Bálint Urbán: Húngaros em Canaã – o caso dos magiares no pré-modernismo brasileiro

por Pál Ferenc

Sobre as relações interculturais e histórico-políticas entre o Brasil e a Hungria existem inúmeras publicações e pesquisas cujo foco, na maioria das vezes, se encontra no fenômeno do movimento imigratório dos húngaros e na situação cultural e econômica desses imigrantes.[i] Contudo, detecta-se um vácuo investigativo quanto à presença dos húngaros na literatura brasileira. Como se verifica uma diáspora húngara significante para o Brasil, que nos permite falar sobre uma imigração e uma comunidade consideráveis,[ii] a figura do húngaro e a comunidade húngara, como fazem parte integral da sociedade heterogênea do país, evidente e inevitavelmente aparecem na literatura brasileira também. O sucesso intenso do romance de Chico Buarque Budapeste (2003) e do filme de Walter Carvalho baseado no livro, e realizado numa co-produção luso-húngaro-brasileira, tanto como a publicação e a dinâmica receção crítica do romance de Susana Montoro Os Hungareses (2011), que descreve a vida dos imigrantes húngaros no Sul do país, chamaram a atenção para a atualidade do tema da representação dos húngaros na literatura brasileira.

Este estudo, portanto, aborda a maneira como os húngaros são representados numa obra particular do pré-modernismo brasileiro – no romance Canaã (1902), de Graça Aranha –  tendo em conta o contexto histórico da emigração finissecular dos húngaros para o país tropical. Nessa obra, aparecem pela primeira vez os húngaros na literatura brasileira. O facto de que uma regular e significante atividade migratória dos húngaros só pode ser observada no final do século XIX[iii] coincide aproximadamente com aqueles anos em que o enredo do romance é colocado. O romance de Graça Aranha reforça, portanto, esse marco temporal da imigração húngara, surgindo, embora num papel marginal, a figura do húngaro pela primeira vez na história da literatura brasileira.

Essa presença húngara num romance pré-modernista levanta as seguintes questões: Porque é que aparece a figura do imigrante húngaro numa obra que se concentra na vida e nos problemas da comunidade imigrante alemã? Como é representado o húngaro e quais são os estereótipos, as falácias e enganos culturais que se associam aos magiares? E, por fim, como é que o romance determina a futura imagem dos húngaros na literatura brasileira?

O contexto histórico desse romance de tese ou romance-ensaio é a segunda metade e o final do século XIX, caracterizado pelo desenvolvimento crescente da zona do Centro-Sul com a cultura do café em detrimento do território do Nordeste, e pela libertação dos escravos de acordo com a Lei Áurea de 1888. Paralelamente a essas mudanças dinâmicas, o governo incentivou a vinda dos imigrantes para o novo centro agrícola do Sul. „Graças ao fluxo para o Sul, os alemães figuraram em segundo lugar na imigração de estrangeiros para o Brasil” na segunda metade do século.[iv] A imigração dos húngaros também fez parte desse grande fluxo migratório, tendo começado nas últimas décadas do século, como observa Lajos Boglár.[v]

O local onde a ação do romance de Graça Aranha se desenrola é a pequena cidade de Porto do Cachoeiro, no Espírito Santo. O município de Porto do Cachoeiro, que hoje é mais conhecido pelo nome de Santa Leopoldina, foi invadido por imigrantes prussianos, hanoverianos, suíços e luxemburgueses a partir da década de 1860.[vi] Quanto à imigração húngara para a zona de Espírito Santo, não temos nenhum dado significante. A maioria dos húngaros, depois de ter entrado para o país pelos portos de Santos, Rio de Janeiro, Porto Alegre e Pelotas, instalou-se sobretudo nos estados de Rio Grande do Sul e de Santa Catarina. Torbágyi afirma que, embora em número muito menos elevado, certos grupos de imigrantes húngaros se fixaram em Minas Gerais e em Cananéia, parte litoral do estado de São Paulo.[vii] Se havia alguma presença húngara nesses anos na zona de Porto do Cachoeiro, como o romance sugere, hoje já é difícil decidir. O quadro naturalista e o registro verídico da obra, não falando da autenticidade da descrição minuciosa dos trajes típicos e da coreografia da dança folclórica, deixam-nos supôr que sim, o que nos permite estabelecer duas hipóteses.

Como muitos imigrantes húngaros desembarcaram no Rio de Janeiro e depois seguiram a viagem por via marítima para Florianópolis,[viii] é provável que certas famílias, em vez de seguir para o Sul, se aventuraram ao norte e assim poderiam ter chegado ao Espírito Santo, que fica a uma distância alcancável do Rio de Janeiro.

Uma outra hipótese pode ser baseada na observação de Boglár, segundo a qual a imigração húngara anterior a 1908 é muito incerta pela ausência de dados exatos, já muitos húngaros foram registrados pelas autoridades como austríacos, por terem nomes de origem alemã e por falarem um alemão bastante razoável.[ix] Esta consideração permite-nos supôr que, como aponta o romance, existiam também húngaros na região de Espírito Santo, e esses foram referidos nos registros oficiais como austríacos.

