Pál Ferenc: Babits Mihály (1883 – 1941)

por Pál Ferenc

Poeta, escritor, historiador de literatura, tradutor. É um verdadeiro “poeta doctus” cuja poesia se nutre da antiguidade clássica e figura destacada na literatura húngara no início do século 20, membro da primeira geração da revista Nyugat.  No inicia da carreira trabalhava como mestre de escola primária em várias cidades de província e, finalmente, numa escola primária em Budapest. Os seus primeiros poemas foram publicados na antologia Holnap (1908).

Em 1909, saiu o seu primeiro volume, Folhas da Coroa de Iris, e o seguiu, dois anos mais tarde, o livro Príncipe, talvez venha o inverno.  Em 1913, deu à luz um romance fantástico: Califa-cegonha.  Por causa do seu poema Eu brincava com as suas mãos que se considerava anti-patriótico e contra a guerra, ele perdeu o cargo de professor. O seu terceiro volume de poesia, Recitativ, foi publicado em 1916.

Ele era colaborador-geral da revista Nyugat, e lecionava na universidade. A partir do início da década de 1920, se tornou uma figura marcante na vida cultural da capital húngara.

A partir de 1929, ele foi redator geral da Nyugat. Em 1933, escreveu seu último romance, A Piloto Elza, ou a sociedade perfeita, que mostra um mundo em guerra constante, sem saída.  O último, importante livro de poemas,. O livro de Jonas foi publicado em 1938.

Entregamos alguns dos seus poemas na tradução de Ernesto Rodrigues

O EPÍLOGO DO LÍRICO
A lírikus epilógja

Só eu posso ser herói de meu verso,
nas minhas canções, início e fim:
desejo decantar o universo,
mas não pude ir ainda além de mim.

E creio, já, que nada existe fora
de mim, mas, se sim, porquê sabe Deus.
Noz cega fechada na casca, ora
espero que a partam em desgostos meus.

Do mágico círculo sair não
sei. Só a flecha do desejo tem
saída – mas, sei, de voo incompleto.

Eu fico, de mim mesmo a prisão,
orque eu sou sujeito e objecto,
ai, alfa e ómega sou também.

Inverno de 1904

BALADA SOBRE O VÉU DE ÍRIS
Ballada Írisz fátyoláról

Virá variegada Primavera:
manchas brancas e pontos encarnados,
árvores em flor, primaveris cuidados,
em covas frescas, cheiro de cipreste,
e cai flor branca na lama castanha,
vermelho crepúsculo vento diz;
desejo mortal toma as musas tristes
orna de verde seu vestido Íris.

E virá variegado Verão:
ruas cheias de pó, arenas secas,
cumes vermelhos em estacas de terra,
chuva de prata em rosas de fogo,
flor caindo de vermelhas papoilas:
mal desabrocha, cai a flor, aqui;
curvo centeio para a foice cresce,
quando
abre seus olhos tão ardentes Íris.

E virá variegado Outono:
folhagem dourada, avermelhada,
pomar de fruta, loquazes colinas,
pálidas folhas em ramo com cãs,
rumor de vegetação na charneca;
o vento vagabundo chora, ri;
à noite, rude céu é amarelo,
quando
dilacera seu véu de nuvens Íris.

Príncipe! Quando, pois, virá Inverno?
Será no branco, será no castanho,
nas variegadas flores de gelo,
quando
sobre si branco luto lança Íris.

Primavera de 1909

PERGUNTAS DA NOITE
Esti kérdés

Quando a noite, esta manta branda,
negra, lisa manta de veludo
que estende uma gigantesca ama,
lentamente cobre a terra resguardada,
e tão cuidadosamente, que cada fio de erva
fique, direito, sob doce véu,
e não curve a pétala das flores,
e as duplas subtis asas das bordadas borboletas
não percam o esmalte de arco-íris
e assim descansem na sombra velada,
leve, liso, aveludado véu,
esse véu de que nem sentem o peso:
então, por onde andes, no vasto mundo,
ou estejas em casa, sentado no quarto escuro e triste,
ou vejas, no café, admirado,
que acendem, um após outro, candeeiros de gás de luz solar;
ou, cansado, com teu cão na falda da colina
observes a preguiçosa lua entre as frondas;
ou pela estrada, que levantou pó,
teu cocheiro ensonado, cabeceando, te conduza;
ou tenhas vertigens no chão vacilante
do navio, ou no assento do comboio;
ou, errando através de uma cidade estrangeira,
pares nas esquinas para admirar, tranquilo,
o longo fio de ruas longínquas,
a dupla linha de ruas em chamas;
ou até em cidade aquática, no Riva,
onde um espelho opalino, estragado, pontilha chamas,
tenhas saudades do passado longínquo regressando,
cuja recordação docemente te tortura,
tempo ido que, qual imagem da
lâmpada encantada, está presente, mas não existe,
cuja recordação nunca pode ser fria,
cuja recordação é um peso, mas também um tesouro;
aí, tua pesada cabeça de recordações
no chão de mármore possas inclinar:
entre puras belezas e em prazeres andando,
irás só ainda pensar, cobarde:
toda esta beleza para quê?
Irás ainda pensar, órfão:
para quê a água de seda, o mármore multicolor?
Para quê a noite, alada manta?
Porquê as colinas e porquê as frondas,
e o mar, que ninguém semeia?
Para quê os fluxos, para quê os refluxos,
e as nuvens, essas tristes Danaides,
e o sol, essa pedra de Sísifo escaldante?
Para quê as recordações, para quê os passados?
Porquê as lâmpadas e porquê as luas?
Porque é que o tempo não mata o seu fim?
Ou toma exemplo do minúsculo fio de erva:
porque cresce a erva, se há-de secar?
Porque seca, se de novo cresce?

Primavera de 1909

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