Caminhar em contramão – (A improvável terra prometida, Újpest, IV)

por Vitor Vicente

À medida que nos aproximamos do final da caminhada, prestes a cortar a quimérica meta, movemo-nos sobretudo no coração da cidade. Com surpresa, no que se apresenta como etapa complementar ou coisa parecida, cruza-se Újpest nas nossas passadas.

Újpest não combina com o número (IV) atribuído aquando da criação da grande Budapeste; aquelas habitações sociais, o folclore e faunas a elas associados e o auto-evidente etc, comprometem-lhe o algarismo. Some-se ainda o fato de o bairro dar nome (também destoa no campo das letras) à última estação de metro da linha azul, confirmando a ideia de que se encontra nos arrabaldes.

Conheço Újpest desde pequenino; embora seja (entretanto, deixei de ser – quantas pessoas praticam o verbo deixar de ser no decurso das suas vidas?) do Honvéd desde pequenino. Os familiarizados com a expressão (ou com a sua génese) deverão ter facilmente adivinhado onde ouvi falar de Újpest. Aos outros acrescento que foi através do futebol. Aprendi geografia através do jornal 1X2; hoje em dia é mais Paddy Power. Aprendi “história” nas páginas do semanário Avante e propagandas afins; aos entendidos nas matérias estará explicada a minha afinidade de infância pelo Honvéd .

Nunca pus os pés em Újpest. Terei passado de automóvel; “posso permitir-me”, diria Heiner Müller, outro dissidente da revolução. À falta de informação fiável (o 1X2 tinha razão, os outros tudo treta) pesquiso o bairro quatro na Wikipédia. Sou informado de que Újpest foi criado por Judeus expulsos de Budapeste, para estas bandas atirados com a promessa de livre prática da fé e carta-branca para montar negócios; ou seja o que verdadeiramente interessa.

Por momentos, essa absurda repulsa ao bairro quatro dá lugar a uma certa reconciliação. À memória chegam-me duas pessoas que juntam judiaria a Újpest.1) Géza, Húngaro-Israelita, residente em Újpest após largos anos de Aliyah, primeiro em Arad e mais tarde em Eilat, a encaminhar delicadamente cretinos para fora das discotecas, ofício que lhe assentava como uma luva, dada a deliciosa simbiose de sentido de humor e modos de brutamontes 2) uma amiga colorida que morava a poucos metros da Shul lá do sítio, dividindo casa com um felino que se escapava para as imediações do dito templo todo o Shabbat.

A dar crédito à wiki, muitos outros ilustres judeus moraram em Újpest. Já vamos tarde, digo de mim para o meu Hanucat, ambos juntos à tal janela da antiga judiaria de Cork.

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