“Assisti em Timor à grande pressão de potências para que a língua oficial não fosse o português”

por LMn

Agora na presidência do Instituto Camões, o embaixador João Ribeiro de Almeida está decidido a promover a língua portuguesa aproveitando o interesse que se sente da América Latina até à China por um idioma que, lembra, é já o mais falado no hemisfério sul. E recorda como em Timor o português ajudou a construir a identidade nacional.

Da sua experiência como diplomata, de andanças pelo mundo, houve algum momento em que encontrasse uma situação a envolver a língua portuguesa que o surpreendesse?
Não de surpresa, no sentido em que fui diplomata em dois países de língua oficial portuguesa, Timor e Angola, e depois andei por três países de língua espanhola, que, por causa das cidades onde vivi, costumo dizer que são os meus três B (Barcelona, Bogotá e Buenos Aires). Em Timor encontrei uma coisa impressionante, que é o valor de uma língua como reafirmação da identidade nacional, muito mais do que cultural. A língua fazia parte do plano deles para a identidade nacional. E assisti também em Timor à grande pressão de outras potências para que a língua oficial não fosse o português. Timor está ali ensanduichado entre o bahasa indonésio e o inglês da Austrália e fui testemunha da força da língua portuguesa, política e não só, cultural, para reafirmação dos valores e da identidade nacional daquele povo.

Na liderança da independência, Xanana Gusmão, José Ramos-Horta, Mari Alkatiri, todos eles falavam português.
Falavam e faziam questão disso, mesmo para demonstrarem na região que eram diferentes e a sua manifestação de soberania passava muito por falar a língua portuguesa. Tive muito mais do que uma experiência de irmandade com os timorenses porque foi aquela admiração de uma pessoa agarrar na língua como instrumento de identidade nacional e soberania. E há muito poucos casos no mundo e eu tive a sorte como diplomata de assistir a isso, e Timor estava muito pressionado para ter outra língua oficial, sobretudo o inglês. O português ali, sabe Deus as dificuldades que teve para se reafirmar porque tínhamos perdido duas gerações, com a invasão indonésia, de pessoas que não falavam português, e ainda hoje aqui no Camões continuamos como prioridade de política externa a fazer investimento do português em Timor.

Há ação do Camões na promoção da língua portuguesa em países de língua oficial portuguesa, como Timor e os cinco em África, e também junto das nossas comunidades de emigrantes em França ou na América, mas ainda em países como, por exemplo, a Hungria , onde há um interesse mais intelectual…
Hoje em dia a língua portuguesa e a promoção da cultura portuguesa têm muitos aderentes e muito entusiasmo pelo mundo… mas não é só uma questão de língua materna ou de herança, hoje há um interesse mais vasto. Uma das nossas apostas aqui no Camões é também tornar o português uma língua de ciência, conhecimento e inovação. As pessoas esquecem-se deque o português é a língua mais falada no hemisfério sul e a dinâmica da língua tem de ser de uma língua de afeto, no sentido de materna ou herança, mas depois desperta muito interesse… Os estrangeiros dizem “que lindo que é ouvir falar português”, e desde essa curiosidade do ponto de vista acústico da língua até saberem que é uma das línguas mais faladas do mundo fazem que outro grupo, que não tem nada que ver com lusodescendentes ou a comunidade portuguesa, se interesse pela língua portuguesa, seja na variante europeia ou da América do Sul ou na africana. Isso mostra bem a dinâmica e quão viva a língua está, sobretudo porque temos de projetá-la também como língua de ciência e inovação. O Camões está muito atento a isso.

A China, potência em ascensão, tem mostrado grande interesse na língua portuguesa. Quais são os números atuais?
O caso da China é precisamente um dos que melhor demonstram o crescente interesse pela língua portuguesa, sendo mais uma manifestação da pujança do nosso idioma
(e conviria recordar que normalmente os chineses são conhecidos por investirem em “ativos” que sabem que serão de sucesso), com o seguinte panorama: 47 instituições de ensino superior com curso de Português Língua Estrangeira, com maior incidência no eixo Pequim, Xangai, Cantão e Macau, mas cobrindo já parte significativa, em particular na área litoral, do território chinês. Pequim, com dez instituições, lidera naturalmente esta lista, mas o português, para além das regiões administrativas oficiais, é oferecido em cerca de duas dezenas de províncias. O número de alunos já ultrapassou a fasquia dos quatro mil e aproxima-se rapidamente dos cinco mil através dos três cursos de mestrado, 31 licenciaturas, dois bacharelatos e mais de uma dezena de cursos livres. Perto de quatro dezenas de docentes destes cursos são portugueses, dos quais três (um leitor e dois docentes apoiados) são do Camões.

A nossa língua, em termos de língua materna e também de pessoas que a falam como segunda língua, aproxima-se dos 300 milhões. O Brasil aqui claramente dominante, mas Angola é também cada vez mais um promotor da língua portuguesa em África.
Absolutamente. Aliás, segundo as projeções para o final do século, vai haver um momento em que a África lusófona vai ser, no seu conjunto, a região onde se irá falar mais português no mundo. Tem havido grande investimento destes países, o que mostra que a língua é um ativo impressionante e também económico, com o nosso apoio. Já fui diplomata e senti bem a força da língua portuguesa e da cultura lusófona em todas as suas variantes. Começa a haver investimento na língua, que é a língua comum, e porque esses países percebem que investir na sua língua é investir também no seu país em todas as vertentes.

