Cabo-verdianos compram lugar na fila para pedir visto para a Europa

por LMn | Lusa
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Centenas de cabo-verdianos ocupam desde domingo o centro do Mindelo, noite e dia, procurando uma vaga entre as 350 abertas pelo Centro Comum de Vistos (CCV) para poderem viajar para a Europa, comprando até lugares na fila.

Zenny Dias está à procura de obter o visto para viajar de férias para Portugal e chegou ainda no domingo para tentar uma vaga na Permanência Consular que o CCV, que funciona na Praia, ilha de Santiago, está a realizar no Mindelo, a segunda maior cidade do país, no norte do arquipélago.

Acabou por conseguir a senha 310 e mais tarde subiu na posição: “Encontrei alguém a vender um lugar na fila, na posição 205, e comprei por 2.000 escudos [18 euros]”, explicou à Lusa.

O anúncio desta Permanência Consular do CCV no Mindelo de 26 a 30 de junho – realizadas mensalmente, mas esta sem marcação prévia pela Internet e com agendamento apenas à chegada, até 70 vagas por dia -, levou centenas a guardarem lugar no local para pedir a senha, ainda durante o dia de domingo, recorrendo a pedras, cadeiras e tudo o que fosse útil para marcar a posição ao longo das várias horas de espera.

A enorme procura de vagas para vistos para a Europa em Cabo Verde, que acontece num momento de forte emigração de cabo-verdianos, nomeadamente para Portugal, motivou mesmo o surgimento de intermediários a vender senhas nas imediações, tal como já sucede no agendamento habitualmente feito pela Internet. Entre ânimos exaltados, de quem nestes primeiros dois dias não conseguiu vaga entre os 350 primeiros, com os funcionários do CCV a serem os visados e a polícia a reforçar a presença no local.

O CCV, que assegura nas instalações na Praia o tratamento dos pedidos e emissão de vistos de curta duração para o Espaço Schengen, gerido desde 2010 por Portugal em representação de 19 países europeus, realiza habitualmente Permanências Consulares nas ilhas do Sal, Boa Vista e São Vicente, para evitar deslocações dos utentes à capital, na ilha de Santiago.

Em São Vicente, a segunda mais importante ilha, essas Permanências Consulares, que envolvem a deslocação de pessoal técnico e equipamento, são realizadas mensalmente, tendo a última arrancado na segunda-feira. Contudo, desta vez, para travar o “açambarcamento” de vagas por terceiros – que depois são comercializadas ilegalmente aos utentes, caso em investigação pelo Ministério Público cabo-verdiano -, o CCV não abriu agendamento ‘online’, apenas por ordem de chegada.

“Queria ter passado as férias de Natal em Portugal, porém não consegui visto e desde aquela altura estou a tentar marcar, mas sem acesso ao serviço disponibilizado pelo ‘site’. Fiquei satisfeita com esta iniciativa, porque trouxe mais opções, porém tem sido confuso o processo das filas”, admitiu Zenny Dias.

“Quinha” Pires, de 75 anos e natural da ilha do Fogo, pediu ao filho para conseguir um lugar na fila para pedir o visto para a Europa. Chegou às 10:00 de domingo, 24 horas antes do início desta Permanência Consular no Mindelo, e garantiu a senha 25.

“Vou pela terceira vez à Europa, pois primeiro passo por Portugal e depois visito meus filhos na França”, explicou a reformada, embora lamentando não ter conseguido antes o visto e ter perdido, assim, o casamento de um dos filhos.

Já Joana Teixeira apresentou-se para levantar o passaporte, depois de dois meses à espera do visto. Contou que o marido, com quem vai viajar, conseguiu agendar o pedido pela Internet, que foi mais cómodo do que as longas filas que encontrou à porta das instalações da Assembleia Municipal de São Vicente, onde funcionam estas Permanências Consulares.

“O meu marido conseguiu agendar o pedido de visto pela Internet pela madrugada, que era a altura mais fácil para conseguir vaga, enviamos os documentos e agora vim levantar os passaportes. Vamos de férias a Portugal visitar nosso filho que foi para lá estudar e já temos saudades”, disse a cabo-verdiana, admitindo a “grande mais-valia” destas Permanências Consulares.

PVJ/SYN // LFS

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