Caminhar em Contramão – (Critério, Qualidade & Ca., Hegyvidék, XII)

por Vitor Vicente

Hegyvidék quer dizer “terras altas”. Condiz inteiramente com o XII, tendo em conta que aos residentes é conferido um elevado estatuto; não condiz, contudo, com as doutrinas contemporâneas, obcecadas em colocar tudo e todos num único patamar, nivelando por baixo, em nome da igualdade e do espírito pouco santo do socialismo.

Apesar de fã de Normafa (terei imensas saudades de comer lángos ou rétes nas colinas de Buda, uma experiência que me se apresenta tão ou mais apetecível que beber margaritas nas Caraíbas) passei a maior parte do meu tempo na, digamos assim, parte rasa; chamada de Krisztinaváros e que traduzida à letra, significa “cidade de Cristina”, chocando novamente com a histeria contemporânea, obcecada em apontar dedos ao patriarcado.

Falando de mulheres. À falta de sotaques (ainda se pode brincar com sotaques?) em Budapeste e de alguma maneira na própria Hungria, queda-nos as raparigas para ilustrar os contrastes do bairro.

Pode-se dividir o mulherio em dois perfis. Um carateriza-se como clássico e feminino, a que se soma a elegância que nem os domingos de roupa desportiva (e de marca) ousam pôr em causa. Trata-se, como devem adivinhar, do meu preferido. O outro, batizo de fêmea-manif. Tais criaturas terão passado uma temporada no estrangeiro, em Copenhaga, Berlim ou cidade cool afim. Creem ter visto o mundo e a modernidade, os novo e a vanguarda, a direção certa. Vestem-se de indumentárias ideológicas, como quem usa farda. As roupas visam esconder o corpo ou as suas formas, ainda que muitas das pequenas são esguias como enguias e não tem nada que se apresente. Creio, agora, ter ficado por demais evidente o porquê do primeiro ser o meu predileto.

Por estas utcas, escasseiam um terceiro perfil, a  que intitulo de soviet slut, com o troc troc de saltos altos e o cortejo de calças apertadas. Do que da turbe resta, encontramo-lo maioritariamente em Peste.  Porventura no verão, com alguma fezada, podem ser vistos exemplares da espécie na estação de comboios Deli, a apanhar o comboio para o Balaton; voltando às saudades, já as sinto, antecipadas, das lojas que vendem shots de Palinka e álcool barato e sandochas de frango panado, entre outras coisas do arco-da-velha.

Falando em comida. Ficaram-me pendentes jantares num par de restaurantes de gabarito de Hegyvidék (leia-se, Krisztinavaros). Causas a) a habitual displicência de morar aqui ao lado b) a atual anormalidade.

Vivi virtualmente em Ugocsa; nem todos saberão tratar-se que uma região do antigo território Húngaro, pertencendo de momento a Ucrânia, dá nome à rua. Também não será do conhecimento comum que, há cerca de ano e meio, vivo maneiras em Berehove, outra terra que efetuou a tal troca de pátrias por via do Trianon.

As minhas mudanças referem-se igualmente a mulheres e ao supracitado contraste. De resto, nunca guardei segredo de fazer destrinças, nem de acreditar nas valências do discernimento e distinção, resumindo e concluindo, critério, qualidade & ca.

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