No capítulo oitavo do romance, o narrador nos informa da chegada e da instalação dos novos vizinhos da colónia alemã de Milkau e Lentz: „uma pequena família magiar, composta do pai viúvo, duas filhas e um filho, a que se juntaram outro rapaz da mesma raça, que era noivo de uma das raparigas e um cigano” (p. 108). Em seguida, enfrentamo-nos com uma descrição detalhada dos magiares – palavra que é usado de modo frequente no texto para se referir à nacionalidade da família, enquanto o adjetivo húngaro não aparece nenhuma vez. Depois de mencionar a experiência extrema da passagem marítima para a nova pátria, que é mostrada na narrativa através da figura do cigano, o narrador passa a descrever o estilo de vida, a rotina quotidiana, a hierarquia familiar, o vestuário típico e as tradições nacionais do pequeno grupo magiar. Uma longa passagem descritiva é dedicada a uma cena de dança folclórica. Depois de um outro episódio narrativo, o texto, algumas páginas mais tarde, volta à família húngara e apresenta um velho rito tradicional, no quadro do qual, numa cerimónia sangrenta torturam um cavalo para regar a terra do roçado com sangue, assim garantindo a fertilidade do solo.

Os húngaros são referidos pelo narrador como ferozes, fortes e estranhos, enquanto Milkau, o principal foco narrativo do romance, observando-os denomina os membros da família irresolutos, gente apática e entropecida na preguiça (113). Verifica-se, portanto, uma atitude tanto pelo narrador onipotente como pelo seu alter-ego, Milkau, de olhar os magiares como essencialmente estranhos, até primitivos, uma raça (palavra constantemente usada para referir tanto aos húngaros como ao cigano) que ainda fica fora do projeto da modernidade, com fortes traços bárbaros. Os magiares representam uma alteridade radical no universo do romance por ter costumes e tradições completamente diferentes e alheios à comunidade dos imigrantes alemães. Representam uma ruptura forte, se comparados ao discurso que representa a comunidade alemã. O húngaro, no livro, é o outro radical que em vez da modernidade liga-se às tradições e aos ritos antigos, bárbaros e, por consequência, é complemante alheio a uma estrutura civilizada. „Sob a pressão cobarde do isolamento apegavam-se, como a um refúgio, às intatas tradições, transportadas de sangue a sangue e mantidas pelo temor religioso desde os antepassados” (108). Essa alteridade radical, detectada pelo narrador e pelos protagonistas alemães, insere-se numa série de episódios e encontros traumáticos que constituem um contradiscurso distópico na visão utópica da terra prometida, incorporada de forma direta no título da obra.

José Paulo Paes, no seu estudo Canaã e o ideário modernista, destaca que há um jogo fino entre o pensamento utópico representado por Milkau e pelas ideias humanistas dele, e a realidade distópica que se manifesta numa série de eventos essencialmente negativos e traumatizantes na segunda parte da obra.[x] A morte trágica da criança de Maria Perutz, a luta com os abutres e os cães pelo cadáver do caçador solitário, junto com a tortura cruel do cavalo pelos húngaros refletem uma experiência escura e distópica da terra do futuro. Nesses episódios trágicos representados em Canaã, que contrastam tão fortemente com o tom ensaístico e filosófico, revela-se uma distopia atrás da realidade utópica, por trás do sonho dos imigrantes. Curiosamente os húngaros também fazem parte desta dimensão distópica da obra, representando uma alteridade radical associada aos costumes e às tradições bárbaras e primitivas, completamente alheias à cultura da modernidade.

No centro da apresentação detalhada dos húngaros encontram-se dois fenómenos culturais que garantem a continuidade da tradição: a dança folclórica acompanhada de música, e a fertilização ritual da terra. Segundo Jan Assmann, no fundo de cada cultura pode-se achar uma certa estrutura de conexão (konnektive Struktur), que liga o passado ao presente e torna possível uma dinâmica contunuidade. A base da estrutura de conexão é constituída pela repetição que se manifesta através duma coerência ritual. Os ritos e as festas, sendo o principal vínculo da memória cultural, através de suas formas repetitivas, servem para transmitir essa memória e deste modo possibilitam a coesão temporal e espacial duma comunidade.[xi] As intactas tradições bárbaras dos magiares, „transportadas de sangue a sangue”, constituem um refúgio na nova pátria e desta forma ajudam a manter a identidade original. A dança folclórica e o rito antigo funcionam como os veículos da identidade e da memória cultural.

