”, perscrutando o velho ambiente dos anos noventa e esperando o par de panquecas escolhido a custo, entre as – true story – mais de cem listadas na ementa.

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