Budapeste em verso

por João Miguel Henriques

Num poema intitulado “Fotografia de Budapeste”, incluído no volume de 2008 Gaveta de Papéis, José Luís Peixoto (ou melhor dizendo, o sujeito, a voz deste seu poema) desabafa que “Budapeste não tem solução. / Passarão décadas e morreremos cheios de segredos”. Esta breve composição de estrofe única inscreve-se num interessante conjunto de poemas de autores portugueses contemporâneos nos quais nos a aparece capital húngara, nas mais diversas modalidades e graus de protagonismo. Trata-se de composições bastante diferentes entre si, em parte resultado de uma poesia dos lugares que tem de certo modo caracterizado a produção poética mais contemporânea, mais disponível à referencialidade geográfica do que constatamos no passado mais remoto e canónico da tradição lírica portuguesa. O que porém parece ser comum a alguns dos poetas desse significativo elenco é certa aura de mistério ou exotismo associada a Budapeste e que estes versos de Peixoto permitem ilustrar, ao que se juntam recorrentes referências explícitas ou apenas sugeridas à ruína arquitetónica, à incompreensibilidade do idioma, ao Danúbio com as suas inúmeras pontes. No entanto, há que notar que a cidade não se apresenta apenas como mero pano de fundo ou palco de uma qualquer encenação lírica (como porventura será o caso da “Meditação em Váci utca”, de João Luís Barreto Guimarães), sendo ela própria, em certo sentido, personagem de alguns poemas, ou no mínimo o elemento congregador (nomeação aglutinadora) de uma série de impressões que fascinam ou perturbam o sujeito poético, determinado naturalmente por circunstâncias particulares ou pelo tom impresso ao poema. Em manuel a. domingos, Budapeste, apenas referida no título do poema, é possível inspiração para um poema ainda tão somente planeado, e para Miguel-Manso, a escrever no interior do “Café Castro”, a cidade é refúgio, lugar de repouso e intermitência. Além destes poetas, podemos juntar ainda outros para quem Budapeste foi o mote de versos, como por exemplo Luís Filipe Castro Mendes, ex-Embaixador de Portugal em Budapeste, o já falecido Egito Gonçalves, Rui Pires Cabral (em cuja obra Budapeste aparece mais do que uma vez), Luís Quintais (há alguns anos de visita  à capital húngara, a convite do Instituto Camões), Mário Claúdio e, para também referir uma geração mais recente, Paulo Tavares ou Tatiana Faia. O escritor e tradutor de literatura húngara Ernesto Rodrigues é neste contexto um caso à parte, por ter vivido vários anos em Budapeste, durante a década de 1980, na qualidade de Leitor do Instituto Camões. Budapeste surge tanto na sua obra poética como na sua produção narrativa, destacando-se o volume bilingue Sobre ​O Danúbio / A Duna partján (1985) e mais recentemente o romance Um Passado Imprevisível (2018), já entretanto traduzido para húngaro por Ferenc Pál. E já que saimos do estrito escopo do verso, de referir também, a título de exemplo, uma crónica de Bruno Vieira Amaral (que também a convite do Instituto Camões representou em 2015 Portugal no belíssimo Festival Europeu do Primeiro Romance de Budapeste), João Tordo, cujo romance Bom Inverno tem como protagonista um escritor precisamente convidado a deslocar-se a esse mesmo festival literário, ou A Boneca de Kokoshka de Afonso Cruz, autor também já largamente traduzido para húngaro. Isto para não estender o elenco ao universo mais abrangente da língua portuguesa, no contexo do qual, além de um conto de Ondjaki, se destaca de forma absolutamente central o Budapeste de Chico Buarque.

Faltarão seguramente aqui alguns nomes, mas em todo o caso fica esboçado o possível conteúdo de um futuro volume a publicar na Hungria, em edição necessariamente bilingue, que antologie a produção literária portuguesa sobre Budapeste, ou pelo menos inspirada por esta nossa cidade, independentemente do tipo de inspiração ou do que este termo possa significar. O projecto está em marcha, e com a intenção de editar um volume bilingue pretende-se também destacar todo um conjunto de tradutores húngaros de língua portuguesa, cujo trabalho e dedicação tem ao longo dos anos permitido fazer chegar a nossa literatura aos leitores húngaros. É ainda difícil prever que dimensões terá uma antologia destas, ou que lugar a prosa, por natureza mais extensa, poderá ocupar nesse volume, mas a composição de abertura já está há muito decidida, pois para muitos de nós foi com aquela canção de Mão Morta que Budapeste entrou pela primeira vez no nosso imaginário. É que apesar de tudo, ainda e sempre, não obstante pandemias, confinamentos ou simplesmente o passar dos anos,

 

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