Caminhar em contramão – (Corolário ao contrário, Várkerület, I)

por Vitor Vicente

Antes de avançar – na verdade, antes de arrancar – cabe-me deixar as desculpas pelo tom atabalhoado, bruto e deselegante com que me despeço; agravado por o derradeiro bairro, Várkerület, ser tudo menos atabalhoado, bruto e deselegante.

Comecemos por – exercício repetido no decurso da caminhada que agora termina – desconstruir o nome do bairro em questão. Várkerület significa literalmente o bairro do castelo. O bairro pertence ao castelo, e não o inverso; por outras palavras, o bairro fica no castelo, e não o contrário.

Assim dito, parece que venero o castelo como antes se veneravam as catedrais nas aldeias. A cronologia da minha relação, igualmente atabalhoada, bruta e deselegante, não o comprova. Das duas vezes que visitei Budapeste na condição de turista, nunca lá pus os pés. Enquanto residente, foi preciso um par de meses; para ser sincero, foi preciso uma rapariga austríaca marcar o date no tal do castelo. Nos últimos dois anos na cidade, morei num apartamento com vista para as torres do dito. Na semana em que me mudei para Cork, dediquei ao monumento um passeio vespertino; tão vespertino quanto possível com a loucura do lockdown.

(Um parênteses quanto ao supradito passeio, inspirado pelo meu bom amigo indiano Tejas, cujo casamento espero para breve e a quem tenciono brindar com uma despedida de solteiro num Irish Pub a sério, leia-se na Ilha Esmeralda. Quando voltar a Budapeste, espero passar mais tempo na rua de manhã que durante o cair da noite. Voltar a ver o castelo – e o Danúbio do castelo – em pleno nascer do sol, e partilhar as termas de Rudas – e também ver o Danúbio do terraço das termas – com velhos húngaros, daqueles de costas largas e que jogam xadrez nas e fora das brochuras turísticas.)

(Outro – eu disse que não me sabia despedir como deve de ser – parênteses. Na última semana em Budapeste, por conta da idiotice do hotel-quarentena na Irlanda, a mudança esteve em cheque até ao último segundo. Semelhante fenómeno – no caso, devido a um vulcão na Islândia – me aconteceu aquando da saída de Barcelona. Existe um elemento comum que me prende a Barcelona e Budapeste; era só isto, podemos continuar às arrecuas, entre soluços e solavancos).

Nos últimos tempos na cidade caminhei amiúde de casa até à praça Batthyány; onde Budapeste é Budapestísima. Noutros tempos, bebi grades de cerveja no bar belga ali ao lado, donde saí torto e apanhei o elétrico errado. Num par de ocasiões encontrei-me no castelo na calada da noite. Nunca dormi no Hilton; fi-lo em Dublin. Enfim, chega de pôr os pés pelas mãos e as noites pelas manhãs. Hasta la vista, Budapeste!

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