As Palavras-Peixes: um Poema Anglo-Português

por Garry Craig Powell

O que sente um inglês na margem do rio Lima? Seria fácil cair em misticismo e sentimentalismo – porque de fato o rio é de uma beleza deslumbrante, e até místico, e uso a palavra não no sentido idiomático, que quer dizer ‘misterioso’, mas no sentido preciso e literal. Um místico é uma pessoa que vê o divino em tudo, que sente a unidade, e a espiritualidade, de todos os seres vivos e mesmo do mundo mineral. Por outras palavras, um poeta. Puramente por acaso, assisti à primeira reunião na Feira do Livro de Ponte de Lima de um grupo de escritores e outros artistas que viriam a fundar a Associação de Escritores, Jornalistas, e Produtores Culturais de Ponte de Lima. (Um nome um bocado verboso, na minha opinião – e já lhes disse, porque integrei-me na associação como sócio.) Aqui não vou falar das muitas atividades da associação, mas só de uma delas. O ano passado, o nosso presidente, o ilustre poeta e pintor Dr. Fernando Hilário, teve a ideia de fazer um livro de poesia, acompanhado por fotos, inspirado pelo rio Lima, e pediu que eu contribuísse, em português, naturalmente. Inicialmente, eu receava que não seria capaz, primeiro porque não costumo escrever poesia, e segundo porque nem tinha escrito nada em português, até então.

No entanto, tentei, e consegui escrever um poema, que reproduzo aqui. Disseram-me que era muito diferente dos outros poemas do livro, escritos por poetas portugueses. Uma professora universitária, a Dra. Isabel Patim, disse-me que é um poema muito norte americano. Mas espero que não seja! De fato em geral não gosto da poesia americana, com os conceitos pretenciosos da ‘language poetry’ (que não precisa de ter nenhum sentido, desde que soe bem), e os temas preferidos de justicia social e a política de identidade, com as narrativas intermináveis da vitimização. É a poesia do coitadinho (ou melhor, a coitadinha!), em tons raivosos. Enfim, a poesia do escravo, no sentido Nietzscheano. Mas basta da arenga de um representante do patriarcado tirânico, certo? E deixo as palavras-peixes a falar por si.

As Palavras-Peixes

Deslizam nesta água ondulada
E morna as palavras, as minhas,
As minhas palavras prateadas
Como peixes, como enguias;
Fogem de mim as minhas palavras
Sopradas, os meus pensamentos
Mal pensados, neste rio que pertence
À nossa mãe, a deusa ensopada.
Pesco e penso e deixo de pensar.
Lanço a minha rede do barco
Mas no calor estival as palavras
Que sou eu, pescador e pecador,
Estas palavras vestidas
De escamas de ferro, com espinhas
Flexíveis, fogem todas,
Abandonando-me.
A rede está vazia.
A minha alma fugiu.
Onde está? No leito do rio
Sonolenta, ou nadando
Com a corrente, contra a maré
No sentido da foz salgada e turbulenta?
Será que essa criatura encaixada
Na sua armadura de prata sente
A vontade tonta, escorregadia,
De deixar a água doce do rio,
Como a lampreia que sente
A necessidade de nadar até ao mar
Que desconhece?

Ofereço o poema com toda a humildade. Não pretendo que seja poesia imortal, como a de Fernando Pessoa ou de Camões. É apenas o que sente um inglês na margem do rio Lima.

 

© Copyright Garry Craig Powell, 2021

Imagem em destaque: Dayana Galindo

Print Friendly, PDF & Email

Também poderá gostar de

O nosso website utiliza cookies para melhorar a sua experiência de navegação. Aceitar Ler Mais

Privacidade