Assim se preparava o Natal em Lisboa – Os Vendedores de Perús

por LMn

E pelas ruas os bandos de pernaltas lá vão saltando pela lama, transidos de frio, igru-gru, apanhando o seu carolo com a cana do vendilhão, que apregoa aos quatro ventos é casal de piruns

Um dos «quadros» que mais emprestavam a Lisboa o carácter de uma época festiva — como hoje as grandes iluminações das ruas e das montras — era o tradicional aparecimento dos vendedores de perus. Com a ajuda de longas canas conduziam e mantinham

os bandos de perus em perfeita disciplina, soltando ao mesmo tempo os seus ululantes e estridentes pregões:

— Méér-c´ò casál de perús!…

— Perú salôôiô! É sa-lôôiô!!!

— Olha óóó pru da roda vó-óóó-a!

Lisboa prepara n’este momento a festa do Natal. Grandes rebanhos de perus, enrabeirados de lama, espalham no macadame, as suas manchas movediças e escuras, de reflexos de aço, adornadas das florescências brancas e vermelhas dos moncos. Pessoas idóneas pastoreiam esses galináceos guiando-os a golpes de cana por entre as rodas dos trens e por entre as pernas dos viandantes. Na compra destes perus convém escolher os mais teimosos: à força de cana são esses os mais tenros.

Dias antes do Natal os saloios apareciam a vender perus pelas ruas da cidade exibindo os bandos de aves mais propriamente pelo largo de S.  Domingos, praças da Figueira e do Camões e outros locais por aí. Era ver os gordos perus carecas, os moncos avermelhados ou azuis, consoante seus estados de espírito, tufando-se e abrindo os rabos em leque na vã tentativa de querer imitar os pavões, perdendo embora seu feitio brigão,  acobardados, talvez na dúvida dos seus destinos, fazendo ouvir os gluglus repetidos ao primeiro assobio do vendedor para os manter empertigados, atitude que em breve acabaria numa fatal bebedeira de bagaço quando, em ablativos de morte, lhes poupavam carinhosamente o desgosto de assistir ao seu próprio fim, para regalo das jantaradas que sempre comemoraram o nascimento do Menino.

Fonte: https://lisboadeantigamente.blogspot.com/

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