A dança, parte integral da tradição húngara até aos nossos dias, continua a ser o meio principal da mediação cultural nas comunidades magiares. Lajos Boglár e Katalin Kovács, investigando os descendentes da comunidade húngara de Jaraguá do Sul, chamaram a atenção para o fato de que os membros da terceira ou da quarta geração, que já perderam os fortes laços culturais com a língua e com a cultura húngara, queriam reforçar a sua identidade magiar através da aprendizagem de danças folclóricas e o conhecimento dos pratos típicos da Hungria.[xii]

Tanto na descrição do ritual sangrento como da dança, encontramos vários elementos que irmanam os participantes húngaros na loucura e no êxtase. Uma das meninas dança com „rosto iluminado e embevecido” enquanto a outra rapariga „transportada em êxtase, a cabeça loura reclinada sobre o ombro do noivo, numa vertigem aérea, respirava a pequenos haustos com a boca entreaberta, sua boca vermelha como o sangue” (p.109). Na flagelação ritual do cavalo o ator principal da tortura do animal é levado por „uma histérica insensibilidade, uma rudimentar anestesia, uma assassina obsessão. Estonteou-o uma vertigem…” (p.113). No auge do ritual „o contágio do furor apoderou-se dos outros, que imobilizados, assistiam ao sacrifício. E, embriagados, pouco a pouco, pelas frases da música, pela sugestão do rito, pelo odor da carne sangrenta, acompanhavam o canto, num coro infernal” (p.114).

Nesses episódios nietzschianos, em que no processo duma prática cultural o indivíduo perde-se no frenesi e deixa de existir como indivíduo, enfrentamo-nos com um forte preconceito cultural sobre os magiares. No século XIX ainda circulava uma confusa imagem dos húngaros como povo selvagem, bárbaro, nômade e com uma cultura intacta da modernidade. Este preconceito cultural remonta à Idade Média e à história dos húngaros antes da fixação na Bacia dos Cárpatos e da fundação do Estado por Santo Estêvão. O romance de Graça Aranha também não se livra desses enganos culturais, quando apresenta os húngaros como uma raça selvagem com ritos primitivos que os ligam às formas obscuras do xamanismo oriental. Um outro engano histórico é a origem tártara dos magiares, várias vezes enfatizada pelo narrador: „Quando os antepassados tártaros desceram do planalto  asiático, e no solo europeu renunciaram à vida errante dos pastores, para lavrar o campo, (…) sacrificaram aos deuses o velho companheiro de peregrinação nas brancas estepes” (p.113). O romance, com um gesto romântico e com um forte deslize histórico, explica a inclinação húngara para os ritos nômades através da origem tártara do povo. No final do século XIX, o húngaro já não era um „povo equestre” como na Idade Média. O romance, portanto, mantém essa imagem romântica quando sugere que os magiares são inseparáveis dos cavalos. Os cavalos no Brasil do século XIX, na verdade, eram muito mais ligados aos ciganos, já que estes exerceram durante todo o século uma grande atividade de barganhistas de cavalos e bestas de carga, escreve Rodrigo Corrêa Teixeira na História dos ciganos no Brasil.[xiii]

Podemos concluir que o narrador reconhece a importância da dança folclórica como elemento fundamental da cultura húngara, que funciona como uma estrutura de coesão do povo, e liga-a à mesma postura extática e primitiva que acompanha o rito de flagelação. O húngaro, dessa forma, apresenta uma alteridade cultural que radicalmente difere das tradições alemãs por ser mais selvagem, bárbaro e exótico. A imagem que o romance figura dos magiares baseia-se evidentemente naqueles preconceitos culturais que circularam sobre os húngaros, mas a descrição minuciosa dos trajes típicos e dos movimentos da dança deixam supôr que em parte nutriam-se da observação pessoal do autor que, antes da escrita do romance, fez uma investigação pessoal in loco quanto à situação dos imigrantes alemães.

A apresentação dos magiares na literatura brasileira nunca volta a ter esta extremidade que se manifesta em Canaã, que provavelmente se relaciona com a consolidação dos grupos imigratórios e com a intensa ativadade cultural das comunidades húngaras no Brasil, descritas e apresentadas largamente por Ágnes Szilágyi Judit, László Szabó e Lajos Boglár; mas a figura do húngaro mantém um certo exotismo e alteridade culturais, como se pode observar por exemplo no romance de Chico Buarque, Budapeste.

[i] A investigação sistemática ainda no vasto contexto do continente latino-americano começou no fim dos anos 70 com a publicação das monografias de Salvador Bueno e de László Szabó.

[ii] Szilágyi Ágnes Judit 2009: 100-101.

[iii] Bueno 1977: 87.

[iv] Fausto1995: 241.

[v] Boglár id, s. d.: 18.

[vi] Seide, Frederico Herdmann: Colonização alemã no Espírito Santo. http://www.estacaocapixaba.com.br/temas/imigracao/colonizacao-alema-no-espirito-santo2/

[vii] Torbágyi  2004: 40.

[viii] Boglár – Kovács 1999: 6.

[ix] Boglár s.d.: 22.

[x] Paes 1992: 28.

[xi] Assmann  2000: 16-17. e 56-57.

[xii] Boglár-Kovács 1999: 12-13.

[xiii] Teixeira 2008: 52.

Print Friendly, PDF & Email

Também poderá gostar de

O nosso website utiliza cookies para melhorar a sua experiência de navegação. Aceitar Ler Mais

Privacidade