Baltasar Lopes (Cabo Verde)

por João Miguel Henriques

Saudade de parafuso

Hoje, dia de finados, meu amigo, fomos ao cemitério
visitar este nosso companheiro que morreu.
Na paisagem soturna de ventania e nuvens baixas
eram quase banais as nossas duas silhuetas,
você, de um lado do coval anónimo,
empunhando a sua coroa funerária de rosa-querela,
eu do outro, apenas com o meu coração túrgido
de tristeza pelo destino irrevogável dos homens.
Só agora entendo bem o nosso gesto de amigos.
O que nos levou àquela campa foi a nossa necessidade
de encontrar uma ressonância mais pura,
decantada pela viagem sem itinerário,
de onde a gente regressa sempre pelo que ficou de nós,
como um perfume, caro e persistente, que nos persegue
mesmo depois de se ter esgotado o seu inebriamento imediato.

 

Baltasar Lopes da Silva (Caleijão, São Nicolau, 23 de Abril de 1907 — Lisboa, 28 de Maio de 1989) foi um escritor, poeta e linguista de Cabo Verde que escreveu em português e em crioulo. Foi, com Manuel Lopes e Jorge Barbosa, fundador da revista Claridade. Em alguns dos seus poemas usou o pseudónimo Osvaldo Alcântara. O seu romance mais conhecido é Chiquinho (1947). Escreveu também uma descrição dos crioulos de Cabo Verde, O Dialecto Crioulo de Cabo Verde (Lisboa, Imprensa Nacional, 1957).

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