Balada sobre o Poder da Poesia

por Henrique Delmar

Na avenida, havia uma cabina telefónica. A sua porta abria-se e fechava-se amiúde. As pessoas falavam sobre coisas que as preocupavam, chamavam o gabinete de apoio social, marcavam encontros, pediam dinheiro emprestado a amigos ou infligiam tormentos aos seus entes queridos por despeito de afetos. Uma senhora idosa, desligou o auscultador, encostou-se ao aparelho e desatou a chorar. Porém casos assim só aconteciam fortuitamente.

Numa tarde ensolarada de Verão, o poeta entrou na cabina. Ligou para o editor e disse:

– Tenho as últimas quatro linhas!

Leu quatro linhas de poesia de uma folha de papel desasseada.

– “Oh, que deprimente”, disse o editor. – “Reescreve-as novamente, mas num tom mais animado”.

O poeta argumentou em vão. Poisou o telefone com um movimento brusco e retirou-se.

Durante algum tempo ninguém se aproximou, a cabina ficou vazia. Depois apareceu uma mulher gorda e de boa idade, com seios proeminentes, trajada com um vestido de verão em estampado floral. Queria abrir a porta da cabina.

A porta abriu-se com dificuldade. No início não se queria abrir, mas depois escancarou-se repentinamente, sacudindo-a de volta para a rua. A porta respondeu à nova tentativa de uma forma que poderia ter sido descrita como se de um pontapé se tratasse. A senhora cambaleou para trás e estatelou-se contra o marco do correio.

Os passageiros à espera do autocarro agruparam-se em redor. De entre eles, destacava-se um homem de pasta e de compleição robusta. Tentou entrar na cabina, mas foi atingido com tanta violência, que caiu para trás na calçada. Cada vez mais pessoas se aglomeravam ali, fazendo comentários sobre a cabina, o marco do correio e a corpulenta senhora das flores. Algumas pessoas alvitravam que estaria eletrificada, outras julgavam que a corpulenta senhora das flores e a sua cúmplice estavam a tentar roubar moedas do telefone, mas foram apanhadas a tempo. Durante algum tempo, a cabina ouviu em silêncio as suposições desinformadas, deu meia-volta e partiu calmamente pela Avenida Rákóczi. No cruzamento, o semáforo passou para vermelho, a cabina parou e esperou.

As pessoas olharam, mas não disseram nada; no nosso país não se surpreendem com nada, salvo com aquilo que é natural. Entretanto chegou o autocarro, levou os passageiros, e a cabina começou a vaguear alegremente ao longo da avenida Rákóczi, naquela brilhante tarde de Verão.

Olhava para as montras da loja. Passou por uma florista, algumas pessoas viram-na entrar numa livraria, mas podem tê-la confundido com uma outra pessoa. Numa taberna de uma rua lateral, emborcou um shot de rum, depois passeou ao longo das margens do Danúbio até à Ilha Margarida. Nas ruínas do antigo mosteiro, avistou uma outra cabina telefónica. Continuou a andar, depois voltou para trás, finalmente atravessou para o outro lado e fez olhinhos à outra cabina. Mais tarde, quando escurecia, tropeçou num canteiro e prostrou-se entre as rosas.

O que teria acontecido durante a noite junto às ruínas ninguém sabe porque a iluminação pública da ilha é fraca. Mas no dia seguinte, os primeiros transeuntes notaram que a cabina em frente às ruínas estava coberta de rosas vermelho-púrpura, e a linha telefónica tinha sido desligada por engano durante todo o dia. A outra cabina já não se encontrava no mesmo sítio.

Deixou a ilha ao amanhecer e seguiu para Buda. Subiu o monte Gellért, por colinas e vales até ao topo do monte Hármashatár, depois desceu a encosta e começou a conduzir ao longo da estrada nacional. Nunca mais foi vista em Budapeste.

Fora da cidade, para além das últimas casas do Hűvösvölgy, mas bem longe da aldeia de Nagykovácsi, existe um prado de flores silvestres. Só é suficientemente grande para uma criança pequena correr à sua volta sem ficar sem fôlego, e está tão escondido entre as árvores altas como um olho de mar. É demasiado pequeno até para ser cortado, de modo que, a meados do Verão, a relva, as ervas daninhas e as flores já dão pela cintura. Foi aqui que a cabina se instalou.

Os caminhantes que passam por aqui aos domingos ficam encantados. Apetece-lhes pregar uma partida a alguém que ainda está a dormir o sono dos justos, ou lembram-se de telefonar para casa para colocar a chave que deixaram debaixo do tapete. Entram na cabina, que se inclina ligeiramente sobre o solo macio, e à medida que as flores silvestres de haste longa se inclinam na entrada da porta atrás delas, pegam no telefone.

No entanto o auscultador não dá qualquer sinal. Em vez disso, quatro linhas de poesia ressoam no auscultador, tão suavemente como se tocadas num violino com surdina a abafar as vibrações… O telefone não devolve as moedas, mas por enquanto ainda ninguém se queixou.

 

Tela em destaque: Egy illusztráció Örkény művéről

Autor: István Örkény

Título Original: Ballada a költészet hatalmáról

In: Egyperces novellák – Örkény István

Tradução: Arnaldo Rivotti

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