Budapeste da minha vida – Tiago Hipólito

por LMn

21 de Agosto de 2013, recordo-me como se fosse hoje: a ambição, a energia e o sonho, de um jovem Português, que sem nada a perder, embarca para uma jornada num desconhecido país do Leste Europeu, um país cuja existência só fora noticiada um ano antes, numa jornada de 3 semanas de viagem pela Europa e dois dias de desenfreadas caminhadas por mais uma capital europeia: o amor começou aí.

“Elnézést” a primeira palavra, dita num autocarro nocturno cheio de malas, com a esperança certa de que seria a primeira de muitas, a descoberta de uma nova língua foi algo que sempre me entusiasmou, e estaria no país certo para iniciar o estudo de mais um novo idioma…errado…duas semanas e minímas conversações, fizeram-me desistir de imediato de qualquer tentativa de estudo: “O Húngaro, a língua que até o Diabo respeita” (Chico Buarque) fazia então todo o sentido; estava frustrado, como sobreviver num país onde não produzia sons iguais aos que ouvia, os primeiros meses foram de incompreensiveis “Igens” ou “Nems”, para tudo o que me era dito ou perguntado (ainda hoje, é, mais ou menos, assim).

Sete anos depois, a ambição, a energia e o sonho continuam cá, a cidade essa, transformou-se, está mais opulenta, mais enérgica, mais internacionalizada, mais atractiva, mais boémia que nunca, é difícil não se querer perder pelos botecos da Jozséf, Ferenc e Erzsébét Korut, pelos bares de esquina da Dob ou pelos “new-rich pubs” do Gosdu. O que se vê, é uma jovem sociedade húngara, embuída de um espírito de vivência nocturna, misturada com a existência de uma comunidade expat de todas as proveniências possíveis e “alegres” ingleses, que teimosamente resistem em pedir cerveja ou pálinka na língua local. Vejo também uma Budapeste mais cultural, em todas as ruas, em todos os dias da semana, há concertos, exposições, mercados e eventos tão diversificados, que continuo a pensar que esta, é afinal a verdadeira “cidade que nunca dorme”: assim compreendemos o verdadeiro significado das “Noites de Budapeste” cantadas nos anos 90.

Em Budapeste, recebi e vi partir amigos, eu mesmo parti e voltei, viajei e alberguei viajantes, vivi noites de êxtase e encanto pela vida, dias de solidão e tristeza, trabalhei onde sempre ambicionei, melhorei o meu húngaro, dediquei-me a ter uma “carreira” desportiva activa, festejei títulos com estrangeiros que conseguiram entender a mística e o amor ao meu clube, fui Campeão da Europa, estive em campeonatos mundiais e eventos globais, mas acima de tudo, acho que o que sempre fiz foi “viver”, viver para encher a minha alma, viver para completar o meu “eu”, viver para as experiências, viver para não me perder, viver para encontrar significado nos básicos prazeres da vida, como sejam uma jantarada com amigos, ou uma simples caminhada á beira-mar, num rio iluminado de luzes amarelas e chamando para uma bebida num bar onde se possa sentir a brisa noturna do Danúbio.

No fim contudo, é tudo isto que se leva desta vida e, aconteça o que acontecer, a cidade, só por si, já deixou uma marca vincada na minha existência, já se tornou na minha segunda casa, como se já estivesse entranhada no sangue que corre das minhas veias. Os tempos contudo, são diferentes, o vírus diminiu a presença de turistas, a cidade, está estranhamente calma e tranquila, a vida corre mais devagar, mas não pára, o único distanciamento social que existe, é aquele que se verifica entre as pessoas que andam na rua e aquelas que dormem no chão das mesmas.

Em sete anos, Budapeste mudou e fez-me mudar, consigo encontrar hoje maior significado no equilíbrio de me encontrar num sítio onde totalmente me identifico como profissional e como ser humano. Mas, apesar de tudo, e apesar de toda esta conexão, Budapeste, guardará para sempre uma mágoa em mim: de ser a cidade onde nasceu e cresceu aquela pessoa que criou a mais infâmia maldição que persegue a minha vida como adepto de futebol, onde quer que estejas, Bélla Gutman, jamais te perdoarei!

Tiago Hipólito

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