No caso de Angola o português é não só a língua oficial mas a língua franca.
É através do português que muitas populações de línguas locais comunicam entre si, e isso ajuda à unidade do país. Fui diplomata em Benguela, numa zona onde os angolanos são de uma gentileza, educação e cortesia muito especiais, e eu via bem que ali, entre todos aqueles grupos linguísticos do planalto angolano, era através do português que comunicavam, porque as línguas locais eram indecifráveis uns para os outros.
O português tem esse potencial de ser a língua intrapaíses em que as pessoas comunicam de uma ponta da fronteira à outra ponta da fronteira.

Recentemente o Camões editou um livro juntamente com o Instituto Cervantes. Português e espanhol estão em competição ou podem ser aliados?
Podem ser aliados. São duas línguas muito próximas, com tudo o que isso tem de positivo e de negativo, até há quem diga o disparate de que vão acabar por se fundir. A minha última atividade diplomática foi em países de língua espanhola e é interessante ver o respeito que têm pelo português qualquer um desses três países que têm fronteira com países de língua portuguesa, Portugal ou aquele colosso que é o Brasil. É interessante ver nestes países a força e a riqueza do espanhol e o português ali presente como língua de respeito que as pessoas começam a estudar. Uma das coisas que gostaria de fazer um dia era um dicionário de falsos amigos entre o português e o espanhol. São ambas línguas muito ricas e um dicionário destes só se faz com duas línguas muito fortes.

Gosto especialmente do “espantoso”.
Tenho uma história sobre o “espantoso” [risos]. Em 2013, Portugal foi o convidado de honra na Feira do Livro de Bogotá. Na altura eu era embaixador lá, aquilo implicou uma visita de Estado e houve um dia, tinha acabado de chegar de Barcelona, em que me pedem para fazer uma conferência de imprensa a apresentar o programa português da feira do livro, onde tínhamos uma plêiade impressionante… tínhamos o Eduardo Souto de Moura, o saudoso Graça Moura, muitos que foram lá, e uma embaixada de escritores muito interessante. E eu estava a explicar aos colombianos quem é o Afonso Cruz, que é uma pessoa de quem gosto muito… estava a explicar que era um homem do Renascimento, que escrevia, fazia cerveja, pintava, tinha o seu grupo musical… e, no meio do meu entusiasmo, digo “portanto, é uma pessoa espantosa” e quando digo isto vejo a plateia de jornalistas colombianos a ficarem com uma cara estranha. E diz-me o pessoal da embaixada, “espantoso não”, e aí é que percebi bem que em espanhol a palavra tem uma conotação negativíssima, enquanto para nós é o contrário. Isto para dizer o que são português e espanhol, são duas línguas que se respeitam. Esta última edição que se fez com o Cervantes é sobre a projeção internacional de ambas as línguas e é um sinal de que ambas podem caminhar juntas.

Tanto Portugal como Espanha escolhem nomes de escritores para os seus institutos. Escritores cheios de mundo, enquanto Luís Vaz de Camões andou pela Ásia, Miguel de Cervantes combateu na Batalha de Lepanto e foi espião em Argel.
Eram homens do mundo. Ambos foram soldados. Eram homens que sabiam, tinham termos de comparação e viram muita coisa pelos sítios por onde andaram. Isso demonstra o universalismo de ambas as línguas. Hoje em dia o espanhol e o português vão caminhando, sabem que podem cooperar – aliás estão em regiões do mundo em que só têm é de cooperar, não podem estar de costas voltadas – e por isso projetos como este do Camões-Cervantes são muito importantes. Estou à vontade para falar porque estive em dois países de língua espanhola importantes, Colômbia e Argentina, na América Latina e sei a importância que o espanhol tem lá mas também sei o carinho que têm pelo português, até porque é a língua de um colosso que é vizinho de ambos os países, que é o Brasil.

Tem ideia da primeira tarefa importante que vai ter como presidente do Camões?
A minha tarefa agora é consolidar o que são prioridades em política externa do governo na área que tutelo aqui, que é o ensino da língua portuguesa e a promoção do português e a parte toda da cooperação portuguesa – cuja grande parte é feita com os PALOP embora não só. Neste momento a minha função é seguir as diretrizes da política externa em relação à continuidade da difusão da língua portuguesa em toda a sua pujança, mas num ano muito atípico em que vamos ter de apostar, tendo em conta as restrições de mobilidade ou de apresentação de espetáculos, no digital. Temos de ser realistas. Neste momento estou a ser um bocadinho menos estrutural e mais conjuntural.

Um país como Portugal que usa muito o soft power, a pandemia não é um momento que facilite a ação do Camões.
Exatamente. Soft power e pandemia é como a água e o azeite mas estamos cá para tentar minimizar isso e também temos de apostar no digital, todos nós desejando que passe rapidamente esta perfeita loucura que foi o ano de 2020, porque foi muito complicado fazer espetáculos culturais. Aliás, a cultura foi uma das principais afetadas no país. Depois imagine o que é o impacto disto em tudo o que são atividades culturais no estrangeiro, em que muitas nem se realizaram.

Pensemos que 2021 é o ano da recuperação, de saída da pandemia. E em 2022 temos os 200 anos da independência do Brasil. Imagina que seja possível algo extraordinário de celebração da língua comum?
Estamos a pensar. Obviamente que depois será tudo endossado e aprovado pela tutela, mas estamos a pensar fazer um bicentenário à altura porque a ancestralidade dos laços luso-brasileiros é o que é. E aproveitar esta conjuntura de que o antigo presidente do Camões é, nessa altura, embaixador em Brasília e quem está aqui à frente do Camões conhece bem a realidade da América Latina. Estamos a ver isso com a Embaixada do Brasil cá, mas o anúncio em si será a tutela a fazer. Uma coisa posso assegurar: imaginação e criatividade da nossa parte não faltarão.

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