Budapeste, Hungria e Ricardo Campos

por LMn

Tenho o destino associado à Hungria. Vou explicar porquê. A minha primeira visita a Budapeste ocorreu no verão de 1995 – há precisamente vinte e cinco anos – no âmbito de um pequeno périplo de comboio pela Europa Central. Nunca me esquecerei da chegada à estação de Nyugati, com uma temperatura de 38 graus e uma chuva quase tropical. Essa primeira estadia foi curta, mas ficou o desejo de voltar.

Em 1996 acabei a licenciatura em Portugal e, como o canudo em Engenharia e Gestão Industrial não me abriria muitas portas na área pretendida (negócios internacionais), candidatei-me a uma bolsa promovida pela Embaixada da Hungria em Portugal. Lá consegui a bolsa e passei um semestre na reputada Universidade de Economia de Budapeste (que já foi “Karl Marx” e agora chama-se “Corvinus”), onde estudei em língua Inglesa várias matérias à volta do marketing e dos negócios internacionais.

O regresso a Portugal e a procura do primeiro emprego não foi fácil e, depois de uma fantástica passagem de quase um ano por Macau (estágio da primeira edição do “INOV Contacto” da AICEP), fui convidado para trabalhar como gestor de mercado da “AEP – Associação Empresarial de Portugal” para a região da Europa Central (dedicando a maior parte do tempo ao “Grupo de Visegrado”). Assim foi durante três anos (entre 1999 e 2001), com muitas viagens principalmente a Varsóvia, Budapeste e Praga.

Estava a trabalhar na sede da “AEP” no Porto quando me surgiu o convite da “Dan Cake Portugal” para desenvolver a exportação para a Europa Central e Leste da unidade fabril que detinham em Budapeste (entretanto extinta). Esses quase três anos em que ali trabalhei, foram muito intensos e uma verdadeira escola para a vida.

A cidade tem uma posição privilegiada na Europa (como anunciava orgulhosamente uma antiga campanha turística magiar: “The Heart of Europe”), que a tornam uma espécie de antecâmara de várias realidades díspares: o “Leste” europeu propriamente dito (caso da Ucrânia), o caldeirão dos “Balcãs” (com três vizinhos da ex-Jugoslávia), a elitista e germânica Áustria, a eslava Eslováquia e a ligeiramente latinizada Roménia. Sete vizinhos, todos eles com línguas diferentes (excetuando as devidas afinidades entre o Sérvio e o Croata). Imagine-se uma “reunião de condomínio” com mais sete vizinhos em que todos falam línguas diferentes. Não é de estranhar que a oferta cultural de Budapeste seja muito rica e, acima de tudo, organizada e permanente.

A maior dificuldade durante as minhas passagens por Budapeste foi mesmo a língua Húngara. Acredito que, em muitos casos, não consegui “quebrar o gelo” devido ao meu domínio limitadíssimo do idioma “Magyar”. Sem o “desbloqueador” comunicacional, dificilmente conseguimos passar do nível mais básico das relações pessoais e conhecer melhor as pessoas. Terá sido isso que ficou a faltar, especialmente na minha segunda estadia (a mais longa: de 2002 a 2004).

Nessa segunda estadia conheci a minha companheira, de quem tenho dois filhos Luso-Magiares. Mesmo estando a viver no Porto desde finais de 2004, visitamos Budapeste regularmente. Atualmente – e desde 2011 – sou responsável pelo departamento comercial e de marketing da “Quinta da Romaneira” (produtor de excelentes vinhos do Douro e Porto). Fizemos algumas (poucas é certo) tentativas para introduzir os nossos vinhos no mercado Húngaro, mas a nossa presença é ainda escassa. Não vamos desistir, uma vez que a qualidade do nosso vinho merece bem essa teimosia. Por isso, digo para finalizar: “Egészségünkre” (à nossa)!

 

Ricardo Campos. Porto, 3 de setembro de 2020

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